Cara, careta, carão (e a quadra)


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1. A quadra

A quadra, formada por versos de sete sílabas que rimam, via de regra, o segundo com o quarto e o primeiro e com terceiro, é um dos modos fixos do poema. Praticada amplamente desde a Antiguidade Clássica, em especial através dosepigramas, tem expressiva presença no barroco.

Ainda que com destacada importância no Modernismo, tanto brasileiro quanto europeu, é através da poesia provençal que ela nos chega. E faz-se presente, hoje, principalmente, nos repentes, desafios e cordéis dos cantadores nordestinos.

Embora simples na forma e versando sobre temas triviais, não é uma poesia que todos consigam exercer a contento. Quem pensa que o simples é fácil, já se engana na premissa principal. E aí tropeça no que acredita ser uma quadra poética – quando, na verdade, estamos diante de uma quadra quadrada, uma quadra careta. Ou seja: feita segundo as normas dos manuais de versificação. Mas desprovida de poeticidade.

Pois bem, entre tantos, Manuel Bandeira valeu-se da quadra em vários poemas onomásticos. Fernando Pessoa escreveu suas célebres “Quadras ao gosto popular”.  Ambos saíram-se muito bem, quer pelo exercício de uma linguagem propositadamente despretensiosa, quer pela engenhosidade de captar o poético em versos coloquiais nada previsíveis.

Uma quadra de Fernando Pessoa:

 

Tenho um relógio parado

Por onde sempre me guio.

O relógio é emprestado

E tem as horas a fio

 

O relógio que serve de guia é, aqui, um relógio parado. O tempo para o eu-lírico é o da inexistência? Todavia, ar relermos a quadra, constatamos que o precário, o incerto, o minguado instauram-se ainda mais na vida deste eu que se declara não ser proprietário de um relógio que sequer funciona. Eis que aí reside uma das chaves que abre a quadra ao inesperado e ao poético: mesmo parado, o relógio processa o tempo. O relógio – consciência do eu – acusa o tempo inefável e permanente. Que não para.

Valendo-se da simplicidade formal da quadra, Pessoa propõe uma reflexão sobre a brevidade do tempo e da existência. Não em si. Mas na contracorrente da relação viver e experienciar a existência em profundidade.

Ao seu modo, despojado e brincalhão, Bandeira dedicou uma quadra a Santa Roza:

 

Quem é malungo, malunga.

Se não presta este Mafuá,

Ponha, meu Santa, um calunga

No anterrosto, e prestará

 

Tudo leva a crer que se trata de uma dedicatória escrita no livro Cafuá do Malungo, do próprio Bandeira, quando oferta-o ao amigo Santa Roza.

Esta quadra é uma lúdica reunião de sons e termos partícipes do universo da cultura popular. Entrelaçados com o espelhar dos universos infantil e adulto: lazer e humor. O poema sentencia: quem não é companheiro e irmão (= malungo), ao menos o seja na “cachaça” (= malunga), ou que se faça passar por camarada. E há um recado para o Santa:neste parque de diversões (= mafuá), que é o lançamento do livro de poesia, use uma máscara com desenhos infantis (= calunga). Assim, tudo acaba em brincadeira e alegria.

O leitor logo percebe que a quadra bandeiriana lança-se simples no instante-já para atingir o instante-depois. Entende que os versos em redondilha maior não visam à rima pura e simples, ou a um reles trocadilho que tenha como resposta o riso fácil e amarelo.

O leitor adentra no mundo de Bandeira e constata que o poeta joga com a vivacidade da cultura popular, investindo no desvelamento que se dá “por baixo dos panos”. Ou como diria Derrida: que se processa “no fundo de cena da escrita”.

Enfim, as visadas de Pessoa e de Bandeira revelam um enquadramento em 3D que capta o agora para imortalizá-lo no devir. Para os dois poetas, colher o cotidiano com olhos livres é o inverso de injetar-se da tolice, do simplório, do ingênuo, da patetice do senso comum. Ao contrário: é desvendar o conhecido como nunca o fora demonstrado.

Ah, pois: eis a beleza da quadra: ser eterna metonímia e não rasa metáfora.

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2. Quadras paulistanas

Fabrício Corsaletti é paulista (1978). Publica poesia, livros infantis e narrativas pela Companhia das Letras. É colunista da Folha de S. Paulo. Formou-se em Letras pela USP. Com o livro de poemas Esquimó arrebatou o Prêmio Bravo! 2011. Com Quadras paulistanas (São Paulo: Companhia das Letras, 2013) foi finalista do Prêmio Portugal Telecom do ano passado. Um belo currículo. Indiscutivelmente.

Ao lermos as quadras de Fabrício Corsaletti, garante-nos Alcino Leite Neto na quarta capa do livro: “Embriagado de realidade, o poeta-cronista flana por aí sem amarras, misturando ao léu objetividade e lirismo, imaginação e notícia, testemunho e confidência, sublime e nonsense”. E completa: “Uma São Paulo surpreendente emerge das quadras”. Alcino Leite Neto mente. Não se comprova uma palavra do que afirma. Isto decepciona o leitor atento, criterioso. Ao abrirmos Quadras paulistanas deparamo-nos com:

 

na Liberdade entendi

(no auge da embriaguez)

não há nada mais bonito

do que um bebê japonês.

 

Nem com o aval da embriaguez o poeta tem o direito de produzir imagem tão torpe. O leitor sente-se traído ao constatar que há uma construção forjada de rimas e de um pretenso humor.

Mais adiante a pasmaceira continua em

 

“VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO”

diz o aviso, “SORRIA”

eu bizarramente sinto

uma ponta de alegria

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O leitor tem mesmo de submeter-se a este olhar tolo do eu-lírico? Fabrício Corsaletti pensa que isto seja observação poética sobre o trivial da vida? Leia Bandeira. Leia José Paulo Paes. Leia Leminski. Leia Pessoa. Mas, por favor, não nos venha com quadrinha de quinta categoria. Nós, leitores, não somos beócios. E sentimo-nos constrangidos com versos deste naipe.

Consideremos este que, na certa, o poeta imagina ser um chiste de primeira linha – quando não passa de uma bizarra quadrinha:

 

morrer talvez me agradasse

me sinto estranho e sozinho

mas, morto, como comer

a bisteca do Sujinho?

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Nos dois versos iniciais, pode parecer que o “poeta” esteja promovendo uma interlocução com a poesia de Álvares de Azevedo e/ou com a de Mário de Andrade. O primeiro, pela via do lado sentimental e mórbido. O segundo, através da crônica que tematiza a cidade. Infelizmente não é nada disto. Pensamos e nos frustramos. O verso “chave de ouro” é um tiro no pé: nem dá sequência à sugerida ideia de transitoriedade da vida, e/ou da vivência na trépida cidade, nem faz justa referência a um dos pontos mais tradicionais e frequentados de São Paulo hoje, o Sujinho. Creio que nunca este bar e restaurante fora tão ultrajado. O leitor de quadras, certamente também não.

Mas tem mais. Eis a pérola que se pretende político-poética:

 

prefeitos, vereadores

não fazem necessidades

pois como explicar a falta

de banheiros na cidade?

 

Leitor, convenhamos: nem um panfleto de enésima categoria seria capaz de tamanha afronta. Lamentável. Não dá pra rir da equação. E nem pra chorar. O “poeta” conseguiu esta proeza. Somos invadidos pela imbecilidade de suas anotações. Em tempo: uso aqui o termo “imbecilidade” na acepção de “atraso mental acentuado, situado entre a debilidade mental e a idiotia”, segundo o dicionário do Aurélio.

No enfadonho rol das Quadras paulistanas há algo que beira à fixação psicanalítica do poeta:

 

em São Paulo tem de tudo

museu, teatro, metrô

mas nenhum banheiro público

pra gente fazer cocô

 

Pergunto ao leitor: o que o dito “poeta” faz no poema é o que não consegue fazer na rua? Confere? Então, Fabrício Corsaletti, por favor, escolha melhor seu alvo. Poesia não é lata de lixo para suas necessidades bio-psíquico-pseudoliterárias. E nós, leitores, não somos depositários de quadras pretensamente poéticas – quando, de fato, são inominável afronta à poesia.

Bem, para encerrar, esta fina tautologia tão ao gosto da dita poesia marginal:

 

cearense é cearense

carioca é carioca

gaúcho sempre é gaúcho

paulistano vem de fora

 

Trocadilho estúpido com o paulistano. Constatação desprezível com o cearense, o carioca, o gaúcho. Dá para levar a sério este livro de Fabrício Corsaletti? Desculpe-nos, Alcino Leite Neto, mas discordamos radicalmente de sua avaliação de Quadras paulistanas.

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3. O quadrão

Cego Aderaldo (1878-1967) é poeta popular cearense. Dono de grande perspicácia poética, integra a poesia da oralidade, muito prestigiada no nordeste brasileiro. Ficou nacionalmente conhecido por um desafio travado com Zé Pretinho, na primeira década do século passado. É de sua autoria o seguinte “quadrão” –  que é uma quadra duplicada no número de versos:

 

Eu canto o quadro quadrado,

Quadrado bem quadrejado,

Meu quadro é quadriculado

Por causa da quadração,

Porque minhas quadras são

De maneira bem quadrada.

Por isso meu verso enquadra

Quadrado, quadro, quadrão

 

Os jogos sonoros e semânticos remetem o leitor ao próprio fazer poético, em explícita metalinguagem.  Enquanto isto, os versos vão construindo o poema tal como ele se move entre o improviso e o domínio da consciência da linguagem poética. Esta operação é brilhante. Explico-me: o inesperado entranha-se em cada ideia apresentada – o bem como na reverberação sonora e semântica de um vocábulo dentro de outro. Ao ato metalinguístico de fazer o poema, ele é concomitantemente pensado como sujeito crítico. Ou seja: criação e crítica mescladas como massa do mesmo biscoito fino. Grande homenagem à inteligência e à sensibilidade do leitor. Matuto ou não. Isto pouco importa. E é bom que se frise: e eis aí a dita poesia popular, tão depreciada na academia e tão pouco valorizada fora dela.

Graças a Augusto de Campos, com sua prática de leitor e pesquisador sem limites, aberto ao vasto leque das variantes poéticas – estejam e estendam-se elas por onde for  – pude tomar conhecimento do quadrão de Cego Aderaldo, acima transcrito, e que consta do livro Verso, reverso, controverso, do poeta paulista.

Cego Aderaldo é um dos muitos exemplos de que a poesia é feita com linguagem – e não com manipulação do mercado editorial, jornalístico e/ou literário deste país. Se fosse regra a qualidade literária in strictu sensu, certamente Quadras paulistanas jamais seria publicado. E menos ainda finalista de prestigiado prêmio nacional de literatura.

Fabrício Corsaletti tem muito a aprender sobre quadras, antes de publicá-las. Avant la lettre, Cego Aderaldo dá-lhe o merecido “carão”.

 

 

 

 

 

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Amador Ribeiro Neto nasceu em Caconde (SP), em 1953. Autor de uma dissertação e uma tese de doutorado sobre a criação lítero-musical de Caetano Veloso, recebendo os títulos de mestre em Teoria Literária pela USP e doutor em Semiótica pela PUC/SP. É autor de “Barrocidade” (Landy Editora, 2003). Integra as antologias Na Virada do Século, organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa e Poemas que escolhi para as crianças, organizada por Ruth Rocha. Atualmente vive em João Pessoa, onde leciona na UFPB.  Durante muitos anos escreveu regularmente crítica literária em diversos jornais de São Paulo. O autor escreve periodicamente nos blogues augustapoesia e em festassemiotas. E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br




Comentários (5 comentários)

  1. W. J. Solha, Brilhante.
    24 junho, 2015 as 9:11
  2. JOSE WALKER, Como diria o poeta “nem todo belo é beleza”, é dessa forma que o grande mestre nos faz enxergar a poesia, parabéns Amador!
    24 junho, 2015 as 13:01
  3. Daniel Alves, Parabéns pela coluna, Amador! Sucesso!
    25 junho, 2015 as 14:02
  4. Mauro Mendes, Genial a valorização do poeta Cego Aderaldo com a menção a este merecido carão!!!!
    30 junho, 2015 as 2:34
  5. Mauro Mendes, Precisamos de artigos como este para valorização dos poetas e cantadores nordestinos.
    30 junho, 2015 as 2:38

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