Bibliotecas comunitárias de Pernambuco


Parte 1

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Biblioteca é lugar de ação cultural. Começo meu texto com essa expressão para destacar a importância das bibliotecas encravadas em comunidades. Uso o verbo encravado que é para defender que, desde que organizada e reconhecida pela comunidade, uma biblioteca é o ponto de tensão dos anseios, dos sonhos, e das realizações das pessoas. Assim, se a biblioteca está gravada, encravada no imaginário das pessoas, ela representa o espaço das ações emancipatórias e libertárias da comunidade. Ela não é estanque, ela é um dispositivo de informação, discussão, criação, reinvenção e transformação.  Ao propor grupos de leitura e discussão, elas estão ampliando o poder de reflexão das pessoas, e, como consequência, criando uma resistência contra a dominação simbólica. E se essa revolução passa necessariamente pelas palavras e pela transformação das consciências, as bibliotecas comunitárias são espaços de resistência simbólica contra os males dessa nossa contemporaneidade tão líquida, tão superficial, tão consumista e tão reducionista (PEREIRA apud CERVINSKIS & SANTANA, 2016).

Não há dúvidas de que as bibliotecas comunitárias devem ser fortalecidas. E se esse fortalecimento não vem de políticas públicas, deve vir de uma articulação em rede entre esses espaços e suas comunidades atendidas. Essas bibliotecas, então, são símbolos de resistência, espaços destinados a ações culturais e políticas de uma revolução simbólica que transforma consciências por meio das palavras (Idem). A partir do ano de 2003, a lei n° 10.753 inicia o marco legal para o livro e leitura no país, contribuindo para fomentar debate entre mediadores de leitura, escritores e ilustradores, editoras e livrarias, nas cidades brasileiras. Em 2006, por conta da necessidade de dar mais operacionalidade à lei e aproximá-la das exigências sociais, cria-se o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). Esse plano, além de fortalecer a política de leitura, ampliou a visibilidade de iniciativas dos diversos setores ligados ao livro e à leitura.

O PNLL organiza a política de leitura através de cinco eixos norteadores para investimento em leitura e conceitua biblioteca, elevando-a como um dínamo cultural vivo na comunidade, ou seja, um espaço multicultural que dialoga com as mais diversas linguagens artísticas e a cultura comunitária. Diferente de enxergá-la um espaço em que se deposita livros e documentos antigos, o plano integra discussões feitas por diferentes sujeitos da sociedade civil organizada ligados ao setor do livro, leitura, literatura e bibliotecas.

Portanto, é nos anos 2000, que podemos perceber uma nova perspectiva política sobre livro, leitura, literatura e bibliotecas, em que almeja aspirações mais aproximadas das reivindicações comunitárias. Os sujeitos, que antes determinavam diretrizes para o livro e a leitura, concentrados numa camada mais privilegiada da população, estão atualmente mais diversificados e representados por demais classes e grupos sociais. O exemplo disso é o crescente número de mediadores de leitura, que começam a ter uma incidência maior na política de leitura, como aconteceu na cidade do Recife, em que foi criado, em 2006, o Fórum Pernambucano em Defesa das Bibliotecas, da Leitura, da Literatura e do Livro, como espaço de articulação sociedade civil, tendo como predominância a cadeia ou elo mediador de leitura. Segundo PNLL, a organização dos sujeitos que atuam em prol do livro, leitura e literatura, é feita por cadeia, sendo três: cadeia mediadora, cadeia criativa e cadeia produtiva. Há atualmente discussões em que é possível incluir mais uma “cadeia”, a distribuidora ou distributiva, reivindicada pelas livrarias.

No Estado de Pernambuco, os dados referentes às condições das bibliotecas ou iniciativas que visem à criação de ambientes destinados à cultura da leitura, seja público ou privado, trazem poucas informações; ainda mais de espaços de leitura que, por motivos legais ou particulares, não se denominam “bibliotecas”, mas que compõem uma coleção de livros para acesso livre e que também desenvolvam ações de incentivo à leitura literária em suas comunidades de pertencimento (indígena, quilombola, periferia dos centros urbanos…). A carência de dados ou informações dificulta a formulação de políticas públicas e ações governamentais para a leitura em Pernambuco, especialmente no interior do estado.

Trabalhamos com dois conceitos. O primeiro, do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, que toma como referência o Manifesto IFLA/UNESCO, que define biblioteca pública como o centro local de informação, tornando prontamente acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os gêneros (IFLA/UNESCO, 1994). Outro referencial adotado é o da Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana do Recife, chamada de Releitura, que estabelece como conceito de biblioteca comunitária o seguinte:

[...] aqueles espaços de leitura que surgiram por iniciativa das comunidades e são gerenciados por elas; ou, ainda, aqueles espaços que, embora não tenham sido iniciativas das próprias comunidades, voltem-se para atendê-las e as incluam nos processos de planejamento, monitoramento e avaliação. Em outras palavras, espaços de leitura e bibliotecas que preservem a natureza de uso público e comunitário em sua essência, tendo como princípio fundamental a participação de seu público nos processos decisórios e avaliativos. (RELEITURA, 2016)

Nesse primeiro artigo, trataremos do mapeamento consolidado nas cidades de Afogados da Ingazeira e Garanhuns. Noutro momento, nos debruçaremos sobre Caruaru e São José do Egito. São cidades importantes do ponto de vista econômico, geográfico, político e cultural. Isso nos motivou na escolha desses municípios.

Afogados da Ingazeira, localizada no Sertão do Pajeú – PE, é região conhecida como celeiro de poetas, segundo o secretário de cultura da cidade. Afogados da Ingazeira tem uma população estimada, em 2015, de 36.709 habitantes (IBGE – 2016). A cidade conta com equipamentos culturais como cinema, museu, praças, casas de shows, bibliotecas e praças. Sobre a pesquisa de campo, identificamos uma biblioteca da municipalidade, a Biblioteca Municipal Monsenhor Alfredo, localizada no centro da cidade, disponível para atender toda a população, e mais 11 bibliotecas escolares com salas de leitura, espalhadas por 11 bairros, atendendo diretamente aos estudantes do ensino fundamental, segundo informações da Secretaria de Educação do Município. Nosso interesse de pesquisa em Afogados da Ingazeira foi identificar bibliotecas comunitárias, especialmente aquelas criadas por pessoas, associações de moradores e instituições sem vínculo governamental, mas que, também, possibilitam o acesso público à literatura, à leitura, aos livros. Nesse sentido, não encontramos bibliotecas comunitárias ativas, na cidade, mas apropriações interessantes de um programa governamental, que vamos mostrar mais adiante, quando moradores falam sobre uma experiência, na casa de um residente,  no bairro de Padre Pedro Pedreira. Em nenhum dos 13 bairros identificados e visitados, defrontamos com bibliotecas comunitárias. No bairro de Padre Pedro Pereira, encontramos, também, uma associação de moradores, mas que, até o momento de finalização desta pesquisa, estava fechada. O motivo do fechamento, segundo explicam representantes da associação, é porque estavam de mudança para um novo prédio. De acordo com o relato afirmado pelo da presidente da associação, há interesse em montar uma biblioteca comunitária. Inclusive, solicitou ajuda de como poderia obter mais informações sobre a política do livro, leitura, literatura e bibliotecas. Adicionamos esse pleito a uma lista de e-mails da representação do Ministério da Cultura no Nordeste para facilitar o acesso às informações sobre atividades, ações e discussões sobre política de leitura.

A literatura é uma linguagem artística muito presente na cidade. Podemos verificar isso, especialmente dentro das escolas municipais, em que professoras desenvolvem ações de incentivo à leitura literária, a partir do trabalho que realizam nas bibliotecas escolares. São estas que, em Afogados da Ingazeira, têm uma abrangência maior na formação de leitores, com algumas delas emprestando livros para a comunidade. Inclusive, um dos programas desenvolvidos pela Secretaria de Educação – o Programa Municipal de Incentivo à Leitura – foi premiado, em uma das edições do Prêmio Leitura Viva, do Ministério da Cultura – MINC. Gestores e professores das escolas afirmam que a premiação contribuiu e muito para dinamizar as bibliotecas escolares. O Programa Municipal de Incentivo à Leitura – ação da Secretaria de Educação – consiste em diversas atividades nos estabelecimentos de ensino e, também, premia a escola que melhor desenvolver ações de incentivo à leitura. A instituição escolar premiada tem espaço garantido na Feira de Leitura da Cidade, denominada de “FILCO”, que acontece anualmente e que é produzida pela Biblioteca Municipal.  Fora do âmbito governamental, escritores e músicos difundem a literatura, em festas, festivais e lançamentos de livros realizados por grupos culturais e coletivos de artistas e produtores culturais. No entanto, apesar dos eventos literários serem realizados, também, nas ruas e praças, no cotidiano das comunidades de baixa renda não há, até a finalização desta pesquisa, espaços de acesso ao livro, à leitura e literatura ativos. Entendemos que mais espaços permanentes de acesso à leitura literária são fundamentais para o desenvolvimento das pessoas, potencializando suas ações na cidade. A Biblioteca Municipal é muito atuante em projetos de incentivo à leitura. Apesar de um bom acervo de literatura infanto-juvenil, carece de investimentos públicos governamentais e parcerias para a compra de livros, equipamentos e mobiliários, bem como reforma de espaços, pagamentos de profissionais com qualificação para lidar com a gestão de locais, nos âmbitos  administrativo e pedagógico-cultural.

Um dos fatores que dificultam maiores investimentos na cultura, em Afogados da Ingazeira, é a baixa destinação orçamentária para ações educativas e ausência de um planejamento estratégico para a cultura que mobilize parcerias aos livros, leitura e biblioteca. Segundo o secretário de Cultura, Alexandro Palmeira de Araújo, o valor mensal disponível aos custos com projetos e ações é na ordem de cinco mil reais, mas que, também, conseguem captar recursos através de projetos. A dificuldade de recursos é perceptível, quando conversamos com a gestora da biblioteca municipal, que afirma serem pouquíssimos recursos para compra de livros, asseverando que os livros são adquiridos por doações. Estas, geralmente, são de caráter sazonal e, muitas vezes, os títulos não refletem a necessidade das bibliotecas. Doações de livros tanto podem ser indicadores de uma articulação das bibliotecas com moradores e associações, entre outros sujeitos, como, também, dependendo da qualidade de doação, apenas considerados os locais de leitura e consulta como um depósito de livros e periódicos antigos. A falta de recursos financeiros inviabiliza muitos projetos, ações e atividades culturais, sendo esse problema uma dimensão fundamental para  sua sustentabilidade e continuidade. Dessa forma, a ausência de uma maior proximidade de projetos e experiências na zona rural com a gestão pública municipal e também a iniciativa privada levou a uma experiência que vinha dando certo até encerrar suas ações, em face da falta de recursos financeiros.

O projeto de leitura da comunidade de remanescentes quilombolas, Leitão da Carapuça, que se encontra parado, é o Arca das Letras. Este é um programa de incentivo à leitura, promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que disponibiliza uma arca com 700 livros de títulos diversos para as comunidades rurais. Apesar de ser um grande programa de incentivo à leitura, nas comunidades rurais, o programa efetua-se, apenas, na distribuição, mas não atua na formação, qualificação das atividades e interação com os livros,  a informação e o texto literário. Disponibilizar, simplesmente, livros não garante a prática de incentivo à leitura. Entretanto, na comunidade, o Arca das Letras conseguiu, ainda, ampliar o acervo, realizar sessões de mediação de leitura, periodicamente, como “contação”  de histórias, manter, sistematicamente, uma articulação com a escola da comunidade, estimulando empréstimos de livros, para estudantes e professores, que também realizam leituras em sala de aula. Seguramente, era a única fonte de acesso à leitura literária da comunidade e que, lamentavelmente, não conseguiu se sustentar de forma financeira, pois o responsável pela ação desistiu e, atualmente, os livros se encontram sem uso na sede da associação de moradores de Leitão da Carapuça.

Em virtude da dificuldade de encontrar parceiros e de políticas que pudessem amparar uma dimensão fundamental do projeto e recursos humanos, não foi possível dar-lhe continuidade, gerando, dessa forma, uma frustração não só para as crianças da comunidade como, também, para os professores. Em nosso entendimento, consideramos que houve uma valorização sobre a proposta do programa e distribuição do acervo, através de empréstimos e atividades de incentivo à leitura. Porém, além do que  lhe confere na propositura do programa, a comunidade estabeleceu regras de uso do acervo, calendário de atividades lúdico-pedagógicas, articulação com a escola, retomando um aspecto fundamental das associações de moradores, que é o político-pedagógico.

Portanto, podemos considerar uma experiência que traz no seu conjunto o sentido de atuação e pertencimentos comunitários em torno dos livros, que estavam resguardados na Associação de Moradores de Leitão da Carapuça. Para nós, essa ação se aproxima da ideia de biblioteca comunitária como espaço de pertencimento da comunidade, uma vez que sua lógica age através de estímulos societários de solidariedade, cooperação, reconhecimento e reciprocidade.

Outro aspecto importante do mapeamento realizado no município é a relação da gestão pública com projetos de leitura, através de entrevista com o secretário de Cultura e Esportes (SCE), Alexandro Palmeira de Araújo, que nos possibilitou compreender mais aspectos da gestão pública, especialmente no que concerne à política de leitura. Sua trajetória política está ligada ao seu interesse e engajamento no campo da literatura, escrevendo, realizando oficinas e palestras. Essas atividades chamaram a atenção do executivo, ensejando a que fosse convidado a integrar a gestão municipal, assumindo o cargo de secretário.

A Secretaria de Cultura, segundo o secretário, age em parceria com a Secretaria de Educação, no que diz respeito aos projetos de leitura. Exemplo dessa parceria está patente quando menciona que a gestão da biblioteca municipal é de responsabilidade da Secretaria de Cultura, mas que a Secretaria de Educação contribui para a manutenção dos funcionários.

A gestão da biblioteca municipal ficou por conta da Secretaria de Cultura. Agora, o pagamento dos funcionários, a compra/aquisição de livros, e quando a gente precisa de um recurso, porque é uma questão de valores, “duodécimo”, por exemplo, a prefeitura de Afogados, a gente tem na Secretaria de Cultura, uma média de 5 mil reais por mês. Então, um valor irrisório para a demanda que se tem. Então essa parceria com educação, claro que tem o apoio logístico, pessoal (da cultura), e a gente consegue fazer um trabalho melhor (SCE, 2015).

De conformidade com a Secretaria de Cultura e Esportes – SCE -, observa-se que esta articulação também contribui para o desenvolvimento de ações em prol do livro, leitura e biblioteca, no sentido de mobilizar estudantes das escolas do município.

Constam, dentro da biblioteca pública de Afogados, alguns projetos como “A Noite do Pijama”, onde a gente tem uma professora (Sandra), espetacular, onde ela faz a leitura de livros infantis, interpretando cada personagem, se veste com os personagens. A Noite do Pijama Literário, onde são contadas histórias para as crianças, como os contos de fadas tradicionais, como também da produção local, como, por exemplo, o livro do Alexandre Morais (escritor da cidade), que foi publicado agora há pouco. A gente tem trabalhado isso na biblioteca, em parceria com a Secretaria de Educação, escola e biblioteca municipal. (SCE, 2015, grifo nosso).

Apesar da constante articulação para enfrentamento dos desafios na realização de ações de incentivo à leitura, o pouco orçamento para cultura constitui-se como mais um desafio para ampliação e fortalecimento das ações. Segundo o secretário, é preciso ir atrás de parceiros, tanto do setor público, quanto privado, para captação de mais recursos e, assim, garantir algumas ações já previstas no calendário de eventos culturais do município.

Aí a gente vai em busca de captação de recursos. Da parceria com o Estado, da parceria com a iniciativa privada. Nós temos projetos mensais, aqui também, como o Esporte nos Bairros, Quintas Culturais, Cultura e Arte na Praça, onde a gente também tem um trabalho com a iniciativa privada e uma ajuda diferenciada da prefeitura. (SCE, 2015).

No campo das bibliotecas o  secretário de Cultura e Esportes -  SCE – nos traz um imaginário não tanto diferente do que já tínhamos em outras pesquisas de mapeamento, como por exemplo, em São José do Egito e Caruaru (CERVINSKIS e SANTANA, 2014), em que se diz ser frequentador da biblioteca, mas que esta, todavia, se encontra debilitada, especialmente por falta de profissionais qualificados para atender ao público e, ainda, por não serem “apaixonados” pela leitura e literatura. Portanto, o SCE afirma:

Sou frequentador assíduo de bibliotecas. Desde os 13 a 14 anos que eu frequento bibliotecas, para leitura; isso, depois que eu comecei a escrever. Desde aquele tempo, até hoje, eu sinto a falta de uma. Antigamente se tinha o cargo de bibliotecário, apesar de que ainda tem. Só que, agora, você chega na biblioteca e essa pessoa (bibliotecário), nem se disponibiliza em chegar na estante e dizer: “eu tenho esse livro aqui”, “mas, agora, eu tenho este que é diferente” Alguém que indique a você outros livros, outras possibilidades de leitura. De ampliar seu conhecimento. Eu sentia muita falta disso. Ia muito por conta própria. Porque não tinha essa estrutura. E na maioria das vezes o que acaba acontecendo nos municípios é que se tira um professor que não quer mais dar aula e se coloca em uma biblioteca. Como se a biblioteca não servisse para mais nada.

Desse modo, a biblioteca ocupa um imaginário ainda marginalizado, apesar de enaltecido como equipamento cultural importante para formação dos sujeitos. Desvalorizado nas agendas e cronogramas da política pública, especialmente nos tipos de planejamento como PPA (Planejamento Plurianual) na LDO (Leis de Diretrizes Orçamentárias), LOA (Leis de Orçamento Anual) e, consequentemente, por parte da população. Na pesquisa realizada em Afogados da Ingazeira, em maio de 2015, apesar de não identificar iniciativas comunitárias de acesso ao livro e à leitura, bem como bibliotecas em funcionamento, há um movimento importante por parte das bibliotecas escolares e da biblioteca municipal, pois estas desenvolvem ações de incentivo à leitura literária e se propõem a garantir uma continuidade na formação de leitores no município. Entretanto, não são suficientes para atender às especificidades de uma população com diferentes faixas etárias. Assim, faz-se  necessário ampliar recursos públicos para a cultura, entre outras soluções. Entretanto, é possível, a partir de parcerias com a sociedade civil, buscar soluções que não dependam exclusivamente de dinheiro, como são os casos dos festivais musicais, cuja mobilização social em prol de articulações estratégias para realização da ação ultrapassa valores em reais absolutos. Para uma melhor articulação entre sociedade civil e gestão pública, indispensável um planejamento estratégico que possa mostrar melhores caminhos para se trilhar em parceria e otimizar o recurso público que o município dispõe para a cultura.

Em Afogados da Ingazeira, percebemos um movimento cultural intenso em prol da formação crítica de um público consumidor da cultura local, especialmente crianças, adolescentes e jovens. Este movimento se materializa em eventos como Afo Rock, sessões de cineclubes, recitais de poesia, sessões de filmes nacionais e regionais, de filmes curtas e longas metragens, no cinema da cidade. Estes eventos, contam em algumas edições com a parceria do poder público, mais especificamente com a Secretaria de Cultura e Esportes.

Há um esforço por parte da sociedade civil organizada, zona urbana, grupos e movimentos culturais em proporcionar momentos de fruição literária, musical, audiovisual.  Entretanto, não verificamos um esforço na direção do fortalecimento de espaços de leitura, ou bibliotecas comunitárias, nosso foco de pesquisa. Há sim um esforço na ocupação das ruas e praças para realização de eventos. Nas comunidades rurais, remanescentes quilombolas, percebemos um movimento social também intenso em torno do livro, leitura e bibliotecas, através do Arca das Letras. No entanto, são projetos que não se sustentam, principalmente pela dificuldade de manter um profissional constante para desenvolver as ações de incentivo à leitura, organização e manutenção do acervo, empréstimo dos livros. Se não houver um esforço conjunto entre setor privado e público estas ações, certamente, não terão continuidade.

Acerca das políticas públicas de leitura, há pouco conhecimento sobre os mecanismos operatórios das mesmas e, apenas, foi citado pelo secretário de Cultura e Desporto, o Plano Nacional do Livro e Leitura. Para nós, pesquisadores, este é um dado importante, por considerarmos tal plano como uma referência para a gestão pública, inclusive para inspiração e a formação de um plano municipal do livro, leitura, literatura e biblioteca. No entanto, não houve direcionamentos neste sentido, tendo em vista que a política cultural é formada por apoio a eventos e ações da sociedade civil organizada ou mesmo pelo próprio poder público.

Garanhuns, cidade com aproximadamente 136.949 habitantes (IBGE, 2015), está localizada na região agreste de Pernambuco. Garanhuns é conhecida também como a “cidade das flores” ou “cidade pernambucana da garoa”. Com relação aos equipamentos culturais de leitura, ligados ao poder público, segundo informações da Secretaria de Educação, são 32 salas de leitura, localizadas nas 32 escolas municipais, 2 bibliotecas municipais, 1 biblioteca conveniada ao SESI (Indústria do Conhecimento), 1 biblioteca comunitária Ler é Preciso (autodeclarada pela Secretaria de Educação). Percebe-se um quadro situacional bem diferente do de Afogados da Ingazeira, dada, também, às proporções territoriais, populacionais e de arrecadação, que são alguns dos fatores que influenciam para que o município tenha uma maior estrutura organizacional.

Sobre bibliotecas comunitárias, ou espaços criados por pessoa, por grupos, instituições privadas com ou sem fins lucrativos, identificamos alguns espaços existentes, que resistem aos desafios da sustentabilidade e outros que nem existem, principalmente pelas dificuldades de ordens financeira, pessoal e política para sua sustentação. O número de bibliotecas em Garanhuns nos permitiu criar um quadro, de modo a listar as principais bibliotecas de natureza pública ( pela localidade e gestores públicos entrevistados), ou seja: onde o público (a população em geral) tem acesso às sessões de mediação de leitura, empréstimo de livros, lugar para estudar, de acesso a eventos literários etc. Não constam, no quadro, as 32 salas de leitura das escolas municipais, que, apesar da natureza pública, estão mais direcionadas, especificamente, para os estudantes. Assim, foram identificadas as seguintes bibliotecas:

 

Biblioteca Comunitária dos Quilombos

Local

Arca das letras (projeto governamental) Sitio Estrela
Biblioteca Comunitária Leitor do Futuro Quilombo Castainho
Biblioteca Casa do poeta França Inhumas
Biblioteca Comunitária Torres Quilombo Estivas 

 

Bibliotecas Comunitárias

Local

Biblioteca Comunitária Zé Pedro Cohab 2
Biblioteca Indústria  do  Conhecimento  - 

IDC

Cohab 3
Casa da Gente Boa Vista
Biblioteca Ler é Preciso Centro
Biblioteca Municipal Local
Biblioteca Municipal Luiz Brasil Heliópolis 

 

Gestores Públicos

Função

Wilza Alexandra de Carvalho Rodrigues
Vitorino
Diretora de Educação
Cirlene Leite da Silva Secretária de Cultura

 

Como a realidade das bibliotecas em Garanhuns é diferente da de Afogados, destacamos duas em especial. A Biblioteca Casa da Gente está localizada no bairro da Boa Vista, centro da cidade. Fica dentro da casa de Yalle Feitosa, assim como a Biblioteca Comunitária Zé Pedro, fica numa espécie de garagem. A biblioteca de início era na casa dos pais de Yalle. Quando pequena, os amigos frequentavam a casa e, como a mãe dela tinha muitos livros em casa, começou a emprestá-los aos amigos. Aos poucos, outras pessoas começaram a também pegar emprestado, já que havia poucas bibliotecas em Garanhuns, muitos precisavam de livros para estudar para as tarefas da escola e para concursos. Então, pegaram essa casa que era do avô e construíram a biblioteca para que pudessem emprestar livros e atender melhor às pessoas. Hoje além da biblioteca, Yalle mora em cima do espaço.

A biblioteca atualmente atende somente aos sábados, domingos e em alguns feriados, pois, como não tem recursos financeiros externos e nem parcerias, tudo é feito com recursos próprios e precisam trabalhar para manter o espaço funcionando. Mesmo assim, ela tenta sempre manter o espaço repleto de atividades, tanto internas quanto externas, indo às praças e fazendo a leitura embaixo das árvores (projeto Pé de Palavras). A falta de parcerias vem pela dificuldade com relação à elaboração de projetos para enviar aos editais, como  também  a  falta  de  tempo  para  isso,  já  que  precisa exercer outras atividades para se manter (pagar contas, alimentação, vestimentas). Ela também relata a falta de reconhecimento da prefeitura e da Secretaria de Educação para com as bibliotecas comunitárias, dando valor somente às bibliotecas que estão ligadas a elas.

O acervo é grande e não há uma catalogação, porque, segundo ela, já está adaptada a essa forma e não sente nenhuma dificuldade, como também não tem tempo para catalogá-los. Mas há uma classificação do acervo por temas e são organizados nas prateleiras conforme os temas (Literatura Brasileira, clássicos, biografias, Religião…). Também não há cadastro de usuários, pois ela já tentou fazer, mas houve um problema com dois leitores que frequentavam o espaço e que, quando foram pedidos documentos deles para realizar o cadastro, eles nunca mais voltaram. Depois, ela soube que a mãe não sabia que eles frequentavam.

Biblioteca Comunitária Ler é Preciso está localizada no centro da cidade e está no anexo do antigo fórum. É um espaço grande e bem localizado. Possui um bom acervo de literatura adulta, juvenil, mas com poucos livros infantis; porém, são atualizados e em bom estado de conservação. O espaço estava fechado há um mês e, quando foi feita a entrevista em janeiro de 2016, estava aberta há 15 dias. A coordenadora Cláudia Taveira não sabia informar o motivo de a biblioteca ter sido fechada por um mês e nem porque as pessoas que antes trabalhavam no local não estavam mais. O acervo está catalogado e classificado. Porém, haverá mudanças para o sistema de cores, proposto pela Secretaria de Educação. Por conta disso, alguns livros estavam sem organização na prateleira. À época, haviam iniciado a classificação pelos livros de literatura infantil, juvenil e adulta. No espaço, não há computadores para uso do público, mas há um para uso interno, que, no entanto, está com problemas. Todos os recursos para a manutenção do espaço vêm da prefeitura e os funcionários são professores remanejados das escolas municipais. Como já explicado, a coordenadora não sabia informar muito sobre como a biblioteca funcionava antes dela, mas a mesma informou que pretendia realizar atividades ligadas à leitura, mediação e contação de histórias. O espaço não possuía acessibilidade para deficientes físicos e o espaço destinado para leitura ficava em um andar acima. Para ter acesso a esse lugar, era preciso subir uma escada.

Refletindo sobre essas diferentes realidades, sugerimos alguns caminhos. Uma com mais, outra com menos engajamento da comunidade; umas com maior feição do que denominamos “biblioteca”, outras mais com cara de “espaço de leitura”; umas com maior participação do poder público, inclusive na gestão, outras com um engajamento maior da sociedade civil, inclusive em termos de sustentabilidade. Para finalizar, recomendamos com esse diagnóstico que haja uma maior participação do Poder Público, inclusive com linhas de incentivo e financiamento, o que poderia serfeito através de uma Plano Municipal e Plano Estadual para o Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca. Que alguns desses gestores de bibliotecas ou espaços de leitura procurem se profissionalizar, unindo-se em rede a outras organizações não-governamentais (ONGs); que aprimore na busca por estratégias de sustentabilidade, captação de recurso, como redirecionamento de gastos públicos para o financiamento do setor do Livro, Leitura e Biblioteca, Parcerias Público-privada ou candidaturas em editais, como o FUNCULTURA (Governo do Estado) ou o Banco do Nordeste (BNB Cultural), cuja abertura se dá uma vez ao ano e oferecem oficinas de elaboração de projetos. O engajamento em cursos como o citado, que algumas ONGs promovem, bem como o acesso constante `a internet, seriam possíveis fortalecimentos, que podemos citar neste relatório a esses gestores.

Mas é preciso ir além das estratégias pontuais e criar mecanismos de gestão para que se “apoderem” das experiências locais, e que possam incluí-las via um planejamento participativo, com a criação de um Fórum local ou regional, por exemplo. Assim, com atores mais experientes, que estimule um engajamento, “empoderando” novos sujeitos em prol da criação e implantação de políticas públicas para o Livro, Literatura, Leitura e Biblioteca no Agreste e Sertão de Pernambuco.

 

 

 

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REFERÊNCIAS

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BRASIL. Lei do Livro.  Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.753.htm.Acesado em 10/04/2016.

Política Nacional do Livro e da Leitura (PNLL).  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7559.htm (Acessado em 10/04/2016)

BRASIL. Sistema Nacional de Biblioteca Pública (SNPB). Acessado em:  http://snbp.culturadigital.br/tipos-de-bibliotecas/ no dia 15 de abril de 2016.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. Os Parceiros do Rio Bonito. Rio de Janeiro, 1964.

CERVINSKIS, André  Caldas; SANTANA, Gabriel Lopes de. Mapeamento das Bibliotecas Comunitárias – etapa I – Caruaru e são José do Egito. Recife: Tarcísio Pereira Ed., 2015.

CERVINSKIS, André  Caldas; SANTANA, Gabriel Lopes de. Mapeamento das Bibliotecas Comunitárias – etapa II – Garanhuns e Afogados da Ingazeira. Recife: Tarcísio Pereira Ed., 2016.

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura (Trad.: Pedro Maia Soares). 2ª edição, São Paulo: Cia. Das Letras, 2001.

MINAYO, Maria Cecília (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 26.Ed – Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 5a ed. São Paulo, SP: Brasiliense,

1985. Mercado Aberto, 1985.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-23072009-161746/pt-br.php. Acesso em 26 de abril de 2011.

RELEITURA (Bibliotecas Comunitárias em rede). https://releiturape.wordpress.com/o-que-e-uma-biblioteca-comunitaria/ (acessado em 10/04/2016)

IFLA (International Federation of Library Associacion). Acessado em: http://www.ifla.org/files/assets/hq/publications/series/147-pt.pdf no dia 15 de abril de 2016.

 

 

 

 

 

 

 

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André Cervinskis é jornalista, ensaísta, mestre em Linguística pela UFPB. Produtor cultural, com vários projetos aprovados pelo FUNCULTURA-PE na área de Literatura. Com várias premiações nacionais e internacionais, tem 13 livros publicados em autoria própria e coautoria. Colabora com o site Interpoética e o jornal U-carboreto, ambos de Pernambuco, e o periódico Correio das Artes na Paraíba. Mora em Olinda-PE e teve avós lituanos. E-mail: acervinskis@gmail.com




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