Bafejo de Zéfiro


 

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O poeta viaja no tempo, pondera e cavila (aprendi traduzindo o meu Vallejo). Vê e conta o que viu, como é que andam as modas, como é que a vida vai, a dele e a do mundo. Ou então inventa, é quando a Poesia gosta e funda a verdade.

É o que faz o poeta Edson Cruz, num jeito delicado só dele, neste seu Ilhéu.

Já tem uns dias que frequento, demorando contente, a intimidade dos seus poemas. Sozinho defronte do meu rio, leio os versos em voz macia.

O vento terral leva a música dos fonemas, que se aconchega no silêncio sonoro da floresta. A gaviã caseira, pousada no parapeito de mogno que Lucio Costa inventou, estica o pescoço, a modo de guardar melhor.
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…………………………Carpas riem. ……O céu refletido

…………………………O azul do dia  …..nas águas.

…………………………zune.               …….Lume.
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Releio uma estrofe inteira, um verso me abraça,

……………………………………………………O silêncio da mãe

………………………………………………………………………………afago palavra a palavra. Delicadeza própria da arte de ler poesia.
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Me interligo com o poeta. Edson tem o dom de fazer com que a palavra se entregue, de maneira esquiva ou iluminada. De revelar ou esconder.

Pousa como pássaro pensador e canta:
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………………………………………….amar é como ouvir / música.
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Quando começo a reler, o olhar das palavras me ilumina:
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…………………………………………………É como dar existência

…………………………………………………ao que ainda não vive.

…………………………………………………[...]

…………………………………………………Até que você o leia

…………………………………………………insufle a vida

…………………………………………………que lhe falta.
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Caminho pela beira do rio da minha infância, a memória me repetindo a verdade da vida que faz tempo sofro dia a dia:
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…………………………………………Uma criança esquálida tomba

…………………………………………feito árvore na floresta.

…………………………………………Não existe mais.

…………………………………………Nunca existiu.
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Amanheço com os Bonsais.
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……………………………………Zunido de cigarras.
……………………………………Infância estourando
……………………………………meus tímpanos.

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Na pele do rio, no verde da mata, no mármore das nuvens, fulguram gravados os versos do meu companheiro:
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………………..As copas das árvores               ……Uma árvore não faz

………………..varrem as nuvens do céu.       ……barulho

………………..Bafejo de zéfiro.                       ……..ao cair sozinha

…………………………………………………………..na floresta.

………………………………………………………….Na solidão, morremos todos

………………………………………………………….sem alarde.

 

 

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T h i a g o   d e   M e l l o

Madrugada na floresta.

Setembro 2013
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A leitura dos poemas de ILHÉU, depois das revelações iniciais de Sortilégio e das experiências existenciais de Sambaqui, deixa um sabor fugidio à lembrança e ao esquecimento… Estaremos em pleno território do autobiográfico? Sim e não… SIM porque são óbvios os sinais de sim, logo no início do livro;
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EPÍGRAFE
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Um ilhéu

fazendo a travessia.

Acima dele o céu.

Abaixo, a maresia.

Entre os fios de seu enleio

A vida fugidia

 

NÃO, porque estamos a ler poesia que, como toda a poesia, se faz de sinais para além de si próprios, em que a ambiguidade entre o fatual e a invenção se instala entre o texto e as suas leituras.

Sentir? sinta quem lê. Adverte-nos Fernando Pessoa no poema Isto, depois de nos dizer, no poema Autopsicografia, que O poeta é um fingidor… (poemas que Edson Cruz muito admira!).

Por isso, cabe inquirir se a biografia de um poeta pode ser feita de verdades ou se é feita das suas invenções poéticas?

Mas na poesia não há nem verdades nem mentiras. Porque tudo o que se diz num poema tem uma verdade que lhe é própria e que vai além das chamadas realidades dos fatos

[...]

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[Trecho inicial do Prefácio escrito pelo poeta e ensaísta português E.M. de Melo e Castro]
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SOBRE ILHAS E OUTROS VENTOS

Rinaldo de Fernandes

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O roteiro dos versos de Ilhéu, de Edson Cruz, passa pela memória, pela metalinguagem, pela contemplação e pelas miniaturas poéticas.

Na primeira parte do livro, quando o poeta trata da infância, a imagem que se impõe é a da “travessia”, a do “exílio em outras terras”, do “abraço concreto/ das noites frias do sul”. É o tema do deslocamento, da desterritorialização, que fragmenta o sujeito, que o corta em sua identidade.

A metalinguagem é preocupação permanente em Edson Cruz, apresentando variações que incorporam desde a problemática da palavra poética, do fazer do poema, passando por figuras de artistas e chegando ao futebol como jogo-arte (há dois poemas no livro sobre futebol, “Tempo regulamentar” e “Rei”, cuja síntese acabada está nos versos: “A melhor coisa do futebol/ é o drible [...]”). Tudo como forma de pensar a relação arte-vida. Exemplo marcante: “Aqui jaz meu poema/ fazendo-se/ de morto na página [...]// Até que você o leia/ insufle a vida/ que lhe falta”. Outro exemplo: “A coisa falsa é tudo o que temos/ na arte/ Tudo o que podemos/ em contraparte abraçar/ como nosso// Quem assina esta farsa/ só pode ser um/ ou uma legião de comparsas/ heterônimos/ de outras Pessoas”. Ainda: “As suítes sublimes de Bach/ Os píncaros de Beethoven/ e seus quartetos de corda/ O spleen e seus poetas visionários// [...] Podem significar muito/ pouco/ [...] Só ela [uma criança esquálida] que me toca/ faz toc-toc/ mostra os dentes/ neste poema quase/ transcendente”.

Em alguns dos poemas ainda da primeira parte, o poeta que busca a reflexão (a logopeia poudiana) se transporta para o mundo das imagens (a fanopeia), tornando-se fortemente contemplativo. Vale a pena reproduzir “Arabescos”, com seus enjambemant quase sempre felizes: “As crianças equilibram borboletas/ e planetas// Os homens enxugam copos/ com sua dor// As mulheres geram bentos/ e arrebentos// Gafanhotos devoram os verdes/ da paisagem// Profetas esboçam desígnios/ no deserto// Os bêbados balbuciam coerências/ borrachudas// Os poetas cadenciam tudo/ o que tocam// A natureza redesenha o mundo/ em fractais”.

A segunda parte do livro, que é também a melhor, intitulada de “Bonsai”, é composta de poemas-miniaturas de extração oriental. Nesta parte, mais encorpada, mais exata na fatura dos poemas, sem sobras, adiposidades, Edson Cruz se revela, realmente, um talentosíssimo poeta. Há aqui alguns excelentes hai-cais, achados primorosos, como os que cito abaixo:

 

.Vento de janeiro.

.As árvores esbravejam

.sem controle algum.
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Milagres latejam

na noite escura.

Vaga-lumes

dando um rolê.

 

O novo livro de Edson Cruz revela, uma vez mais, um poeta consciente da tessitura do poema, senhor de sua arte. Edson, sem dúvida, é um nome que se coloca com força na poesia brasileira atual.
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Mais informações sobre o livro e a Editora Patuá, em: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=210

 

Livro: Ilhéu
Autor: Edson Cruz
Gênero: Poesia
Número de Páginas: 100
Formato: 14×21 – (acabamento em capa dura)

Preço: R$ 35,00 + frete 


 

 

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