AUTORES SE MANIFESTAM – II


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FLORIANO MARTINS

Deixei para te responder após o pronunciamento da Sra. Dilma Roussef. Valeu a espera porque agora o cenário ficou um pouco melhor caracterizado. O Estado, do ponto de vista de sua administração central, está falido (incapaz até mesmo de refrear o retorno de um velho fantasma nosso, o da inflação). Dele não temos mais o que esperar. O altíssimo grau falacioso do discurso da Presidente deu o tom final de ausência completa de empatia com os problemas reais, vitais, da população e igualmente a certeza de que não haverá seriedade sequer em tentar compreendê-los, quanto mais em solucioná-los. A manifestação presidencial nos coloca na antessala do ato seguinte, da consequência do que vivemos nos últimos dias, desde o momento inaugural das passeatas. Torna-se agora imperativo definir a configuração desse passo seguinte. Até aqui tivemos a presença de três forças: a manifestação pacífica, a interferência violenta e a falácia governamental. Os manifestantes pacíficos compõem a fatia majoritária, disposta de público a apontar as falhas sistêmicas e a participar de sua correção. Os baderneiros reúnem desde os diversos tipos marginalizados até o oportunismo inescrupuloso dos partidos políticos. O Governo se isenta de responsabilidade e quanto mais se manifesta mais se afasta do centro do problema. As três forças conjuntamente atestam o desastre social do país. A mídia até o presente não larga o osso de seu passado de 4º poder. Denuncia, anuncia, muda de faixa, tenta descobrir o que está se passando, por vezes atrapalha, por vezes ajuda. A Web tem mudado, com intensa e perturbadora velocidade, a face do mundo. A história atesta que não há períodos de transição fundamentais sem violência. Não há conquista significativa por decreto. A violência do Estado não é menor do que a crueza irresponsável dos baderneiros. O Brasil vive sob os efeitos de um disfarce estatístico promovido pelo Governo. Evidente que a forma legítima de questionar um governo democrático não é no grito, porém o que dizer de uma democracia com voto obrigatório e mantida graças às normas deploráveis de um legislativo alheio às necessidades de uma reforma eleitoral? Acrescente-se aí a condição social da massa eleitoral, de completa dependência do Estado. Diante disto, não nos resta senão o grito e um grito bem mais eloquente do que o silêncio violento do Estado. Creio que esta é uma oportunidade rara que temos de reunião crescente em torno de um fim que nos fará crescer como cidadão. Por vezes não será exatamente como havíamos planejado. Tenho acompanhado, de perto e à distância, as cenas de violência. Elas não diferem muito da experiência diária que temos à frente de um balcão de serviço institucional. Exceto no método. O método é um disfarce falacioso do crime. Ao contrário de alguns colegas intelectuais, escritores, poetas, eu não penso que as “lideranças” do atual movimento tenham demasiada razão, ou seja, que se comportem como os senhores da razão. Antes de tudo, até agradeço a essas “lideranças” que tenham descoberto a poção mágica que vem trazendo às ruas uma quantidade de pessoas que até aqui nada fizeram além de manifestar sua insatisfação, algo que a casta intelectual jamais conseguiu. Não nos esqueçamos nunca deste detalhe: as manifestações não são senão um atestado de certa insatisfação social frente à administração pública. Até aqui. Mas também agradeço aos mesmos colegas que manifestam sua opinião, independente de nossa concordância, lastimando as inúmeras vozes ausentes, que soam, de certa forma, como os baderneiros com o rosto protegido. Como a linha do horizonte será sempre imprevisível, e a lógica se recusa a sonhar com sua interferência no momento seguinte, o que podemos aqui é declarar nosso desejo, defender nossa expectativa de um desdobramento feliz para todos nós. Discute-se a liderança dos manifestos pacíficos, porém deixamos de lado as duas outras supostas lideranças, dos baderneiros de toda ordem e do Governo em si. Fosse possível um diálogo entre as três forças, eu sinceramente temo que ao final descobríssemos se tratar de apenas duas, o que tornaria ainda mais pertinente e responsável o grito da manifestação pacífica.

 

 

LINALDO GUEDES

Que país é este!

Sou de uma geração que foi às ruas de cara pintada para protestar contra a corrupção e contra os desmandos do governo Collor. Lembro que saímos em passeata, descendo do Lyceu, pelas ruas do centro de João Pessoa. Foi importante, sentir-se participante, da forma mais democrática possível, do processo político brasileiro.

Quase vinte anos se passaram e esta geração enfim mostrou a que veio, em termos políticos. Jovens voltaram às ruas, em protestos que pipocaram por todo o país. Começou em São Paulo, protestando contra preços nas tarifas de transportes públicos. Depois se espalhou, num efeito dominó, inundando nossas principais cidades de manifestações cívicas e coloridas.

E os jovens de hoje protestam contra o que? Ah, protestam contra tudo. Há tanta coisa para se protestar neste Brasil! Nossa saúde pública ainda é um caos, nosso transporte público nem se fala, os réus do mensalão continuam soltos, a corrupção impera na máquina pública, a violência virou erva daninha nas grandes cidades e os políticos continuam preocupados apenas em preservar suas mordomias.

Tudo combinado com a célebre música de Renato Russo, que fez a trilha sonora de um país que insiste em manter seus erros:

“Nas favelas, no Senado

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a Constituição

Mas todos acreditam no futuro da nação”.

E é por acreditar no futuro dessa nação tão aviltada que os jovens se mobilizaram. E que bela e importante mobilização! O gigante acordou, como falaram alguns. Neste sentido, as redes sociais tem um papel importante na consolidação desses protestos, servindo de elo entre habitantes das mais diversas partes do Brasil.

E os exageros? Ah, eles sempre existiram e vão existir ainda mais, numa nação que não tem controle da violência. Mas vândalos são vândalos. Tem que ser tratados como bandidos e presos, sem protesto dos manifestantes civilizados.

“No Amazonas, no Araguaia iá, iá,

Na baixada fluminense

Mato grosso, Minas Gerais e no

Nordeste tudo em paz

Na morte o meu descanso, mas o

Sangue anda solto

Manchando os papeis e documentos fieis

Ao descanso do patrão”

É, Renato Russo… Nestas horas, é necessária a exclamação. Que país é este!!!

 

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OMAR KHOURI

As recentes manifestações surpreenderam, pois tiraram o País daquele estado de indiferença e estão obrigando todos a pensar. Os jovens, em grande maioria, mostraram à classe política – toda ela – que o poder, como já diziam há séculos os iluministas (!), é concedido aos representantes, pelo povo. Portanto, esse mesmo povo pode tirá-lo e conceder a posição de comando àqueles que achar mais dignos. E isto já está na Declaração de Independência das 13 Colônias, que bebeu nas ideias do Iluminismo.
Percebemos o quão atrasado está o nosso País e como se equivoca a classe dos políticos. Todos devem satisfação ao povo e que tratem de se apressar, pois a mim pareceu que ninguém está de brincadeira. Abaixo a arrogância que camufla a incompetência e as más intenções e os maus procedimentos! Fiquei admirado com a capacidade de mobilização dos jovens e penso que as manifestações funcionaram como um plebiscito, que disse NÃO ao que aí está. É preciso atender a grande maioria no que diz respeito a Saúde, Educação e oportunidade de um Trabalho digno. XAIPE!

 

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LEO GONÇALVES

A revolta do vinagre ou “não temos tempo de temer a morte”

Muita gente anda dizendo que não está entendendo nada. Da coluna do Antonio Prata na Folha ao pronunciamento da presidente sobre as manifestações de segunda-feira, todos parecem querer dizer a mesma coisa: “não estou entendendo nada”. O poeta Carlito Azevedo postou numa rede social: “Quem não estiver confuso não está bem informado”. A frase, que ele encontrou num dos cartazes da manifestação, foi originalmente dita pelo detestável Delfim Neto por ocasião da crise mundial. Como lembrou minha amiga Fabiana Motroni no twitter, nada mais apropriado para ambos os casos.

Mas será realmente tão difícil compreender o texto e o subtexto de todas as falas e gritos de revolta pelas ruas do país? Vinte centavos foram a gota d’água de uma série de abusos que vêm nos acompanhando incessantemente há mais ou menos uns 500 anos. Um dia o caldo entorna, e vinte centavos passam a ser uma fortuna incontornável.  Muito sobre isso já foi dito. Que não é esse o primeiro protesto decorrente de um aumento nos preços das passagens. Que o movimento pelo passe livre não é novo.

O que talvez não tenha sido dito ainda em palavras explícitas e reunidas num canto só é:

“Nesses vinte centavos, vocês querem mais uma vez nos fazer de otários. Não aceitaremos isso mais.”

E eis o texto que acompanha:

“Há tempos estamos saindo às ruas. São inúmeras as marchas. Marcha contra Belo Monte. Marcha das vadias. Marcha contra Marcos Feliciano. Marcha contra Renan Calheiros. Marcha contra a corrupção. Marcha contra a PEC 37. Marcha contra o genocídio de índios. Marcha pela melhoria da educação. Marcha contra a desapropriação da Aldeia Maracanã. Marcha disso, marcha daquilo.

Mas vocês não ouvem. Gritamos e vocês fazem ouvidos moucos, fingem-se de surdos. Fingem que não é com vocês.

Disseram e sustentam que esta é uma democracia. Mas sabemos que para vocês o país só é democrático na época das eleições. Somos obrigados a ir às urnas para escolher entre o ruim e o pior. Não bastasse isso, não se sentindo satisfeitos com a democracia de aparências, vocês procuram os desfavorecidos para comprar seus votos. Vocês já têm as cartas marcadas e nos querem usar para validar a sua democracia.

Então um dia, saímos para reclamar e vocês nos jogam na cara suas bombas de gás lacrimogênio, seus sprays de pimenta, suas balas de borracha, seus militares-cães-de-guarda e pensaram que iríamos nos acovardar. Mas nós nos cansamos, caros políticos. Não nos acovardamos desta vez. Saímos aos milhares e vocês fizeram suas demonstrações de guerra contra nós. Provaram que estão mentindo. Nós não queremos  a sua truculência. E por isso agora já somos milhões.

Podem usar a mídia para confundir os confusos, mas vocês não conseguirão conter a fúria de um povo abusado. Como diz um verso do Chico Science: “um homem roubado nunca se engana”. Estamos cansados.

Estamos cansados dessa política que é definida pelas empresas privadas, pelos capitalistas interessados, pelos altos lucros das megaempresas.

Estamos cansados de política tratada como negócio.

Estamos cansados de manipulação das informações.

Não somos crianças. Não somos idiotas. Chega de abusar da nossa paciência.

Presidente, você não tem coragem para admitir que seu país está iniciando uma insurreição e quer tratar os protestos apenas como mais uma onda de “marchas”. Você se finge de tola, mas sabe muito bem que seus panos quentes não resolverão. Queremos que você ouça as lideranças do seu país. Queremos que você converse com os índios, as mulheres, os negros, os representantes das classes. Não queremos que você seja só uma gerentona. Queremos alguém capaz de enxergar a vida para além da economia. Se quiséssemos só uma gerente, teríamos eleito um ministro da economia e não uma presidente.

Governadores, não queremos que sua polícia militar garanta a segurança de outro que não nós. Avisamos que se continuarem soltando seus cães contra nós, vocês correm o risco de que eles também se unam à nossa causa. Porque a nossa causa é também a deles. Vocês também os exploram. Os treinaram para serem cães, mas mesmo os cães quando maltratados um dia se voltam contra seus donos.

Prefeitos, não queremos que vocês vivam com as calças abaixadas para as oligarquias do transporte. Não queremos nosso dinheiro investido na Copa do Mundo quando milhões de pessoas morrem de fome, de pobreza e de falta de educação. Não queremos a cidade vendida e loteada para que só alguns ricaços apodreçam de tanto ganhar dinheiro às nossas custas.

Senadores, deputados, vereadores, não queremos que vocês votem mais leis contra nós mesmos. Não queremos Cura Gay. Não queremos Ato Médico. Não queremos impunidade. Não queremos, sobretudo, pagar tantos milhões ao ano para sustentar vocês.

Estamos cansados!”

 

É isso que dizem os cartazes. Quem não entendeu, ou é porque é mais conveniente, ou é porque não quer ver, ou é, ainda, porque preferem ter esperanças numa possível burrice dos participantes. O que talvez dê no mesmo.

 

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RICARDO SILVESTRIN

Tenho 50 anos. Nasci em 1963. Cresci na ditadura e tive a democracia só em 1984, já com 21 anos. O que vi de avanços no Brasil recente, e nesse recente incluo os governos FHC, Lula e Dilma, creio estarem diretamente ligados ao exercício da democracia. A evolução dos mecanismos de controle público do Estado: Ministério Público, Tribunal de Contas, autonomia da Polícia Federal, Procuradoria Geral da União… A autonomia do Banco Central, Copom e outros órgãos para regular a economia independente do governo. A criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social com diversos segmentos representados para formular caminhos mais abrangentes. O bolsa-escola que virou o Bolsa-Família, concedendo uma verba para que cada criança possa estudar e não ficar na rua pedindo dinheiro para completar a renda da família, o que contribuiu para gerar também um novo mercado com mais de 35 milhões de brasileiros na classe média – mercado interno forte que fez girar a produção e aumentar o emprego e nos protegeu das crises do capitalismo internacional. Então, creio que temos conquistas a celebrar e outras tantas a perseguir. As manifestações recentes têm o ponto positivo de fazer com que os novos avanços venham mais rápido. Mas o movimento precisa definir seus valores. E creio que dizer claramente que tem a democracia como ponto inegociável deveria ser o primeiro. É com democracia que vamos poder denunciar casos de corrupção. Que vamos fazer reforma política. Que vamos poder sair às ruas para exigir mudanças. Alguém poderá dizer: todos esses problemas só se resolvem com o fim do capitalismo. Se for socialismo com democracia, tô dentro.

 

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RINALDO DE FERNANDES

O discurso que vê nas manifestações um “golpe” orquestrado pela direita, por fascistas, tende a ser reacionário, sobretudo porque não vê nada de positivo nos protestos, não dimensiona o valor real e simbólico de tanta gente reunida e clamando por melhorias efetivas no país, por alterações de rumo. Há um anacronismo nesse tipo de discurso, que parece parado no tempo e afianç…ador de conduções políticas que não estão dando certo, que estão em crise. E mais: há uma certa desonestidade nele, por não reconhecer nos protestos uma forma eficiente de organização política. Por não reconhecer a legitimidade desse novo movimento social – que (e digo isso como alguém que participou efetivamente dos protestos), pode-se dizer tudo, menos que é de “direita”, “fascista”, ou coisa do tipo. Participei do Movimento pelas Diretas Já (que enterrou de vez a ditadura) e estive entre os Caras Pi ntas (que derrubaram um presidente). E digo: o movimento de agora tem tanta ou mais força do que esses movimentos. Trata-se de um extraordinário e consciente clamor por mudanças. Que os partidos e os poderes instituídos saibam ler e conduzir para políticas efetivas as pautas propostas pelos manifestantes. Que saibam se adaptar a essa nova forma de se fazer política. A verdadeira intenção desse discurso anacrônico? A defesa do status quo.

 

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IVAN HEGEN

Trago aqui uma sugestão para driblarmos o sequestro da direita e as deturpações do espírito das manifestações – que a meu ver ainda não perdeu totalmente seu devir progressista e autêntico. Acho que quase ninguém vai ouvir o que tenho a dizer, porque sou apenas mais um na multidão, não sou famoso o suficiente e não falo em nome de grupo algum, nem do marxismo, nem do anarquismo, nem de demais artistas, nem dos terroristas poéticos, nem dos filhos de Freud ou dos Filhos de Gandhi, nem de minoria alguma. Falo apenas em nome do que me parece mais inteligente no momento, a estratégia mais promissora diante de uma situação que se complicou. O que começou por poucos centavos já inflacionou, já se multiplicou, e o maior perigo é a atual falta de foco permitir que muita estupidez entre em pauta, tendendo ao golpismo da direita. Agora que obtivemos uma pequena vitória em relação às tarifas, muitos esquerdistas estão pensando que o melhor é esvaziar as ruas, deixar as coisas esfriarem para não dar ânimo a outras reivindicações que vão ganhando espaço. Não acho que desistir seja a melhor saída, acho que deveríamos continuar protestando, com o mesmo empenho com que lutamos pela redução da tarifa, mas dessa vez concentrados em objetivos que desestimulem os descerebrados. Penso em algo que provoque uma triagem mas mantenha a chama acesa para quem tem um coração aberto às mudanças. Minha sugestão é: força total contra o infeliz Feliciano e a ridícula “cura gay”, contra o estatuto do nascituro e outros temas que os oportunistas não saberão engolir. Vamos esquecer por um momento PEC 37 ou temas mais genéricos como saúde e educação, não porque não mereçam o espaço público, mas para, ao menos até as coisas ficarem mais claras, podermos selecionar melhor quem merece estar conosco e quem tem mais que entender que não faz parte da turma e voltar pra casa. Se o número de pessoas nas ruas cair de um milhão para cem mil ou menos, não há porque desanimar, ainda vamos fazer barulho, porém sem tanto medo das distorções. A ideia é mesmo que os idiotas e preconceituosos desistam de nos acompanhar, que restem apenas os que têm alguma consciência. Se temos muito a Temer com quem quer a todo custo impeachment da Dilma, lutar até Feliciano cair ou contra a horrível bolsa-estupro são causas que asseguram o caráter humanista das manifestações. Depois passamos para questões menos polêmicas, mas já em outro clima, com maior coesão nas marchas. Isso posto, acho que os intelectuais e artistas não devem se acovardar agora, não devem abandonar o palco, de modo que apenas os direitistas o ocupem. É uma das piores coisas que podemos fazer, desanimar na hora que os piores “nacionalistas” querem tomar nossa deixa. Essa postura dos nossos intelectuais é resultado de décadas e décadas de pensamento melancólico e de sentimento de impotência, mas o momento convoca a uma vivacidade, pede uma suspensão da desconfiança e um pouco de coragem. Afinal não é sempre que temos a oportunidade de reunir uma multidão enorme e atrair o interesse da mídia internacional com verdadeira esperança de mudar algo.

 

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ANTONIO MIRANDA

O GIGANTE DESPERTOU: QUO VADIS? E AGORA, JOSÉ?

O Brasil sempre foi reconhecido como pacifico, tolerante e despolitizado. No Exterior, conhecido pelo estereotipo da combinação do futebol com o carnaval, do erotismo e exotismo de seu comportamento e a exuberância dos recursos naturais e meio-ambiente. Gilberto Freyre cunhou a imagem de uma “unidade na diversidade”, de uma sociedade de “casa grande e senzala” em que as tremendas diferenças de classe eram amenizadas pelas relações sociais afetivas. Uma vasta extensão territorial onde a língua aproximou e forjou o país mesmo antes da abertura de estradas, da conquista do interior — em que se insere o desenvolvimento tardio da Amazônia e do Centro-Oeste. Roberto da Matta encontra na sociedade brasileira, em confronto com outros povos, um comportamento ambivalente, em que somos mais liberais na rua do que dentro de casa. Vem em nossa configuração ou estereotipo a herança colonial, o patriarcalismo, a capacidade de apaziguar os conflitos, o “jeitinho” brasileiro. Numa redução simplista, partimos da colonização portuguesa, passando pela miscigenação racial oriunda da escravatura e, posteriormente, pela imigração de europeus e asiáticos, conformando uma idiossincrasia mais sincrética, um hibridismo de valores e crenças. Um fascínio pela cultura e língua francesa no nosso processo civilizatório e, nos últimos sessenta anos, a adoção — não necessariamente a eleição — da cultura norte-americana como modelo. Um país de cultura “mestiça”, não apenas pelos cruzamentos raciais, mas sobretudo pela amálgama de costumes e valores, apesar das enormes diferenças regionais, do baixo nível educacional. Apesar dos avanços mais recentes graças à escolarização universal e à ascensão social de milhões de pessoas à cidadania e a condições mais razoáveis de vida, mas sem vencer ainda as tremendas desigualdades sociais. Stefan Zweig cunhou a legenda de ser o Brasil “o país do futuro” e Michel Sèrres derivou a sua “filosofia mestiça” inspirada no hibridismo e no nosso ecletismo.
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Como explicar os levantes de junho de 2013 em todo o país e, em escala mais reduzida, nas periferias e no interior? Reflexo da melhoria dos níveis de educação, da inclusão social, das mudanças significativas no poder aquisitivo e consequente acesso aos bens de consumo?
A perplexidade do governo e da classe política diante das passeatas, das manifestações públicas de repúdio às práticas da corrupção e da violência, denúncia de gastos públicos sem transparência, inflação crescente. Custos de obras públicas exorbitantes, entre elas as das copas das confederações e a mundial, enquanto é flagrante a precariedade das infraestruturas: estradas, hospitais, escolas, formação de recursos humanos e segurança pública. As críticas aos partidos políticos tradicionais, o rechaço às práticas de negociação com os partidos da base de governo, o loteamento de cargos públicos, a exoneração constante de ministros e servidores públicos que logo, quase sempre, são renomeados para outras funções. Impunidade. Lentidão da justiça. A forma de governar por medidas provisórias.
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Os cientistas políticos, os jornalistas mais especializados e os economistas, durante os meses do julgamento do Mensalão, no Supremo Tribunal Federal, foram enfáticos em apontar para a enorme reserva de manobra que o governo tem para o aliciamento de pessoas carentes mediante programas assistenciais. O baixo nível de desemprego e uma elevação, ainda que discriminatória, do “índice de desenvolvimento humano” explicariam que não houve, durante o julgamento do referido Mensalão, protestos nem uma comoção nacional. Mas certamente que o processo causou um tremendo impacto na consciência das elites e das camadas mais intelectualizadas, formadoras de opinião por excelência, e que o “alheiamento” das classes mais despossuídas não significa necessariamente desconhecimento da gravidade do que estava sendo julgado.
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Por que os brasileiros, a exemplo do que era a nossa tradição, não saiu pintando as ruas, colocando bandeiras nas janelas, em unívoca e uníssona torcida por todo o país desde a abertura da Copa das Confederações? Como explicar o constrangimento das manifestações multitudinárias na inauguração do Estádio Nacional de Brasília, ameaçando o acesso dos torcedores ao jogo entre Brasil e Japão? E a vaia durante a fala da Presidente Dilma Roussef, de repercussão internacional? Por que, em vez de celebrar a primeira vitória da seleção de futebol enquanto, ao contrário das vezes anteriores — que sempre foi de carreatas e fogos de artifício — parte considerável da população saiu às ruas das principais cidades para protestar contra o aumento das passagens dos transportes públicos, questionando os altos custos das obras nos estádios, levantando as questões da precariedade dos serviços públicos de saúde e educação, numa pauta difusa, sem lideranças explícitas? Quem leu “A rebelião das massas”, de Ortega e Gasset, sabe que as manifestações incluem diferentes grupos, dos mais bem intencionados até os radicais, que atraem o lumpem, os que vivem nas ruas e os marginais sem voz e sem direitos e que, a qualquer pretexto ou falta de monitoramento, descambam inevitavelmente para os excessos pelos recalques sociais.
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Por dias seguidos, entre passeatas pacíficas, tentativas de invadir prefeituras, saqueando lojas, culminando com a “tomada” do Congresso Nacional, onde, mesmo sem invadir o prédio, os manifestantes enfrentaram a polícia e subiram as rampas e o telhado entre as cúpulas do Senado e da Câmara dos Deputados, ao lado do Palácio do Planalto, gritando palavras de ordem e exibindo cartazes com reivindicações contra os altos salários dos políticos, pedindo transporte gratuito, exigindo respeitar o direito do Ministério Publico de fazer investigações, e até questões relacionadas com os direitos dos indígenas e mais verbas para a educação. Sem aceitar o apoio de partidos políticos tradicionais, repudiando a presença de sindicatos e não admitindo a presença de políticos em suas fileiras. Sem lideranças explícitas, convocados pelas redes sociais.

Não fosse pela exposição em tempo integral por alguns canais de televisão, certamente que as manifestações não teriam alcançado a mesma repercussão. Forçados pelas circunstâncias, as autoridades vieram a público reconhecer o direito à expressão pública das reivindicações, seguindo o roteiro elaborado pelos marqueteiros de plantão. Se fosse em regimes mais fechados, onde os meios de comunicação são estatais ou controlados pelo Estado, somente o público externo acompanharia em tempo real os acontecimentos… muita gente estaria assistindo a novela ou a bufonería dp Chaves, com “s”, aclarando que nos referimos ao comediante mexicano.
Tudo isso depois de manifestações exemplares — no sentido cervantino do termo — da Primavera Árabe, das insurgências na Rússia e os levantes na Turquia a pretexto de impedir a reurbanização de uma praça pública, mas que revelam repúdio ao autoritarismo crescente de um governo que começa a erodir o laicismo e o sentido plural da composição do governo. Tendo como pano de fundo os antecedentes do derramamento de informações sigilosas de governos pelo Wikileaks e as denúncias de monitoramento de arquivos privados dos meios de comunicação pelo serviço secreto do governo do Obama.

A explicação estaria na mudança de paradigmas e nas transformações dos meios de comunicação pelas tecnologias. Partimos de um modelo “de poucos para poucos”, em tempos mais remotos, quando poucos autores escreviam e eram ouvidos ou lidos por uma público muito limitado, mesmo depois do advento da tipografia. Seguiu-se um modelo “de muitos para muitos” com os avanços da educação e da pesquisa em escala mundial, sobretudo com o surgimento de meios reprográficos, da comunicação de massa, da crescente segmentação dos meios de comunicação abertos e por cabo, da imprensa alternativa e dos meios mais interativos de acesso ao conhecimento, sem menosprezar o avanço da multivocalidade, da transdisciplinaridade e outros meios de criação coletiva e compartilhando mais solidário dos acervos informacionais. Sem esquecer das tendências para um compartilhamento mais aberto mediante dispositivos como o Creative Commons e Science Commons, em favor da flexibilização dos direitos autorais, na Era Pós-moderna. Mas estamos agora em outra etapa, na Hipermodernidade, em que a hipermidiação, a mobilidade dos meios de comunicação, a atualização em tempo real dos conteúdos informacionais, a simultaneidade e ubiquidade dos acessos aos repositórios e, acima de tudo, a possibilidade de comunicação multilateral dos usuários através de redes sociais, mudaram o cenário completamente. Pari passu com o distanciamento do público com as instituições tradicionais como os partidos políticos — criando um significativo descrédito no sistema de representação política, assim como das religiões e do ensino tradicional. É o advento do modelo “de todos para todos” em que, em escala crescente, as pessoas produzem, compartilham e retransmitem textos, imagens, músicas, ou produtos híbridos no sentido da AV3- animaverbivocovisualidade que, graças à convergência tecnológica dos processos digitais e virtuais, amalgamam textos, voz, imagens e animações por processos mais criativos, graças a aplicativos de acesso generalizado.
É nesse contexto que acontecem os levantes por todo o Brasil em junho de 2013, sem uma noção clara de seus desdobramentos, com a perplexidade dos próprios insurgentes assim como das classes políticas, sindicais, da justiça e dos meios de comunicação do país. E agora, José? Quo vadis?

 

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VICENTE FRANZ CECIM

SONÂMBULOS DA DOR

SOBRE PROTESTOS E INDIFERENÇA À DOR DO POVO NO BRASIL 

 


DEUS É BRASILEIRO!
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POR ISSO O POVO BRASILEIRO FAZ EM DOBRO A VIA CRUCIS ATRAVESSANDO HÁ DUAS SEMANAS O INFERNO
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NENHUM CÉU À VISTA!
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DESEMPREGADOS COMEÇAM CEDO, JÁ DE MANHÃ

PÉS FERIDOS PELAS MARCHAS DE ONTENS E ANTEONTENS
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OS QUE PASSARAM A NOITE ANTERIOR EM CLARO, PELA MANHÃ DORMEM, SÓ RECOMEÇAM A TRAVESSIA À TARDE
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CORPOS FERIDOS PELA VIOLÊNCIA
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OS AMEAÇADOS DE DEMISSÃO PELOS PATRÕES, ADEREM NA SAÍDA DO TRABALHO, QUANDO A NOITE CAI SUA LONGA TREVA SOBRE O BRASIL

AINDA TONTOS DE GÁS LACRIMOGÊNIO
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SOMBRAS DE HOMENS MULHERES CRIANÇAS CAMBALEIAM FRIAS DE ORVALHO ATRAVESSANDO A MADRUGADA SEM FIM!

OLHOS CEGADOS PELAS BALAS DE BORRACHA
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SOB UM CÉU SEM ANJOS!
NUMA TERRA DE NOJOS E MONSTROS DA AMBIÇÃO QUE DORMEM INDIFERENTES!
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QUANDO O NOVO DIA COMEÇA

OS OLHOS QUE SAÍRAM ÀS RUAS DA PÁTRIA LEVANDO NO PRIMEIRO PASSO
A ESPERANÇA
DE VER NASCER O SOL DA LIBERDADE PROMETIDO PELO HINO
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NÃO VEEM LUZ NO FIM DO TÚNEL NEM EM SONHOS.
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PORQUE SONÂMBULOS NÃO DORMEM.
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RECOMEÇAR: MANHÃ
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DEUS É BRASILEIRO!
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POR ISSO O POVO BRASILEIRO FAZ EM DOBRO A VIA CRUCIS ATRAVESSANDO HÁ DUAS SEMANAS O INFERNO!
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NENHUM CÉU À VISTA

 

 




Comentários (5 comentários)

  1. marco antônio de araújo Bueno, Faço minhas as posições e palavras do Floriano, do Rinaldo e do Sivestrine. Como ele, “to dentro’. Tal como os demais, admito que tudo o que negue a força dessa evidência pulsional seja sectário e anacrônico. Uma ‘primavera’ por aqui é de um pluralismo e sutileza irredutíveis à causa A ou B. Tenhamos com/postura!
    24 junho, 2013 as 11:40
  2. Carlos Gildemar Pontes, A Copa das Confederações deveria ser um evento normal, como normal deveria ser ir a um hospital e ser atendido dignamente por profissionais bem pagos e competentes. Normal também deveria ser a ESCOLA o lugar da aprendizagem e da valorização do ser humano como sujeito da sua história. A Educação é a nossa base para a vida, daí ser o professor o profissional mais importante nesse processo de humanização. Mas o que ocorre é que invertemos todas as prioridades. Político, jogador, cantor e ator são mais importantes que professores. A Copa do Mundo no Brasil mostrou para o mundo, vergonhosamente, o tamanho da nossa corrupção. O nosso problema, do brasileiro, é que aprende a gostar de futebol antes de gostar do livro e da escola. Cresce sem valores e é facilmente manipulado pela mídia, que fabrica ídolos sem consistência, incapazes de levar pessoas a transformar as suas vidas pela educação. Muitos desses ídolos são erroneamente endeusados porque não estudaram, como se não estudar fosse um detalhe sem importância na carreira de um ídolo. Assim, ao invés de dar exemplos, o ídolo passa a ser frágil, porque não tem conteúdo próprio. Ele é o que a mídia quer que ele seja. Ver os exemplos no futebol de Dadá Maravilha, Garrincha, Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Neymar… Na música temos as excrescências da Tati Quebra Barraco, Belo, sertanojos e pagodeiros que se colocam como pop star, mas são incapazes de defender as causas sociais e as lutas políticas neste Brasil que deserda professores e médicos e exalta a subcultura do lixo cultural. Acho que estamos crescendo, aprendendo com os erros, amadurecendo a força. Tomara que façamos destes protestos pelo Brasil um país onde o povo possa escolher, sem maniqueísmos e manipulação, outras vocações como a ciência, a leitura, o esporte amador e a honestidade e a ética. CGP.
    24 junho, 2013 as 16:59
  3. Vicente Franz Cecim, Política da Poética – porque a política sem poética não nos serve mais. vFc
    24 junho, 2013 as 17:42
  4. Pedro, PASSEATAS – PARA REFLETIR SE O GOVERNO NÃO É APENAS RETRATO COISAS PEDIDAS NAS FAIXAS. MAS SERÁ QUE PRATICAM. DUVIDAS POLITICAMENTE INCORRETAS. As passeatas foram bonitas mas, lendo as faixas e cartazes, algumas dúvidas não calam: Sobre críticas a Globo e queima de carros de reportagem: Será que os manifestantes não assistem às novelas das Nove ou nenhum pedacinho dos BBBs? Esquecem a importância da imprensa na democracia? Sobre os políticos: Quantos lembram-se em quem votaram nas duas últimas eleições? Com que votos se reelegeram políticos envolvidos no mensalão, com grana nas cuecas, etc.? Criticas a corrupção e ética: Quantos não aceitariam um “cargo de assessor” por R$ 5.000,00? E nunca ofereceram uma graninha a fiscal ou furou uma fila para ser mais esperto? Críticas ao transporte público: Quantos efetivamente deixam seus carros em casa e tomam ônibus lotado? Quantos não compraram carro ponto zero financiado em 48 meses por causa do IPI? Críticas genéricas e éticas: Quantos evitam comprar produtos chineses? Quantos compram produtos “piratas”, como um CD? Será que pedem nota fiscal e não sonegam IR? Será que, ao menos, recolhem o cocô do cachorro? Para finalizar, face a uma leitura superficial do texto, quantos chamar-me-ão, entre outros adjetivos impublicáveis, de reacionário, ao se enquadrarem em qualquer item e não trem tempo a perder tempo em reflexões. Afinal, tendo pizza,churrasco, cerveja e caipirinha, pra que saber quanto tem de imposto na cesta básica? N.A. – Quem quiser apresentar outras perguntas, sem ofensas, interaja.
    27 junho, 2013 as 11:24
  5. Chico Lopes, O que sinto em relação a isso é um misto de exaltação e cautela. Acho ótimo todo mundo indo pras ruas e pondo a bronca contra esse sistema falido em pauta. Mas temo a apropriação que a classe política possa fazer dessa espontaneidade toda. Não podemos ser ingênuos – para sobreviverem, eles farão tudo que puderem, inclusive se “curvarem” à “voz que vem das ruas”, como aquela senhora cada vez mais hipócrita afirmou. Penso que isso é apenas um primeiro sinal de coisas mais graves, e talvez bem mais substanciais, a acontecer. Há muitos anos sinto comigo que a crise de representatividade política é um fato óbvio. Não voto em ninguém, não ouso. E, nas poucas vezes em que ouso votar, me arrependo rapidamente demais. Detesto a palavra paradigma, facilmente na boca de todo mundo, mas haverá um novo paradigma político ou não haverá mais nada a não ser barbárie. A barbárie vem de cima. Nada é pior em termos de predação e destruição que a classe dominante. E faz muito tempo que o PT, com politiquinhas sociais de migalhas pra miseráveis, tão filho da puta quanto qualquer madame filantrópica, tem a cara da classe dominante, com uma esquerda só parcialmente lúcida (e em geral avessa à atividade partidária). Não tem jeito. Ou mudar ou morrer.
    2 julho, 2013 as 12:08

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