As Crônicas Inéditas de Jorge Amado



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As décadas de 1930 e 1940, assim como a primeira metade dos anos 50, foram de intensa militância política para Jorge Amado. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro desde 1932, sob influência de um grupo de artistas e intelectuais de esquerda, como Raul Bopp, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, José Lins do Rego e, sobretudo, da escritora Rachel de Queiroz, Amado se engajou na causa comunista sob a vertente stalinista. Um ano depois, Gilberto Freyre publicava Casa Grande & Senzala, obra que marca profundamente a visão de mundo do escritor baiano1.

Nesse sentido, as primeiras obras de Jorge Amado se destacam pela preocupação com questões sociais e valorização do regional. Daniel Pécaut, em seu Os Intelectuais e a Política no Brasil – Entre o Povo e a Nação, destaca justamente a obra de Freyre, mencionada acima, como um “marco essencial” para o projeto realista dos intelectuais da época, fazendo da mestiçagem um elemento de privilégio e vantagem, uma vez que baseada no intercâmbio de povos distintos. O sociólogo francês conclui que essa “marcha para a realidade” pretende mostrar, primeiramente, “que não existe o indivíduo isolado: ele está, desde início, inserido numa coletividade”. Portanto, descartam-se as ideias políticas individualistas. Num segundo momento, pretendia-se “destacar a interdependência entre aqueles que ocupam posições sociais desiguais”, fazendo ir por terra “as teorias fundadas na divisão de classes”. Essa lógica seria a prova, por assim dizer, de “uma unidade nacional de fato, que faltava apenas fortalecer pela via institucional.” (PÉCAUT, 1990, p.47). Como se discutirá mais à frente, a palavra de ordem dos comunistas seguida por Jorge Amado em suas crônicas é precisamente unidade (unidade nacional, mundial, união do povo). Quanto à mestiçagem, Amado defende esse conceito descrito por Pécaut em sua crônica de Hora da Guerra intitulada Hitler contra Zumbi dos Palmares, de 27/2/1943: “Hitler considera ‘miseráveis mestiços inferiores’ (vide edição completa de Minha luta. A traduzida no Brasil suprimiu o trecho) [...]” (AMADO, 2008, p.65).

Em meio a todo esse projeto, Amado participou da campanha da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento oposto à Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, com ideias de extrema direita e de cunho fascista. A ANL foi “fundada em março de 1935 sob a égide do PCB”, e, segundo Pécaut, é um grande “exemplo de movimento político de envergadura onde intelectuais de perfis diversos desempenharam papel importante e atraíram consideráveis contingentes das classes médias.” (PÉCAUT, p.83). Luís Carlos Prestes se tornaria o grande líder dessa movimentação pró-comunista anti- Vargas e, alguns anos mais tarde, teria sua biografia publicada em Buenos Aires por Jorge Amado, sob o título A Vida de Luís Carlos Prestes (1942), rebatizada mais tarde O Cavaleiro da Esperança.

Combatida rapidamente pelas Forças de Segurança Nacional do governo Vargas, a Intentona Comunista liderada pela ANL, cujo maior objetivo era provocar uma revolução contra o governo, e que teve sua eclosão em novembro de 1935, levou o presidente a decretar estado de sítio e uma forte repressão aos que eram considerados envolvidos no movimento. Em 1936, Jorge Amado foi um dos artistas-intelectuais presos em decorrência de tal acusação. Um ano depois, é detido novamente após a instalação do Estado Novo, que tornou ilegal o Partido Comunista Brasileiro. Seus livros são queimados em praça pública, em Salvador.

Toda essa repressão advinda do golpe de Estado de Vargas é discutida por John F. Dulles no seu livro O Comunismo no Brasil, no qual afirma que “Vargas tinha o apoio dos militares, de muitos governadores e de Plínio Salgado”, integralista duramente criticado por Jorge Amado em suas crônicas (traidor comprado, “escroque”, conforme se leem, respectivamente, em Absolvição!, crônica de 23/3/1943 e Considerações Quase Religiosas, de 7/4/1944). Dulles menciona também que “a polícia deu execução a novas instruções sobre censura, vasculhando livrarias e apreendendo livro proibidos, como os romances de Jorge Amado…” (DULLES, 1985, p.142).

Com o início da Segunda Guerra Mundial deflagrada após as tropas alemãs invadirem a Polônia em setembro de 1939, um inimigo se mostra ao mundo: as forças do Eixo. O PCB, sobretudo a partir de 1941, quando a União Soviética é invadida pelos nazistas e se vê obrigada a entrar na guerra – saindo de sua posição neutra até então, sob o pressuposto de que o conflito era uma queda de braços entre nações imperialistas –, toma como ação estratégica a aproximação com o governo Vargas na luta contra aquele inimigo maior, ameaçador da “liberdade dos povos”.

Um enorme esforço de guerra mobilizou os intelectuais comunistas que, mesmo perseguidos pelo Estado Novo, recebiam orientações de Moscou no sentido de se envolverem contra o perigo nazifascista que tentava se instalar como ordem mundial. Dulles escreve sobre a época que Jorge Amado volta ao Brasil, em 1942, depois de dois anos auto-exilado no Uruguai e Argentina, onde lançou a biografia de Prestes. Nesse retorno, Amado é preso novamente, pela terceira vez, em Porto Alegre, e levado ao presídio de Ilha Grande, Rio de Janeiro. É posto em liberdade e enviado à Bahia, sob a condição de permanecer nos limites do estado, sob vigilância:

Amado, depois de solto, passou muito tempo na Bahia, cooperando no esforço de guerra com seus artigos e também com discursos ocasionais [...] Jorge Amado mandou uma mensagem aos escritores católicos, sugerindo que esquecessem as “diferenças ideológicas” e trabalhassem juntos “contra as forças demoníacas do nipo-nazifascismo”. (DULLES, p.236-237).2

Em 1942, sobretudo após o bombardeio de cinco navios brasileiros na costa nordestina, o Brasil entra na Segunda Guerra Mundial, em cooperação aos aliados. Nesta época, Amado “colabora na Folha da Manhã, de São Paulo, torna-se chefe de redação do diário Hoje, do PCB, e secretário do Instituto Cultural Brasil-União Soviética” (COSTA E SILVA, 2010, p.436). O país em polvorosa diante dos acontecimentos e efeitos do conflito mundial (como o racionamento de gasolina e alimentos) é o contexto que o escritor baiano encontra de volta ao Brasil e que servirá como gatilho para sua coluna “Hora da Guerra”, no jornal soteropolitano O Imparcial, que já “era um dos veículos de oposição à política de Getúlio Vargas e se tornou a trincheira perfeita para que Jorge Amado pudesse propagar suas ideias” (FRAGA, Myriam; GOLDSTEIN, Ilana S., 2008, p.10). A partir de tal contexto é que avançamos para as crônicas, especificamente a de abertura, do livro Hora da Guerra.

 

2. Jorge Amado: A pena como Arma

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A crônica que abre o livro Hora da Guerra foi publicada no jornal baiano O Imparcial no dia 23 de dezembro de 1943. Nela, Jorge Amado faz um balanço de aniversário de um ano da coluna, publicada entre 1942 e 1945. Intitulada “Aniversário da „Hora da Guerra‟”, o texto serve de modo bastante preciso como o abre-alas da coletânea. Muito provavelmente, a razão de sua escolha pelas organizadoras Myriam Fraga e Ilana Seltzer Goldstein como o primeiro tiro do pelotão de 103 crônicas reside na força sintética que aquelas linhas carregam. O balanço de aniversário da crônica traz a linha mestra (bem como outros pontos que irradiam dela) do projeto artístico-ideológico que Jorge Amado se inseria desde os anos 30, cujo cenário, no momento de sua escrita, era a fatídica Segunda Guerra Mundial.

As primeiras palavras já dizem muito pela imagem que introduz: “A ‘Hora da Guerra’ é uma pequena trincheira”. (AMADO, p.27). Mais à frente:

Sou por vocação um romancista e agora mesmo venho de terminar de escrever mais um romance. Não creio, porém, que nenhum escritor possa, no momento presente, manter-se nos limites da sua obra de criação, seja o romancista, o poeta, o cientista. Tem a obrigação de empregar sua capacidade de escritor no esclarecimento dos problemas referentes à guerra, dos problemas imediatos, esses que surgem todos os dias.
(AMADO, p.27).

Embora ressalte que “nenhum brasileiro poderia deixar de cumprir com o seu dever perante a pátria” (AMADO, p.27), claramente sua voz se levanta ao se dirigir a artistas e intelectuais, setor do qual faz parte. Esse julgamento passa, portanto, pela responsabilidade atrelada ao papel de cada um na defesa da “nação”. Ao abrir-lhe espaço para escrever a coluna, O Imparcial – que, nas palavras de Amado, trata-se de um “jornal militante da causa democrática com uma recente tradição de luta” –, propiciou de modo responsável a missão do escritor engajado:

Um matutino democrático abriu-lhe suas colunas para uma crônica diária. Eis como nasceu a Hora da Guerra. Nesse canto de página têm sido examinados os diversos problemas políticos do mundo em guerra. Com amplo desejo de acertar, de orientar os leitores, de ajudá-los na sua luta por um mundo melhor. (AMADO, p.27).

Essa postura não se estabelece a partir das crônicas. Como bem esclarece Boris Fausto no prefácio intitulado “Olhares Cruzados” de Hora da Guerra, Jorge Amado, desde a década de 30, combinava obra literária de cunho social com suas atividades políticas. Sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1932 justifica seu tom.

Assim, estando aquela linha mestra melhor definida (literatura e ideologia política), mais claro se deslumbram outros pontos evidenciados no texto de abertura de Hora da Guerra e que são a tônica de praticamente todas as demais.

Parte-se, aqui, da consciência de Amado sobre o gênero que encara – a crônica:

É claro que ninguém vai imaginar que se possa escrever diariamente uma crônica perfeita. Um dia sai melhor, noutro dia mais fraca, mas de qualquer maneira representam uma contribuição para esclarecer o povo, uma ajuda ao esforço de guerra do país, e também marcam uma posição definida. (AMADO, p.28).

Tal posição deveria ser o ponto de partida, a resolução firme para o combate contra aquele “inimigo”. Uma pergunta se abre, então: o que ou quem seria essa força do mal? Primeiro, os demônios estavam amalgamados em um só corpo sem face:

O desejo ardente da quinta-coluna é que se esqueça a guerra, que não se pense, não se fale, não se escreva sobre ela. Todo o escritor que esquece esse motivo vital do seu tempo e do seu povo está cooperando com a quinta-coluna. (AMADO, p.28).

Como se nota, ou o artista-intelectual se posiciona contra o “terror” e o “obscurantismo” ou se confunde com a quinta-coluna, com aqueles infiltrados no país ou traidores da democracia que simpatizam com outro demônio. Este mais visível: “o nipo-nazifascismo”.

Uma terceira força do mal seria o que Amado cunhou de muniquismo. Ou seja, concessões ao inimigo tendo em vista uma política de apaziguamento, mas que, na prática, teve muitas vezes como resultado o capitulismo, rendição desastrosa em vez de resistência. A palavra refere-se à cidade alemã de Munique, onde, em 1938, Hitler assinou um acordo com o primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain. Na tentativa de conter o nazista, foi-lhe cedido um território de maioria alemã da antiga Tchecoslováquia. Não tardou para que Hitler invadisse o restante do país, a seguir a Polônia, e desse início, assim, à Segunda Guerra Mundial. (FAUSTO, 2008, p.18).

Nesse sentido, Jorge Amado era contra águas mornas. O posicionamento que clamava deveria ser claro, bravo, contundente, ainda que custasse mazelas pessoais: “Recebi, por causa dessas crônicas, descomposturas e ameaças.” (AMADO, p.28).

Ele sintetiza o monstro de três braços:

O que a “Hora da Guerra” pode prometer é continuar, enquanto exista, a sua luta pela liberdade, pela democracia, pela vitória realmente do povo. Contra o nazifascismo, a quinta-coluna e o muniquismo. (AMADO, p.28).

Outra questão: qual seria a estratégia para combater o inimigo? A resposta está na palavra de ordem unidade, em sua forma mais ampla possível: unidade das forças democráticas mundiais, unidade nacional em torno do governo, todos na luta contra o nazifascismo. Tal estratégia teve origem na mudança de rumo no mundo comunista. Nasceu, mais precisamente, em Moscou, depois de a União Soviética ter sido invadida pelas forças nazistas. Em consequência, a guerra, antes vista como um conflito entre nações imperialistas e capitalistas, agora era uma afronta à “pátria do socialismo” e, portanto, contra a humanidade. Os partidos comunistas em todo o mundo passaram a seguir o lema da união, da unidade contra o eixo do mal. (FAUSTO, p.19).

A luta de Jorge Amado, pois:

Na “Hora da Guerra” um escritor brasileiro tem procurado dar sua contribuição para a vitória da liberdade sobre a opressão, da cultura sobre o obscurantismo, da democracia sobre o terror, das Nações Unidas sobre o nipo-nazifascismo. (AMADO, p. 28).

É nesse tecido, na posição de quem se guia como membro do PCB que essa crônica de aniversário faz revelar o tom maniqueísta que o leitor encontrará em praticamente todos os textos da seleção. As Nações Unidas, como nos aponta Boris Fausto, são o “bem supremo” – a União Soviética, a Inglaterra e os Estados Unidos. O “mal supremo”, obviamente, é o Eixo: Alemanha, Itália e Japão.

A dramaticidade da guerra, por consequência, suscita o tom apaixonado, as simplificações e a ideia de um inimigo como um todo, da divisão dos que lutam pela unidade e daqueles que estão contra: “A quinta-coluna ainda é forte. Mais forte que a quinta-coluna é o amor do povo à liberdade.” (AMADO, p.28).

Anjos aliados também surgem nesse combate:

Felizmente a grande maioria dos escritores brasileiros compreendeu exatamente o problema. Pelo menos aquela geração de 30, trazendo a experiência do romance social e os estudos de sociologia. Estão de armas em punho e já hoje há uma consciência de que a pena ou a máquina de escrever são armas tão mortais e necessárias quanto o fuzil e a metralhadora. (AMADO, p.28).

Em última instância, Jorge Amado escreve como membro do Partido Comunista, em louvor a Stálin e ao projeto socialista. Naqueles anos decisivos, um inimigo deve ser combatido, o nipo-nazifascismo. Para isso, a união entre várias forças, ainda que contrárias a princípio, era a ordem: a unidade mundial e nacional. Isso não significa, porém, que o olhar da atualidade deva cair na simplificação, no julgamento do tom pelo qual o autor se expressa. A energética de Amado nos anos 40 se justifica além de reducionismos. Os temas levantados no calor do momento permanecem como matéria para reflexão de uma época que o mundo ainda ressente.

 

 

 

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Notas
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1. Conforme cronologia apresentada na obra: COSTA E SILVA, Alberto da. Jorge Amado – Essencial. São Paulo: Penguim, 2010, p.435.

2. A referência de Dulles da mensagem de Jorge Amado citada encontra-se em nota de final de livro: “Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), carta a Jorge Amado, Rio de Janeiro, 27 nov. 1942, in: Folha da Manhã, 25 set. 1949.” (DULLES, 1985, p.327).

 

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Referências Bibliográficas

AMADO, Jorge. Hora da Guerra. FRAGA, Myriam; GOLDSTEIN, Ilana Seltzer (Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

COSTA E SILVA, Alberto da. Jorge Amado – Essencial. São Paulo: Penguim, 2010.

DULLES, John W.F. O Comunismo no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FAUSTO, Boris. Olhares Cruzados. In: FRAGA, Myriam; GOLDSTEIN, Ilana Seltzer (Org.). Hora da Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.13-23.

PÉCAUT, Daniel. Os Intelectuais e a Política no Brasil – Entre o Povo e a Nação. São Paulo: Ática, 1990.

 

 

 

 

 

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[Texto publicado na Revista Crioula - uma publicação científica dos alunos de pós-graduação da Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (ECLLP-DLCV-USP)].

 

 

 

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Márcio Henrique Muraca é mestrando em Teoria Literária na Universidade Federal de Uberlândia, bolsista FAPEMIG, projeto intitulado Jorge Amado: Um Cronista da Guerra. E-mail: henrymuraca@yahoo.com.br.




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