Baco: o Herói Dissidente d’Os Lusíadas


 

……(Carta Aberta de uma Camoniana aos Leitores de Camões)

 

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Paciência tem limite.

Na passada terça feira, dia 14 deste mês de fevereiro, Hélder Macedo, lançando um seu novo livro de ensaios, proferiu a conferência intitulada, segundo informa a página aberta no Facebook, “Os Lusíadas: Portugal, Filho de Baco”. Um amigo que lá esteve, confirmando minha previsão, informou-me que, na sala repleta, o professor e escritor apresentou o referido tema sem nem por mais fina alusão citar, como devido, o nome da autora da tese contida no título: Luiza Nóbrega, a mesma que aqui escreve esta carta aberta aos leitores de Camões. Não sendo a ocorrência um ato primário, e sim reincidente, e tendo eu já anteriormente trazido ao público a trama de bastidores pela qual, com a conivência (senão providência) do setor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pretende-se há anos furtar as descobertas pioneiras por mim procedidas sobre o sentido mais profundo veiculado no texto d’ Os Lusíadas (num conjunto de teses que se congregam, e entre as quais se destaca a da dissidência passada por Baco, figura-chave na significância do poema); e tendo eu, ademais, já há alguns anos advertido o professor Hélder Macedo sobre o seu dever de ética científica, o qual exigia e exige, no mínimo, citar a fonte das teses que ele vem apresentando ao público e leitores como de sua autoria; ainda mais considerando-se que ele mesmo me confessou, por e-mail, ter lido o meu livro, a ele entregue por sua amiga Teresa Cristina Cerdeira – professora da UFRJ e membro da banca examinadora na minha defesa de tese do Doutoramento (o que já eu sabia antes que ele mo confessasse); venho agora de público declarar aos leitores de Camões – e particularmente d’Os Lusíadas – que na pior das hipóteses os portugueses até poderão ser enganados, graças ao status institucional de que o professor Hélder Macedo dispõe, e do qual vai fazendo audacioso e temerário uso. Poderão ser enganados, sim, na pior das hipóteses, os leitores de Camões e d’Os Lusíadas, mas certamente não o serão com o meu consentimento, por cima do meu silêncio frouxo, pois se engana quem pensa que só porque não leciono em Londres agiria como o cão rafeiro (no Brasil se diz cachorro vira-lata), que mete o rabo entre as pernas e some desconfiado quando um grandalhão lhe abocanha o osso, porque na verdade estou bem cônscia de quem sou: além de poeta, escritora e ensaísta, uma investigadora séria, com um longo curriculum por trás dos seus setenta anos completos, construído por pestanas queimadas em longos anos de pesquisas (apoiadas por todas as instituições de financiamento, em Portugal e no Brasil) que a levaram a inúmeras travessias entre as duas margens atlânticas, e resultaram numa contribuição de peso aos estudos literários, particularmente camonianos, uma vez que me especializei na releitura d’Os Lusíadas; e, consequentemente, merecedora de respeito por parte de quem se disser camoniano ou leitor de Camões. E é por tais razões insofismáveis que, de viva e ampla voz, venho hoje ao público com o texto que abaixo se segue, por cuja leitura quem ainda esteja desinformado passará a conhecer os bastidores de uma trama ladina, que ofende o deus da hera e insulta a memória do grande Camões.

 

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Parte do público que, estando presente ao encerramento do colóquio “Um Dia de Camões”, realizado na Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro, a 10 de junho de 2012, terá talvez estranhado que, tendo aberto o evento com uma conferência, eu acabasse por também encerrá-lo, inesperada e involuntariamente, com esta declaração, pronunciada em alta voz:

Hoje, em 2012, já é coisa fácil para alguns camonianos referirem-se a Os Lusíadas com um novo olhar, a partir do novo olhar lançado à figura de Baco, peça-chave para a compreensão do poema; mas é preciso lembrar que tal olhar inexistia até 2001, quando Luiza Nóbrega defendeu sua tese, na qual procedeu à demonstração meticulosa da trama mítico-metafórica no texto d’ Os Lusíadas. Esta descoberta é minha, e dela não abro mão. Agora, porque os tempos mudaram, vamos tomar um bom vinho repaginando o vilão adversário dos barões navegantes! Va bene, mas às minhas custas é que não!

O estranhamento seria compreensível entre os que, ignorando o porquê daquela minha necessária declaração, e talvez também as invectivas com que Jorge de Sena denunciou abertamente as rasteiras, rapinas e perfídias que o estudioso de Camões terá de enfrentar quando adentra os feudos camonistas, estivessem ademais esquecidos da sentença categórica de Bertolt Brecht: “do rio que tudo arrasta diz-se violento, mas nada se diz das margens que o comprimem”.

Decorridos já quase cinco anos desde aquele aviso, e tendo crescido e endurecido ainda mais o meu calo honroso (citando o próprio Camões), sou agora surpreendida por novo episódio que me obriga a voltar à carga, em defesa do mérito que por direito me é devido. E desta feita, já cansada de provocações reincidentes cujo atrevimento avança em escala crescente, decidi de uma por todas escrever e lançar aos quatro ventos uma carta aberta aos leitores de Camões, para que saibam o que se passa nos bastidores de uma descoberta que revolucionou a compreensão d’ Os Lusíadas, empreendida por alguém que há três décadas dedica-se a Camões e ao seu portentoso poema, como poeta, ensaísta e professora, e já em idas e vindas inumeráveis cruzou o Atlântico, entre Brasil e Portugal, porque assim quis o destino.

Impossível seria aqui narrar todo o percurso acidentado da investigação que se concluiu em tese, da qual resultaram dois livros e inúmeros ensaios, além de cursos, conferências, palestras e participações em colóquios e congressos. Os interessados em saber de que modo o meu estudo procedeu às descobertas pioneiras – e como superou vitorioso os obstáculos que lhe foram interpostos, no intuito, primeiro de impedir sua continuidade, e, depois, de apoderar-se das suas descobertas – deverão consultar a bibliografia ao fim desse texto.

Vamos então aos fatos.

Tudo começou em 1982, quando li pela primeira vez por inteiro Os Lusíadas. Cursava na Universidade de Brasilia um Mestrado em Literatura Brasileira e pretendia depois enveredar num Doutoramento sobre a obra do poeta Jorge de Lima. Propus então a hipótese de que a Índia, no poema, seria o correlativo objetivo (conceito elioteano) de um conteúdo anímico feminino, complementar do masculino, representado pelo navegante. Muito longe ainda de perceber o alcance maior dessa primeira percepção, sem ter ideia de que eu estava na pista da incumprida análise rítmico-semântica reclamada por Jorge de Sena (que eu então desconhecia), mas já animada com a descoberta, sistematizei-a e apresentei-a numa monografia ao professor Luís Piva, que a recebeu muito mal e me atribuiu a primeira nota baixa do meu curriculum.

O magister dixit, entretanto, com todo o efeito traumático de uma interdição, não impediu, conforme quis o destino, que em 1988, ano do centenário de nascimento de Fernando Pessoa, fosse eu a Lisboa, com bolsa da Fundação Gulbenkian, investigar a obra do poeta e pintor Almada Negreiros. E qual não foi o meu espanto quando, lendo os textos que expunham os mitemas pessoanos do Supra Camões, do Quinto Império, dos Novos Descobrimentos, dos dois lados da Sabedoria e da Índia Nova, achei neles uma prodigiosa convergência com a minha leitura, e percebi que este último expressava metaforicamente o que, no meu entender, significava a metáfora da desejada parte Oriental n’Os Lusíadas: a busca, através de uma viagem interior, de uma parte psíquica complementar perdida. Algo que se expressava sumariamente nos versos do Opiário de Campos: Pra que fui visitar a Índia que há / Se não há Índia senão a alma em mim?

Decidi então empreender um Doutorado em Literatura Portuguesa, tomando por tema a metáfora da desejada parte, pretendendo inicialmente transitar por Camões, Pessoa e outros poetas, em torno dessa perífrase metafórica com que n’ Os Lusíadas se designam a Índia e o Oriente. Com esse intuito, iniciei o Doutorado em Teoria Literária na PUC/RS, em Porto Alegre, no qual adquiri as ferramentas teóricas com que me tornei capaz de enfrentar o texto poético; e em seguida transferi-me para o Doutorado em Letras Vernáculas/Literatura Portuguesa da UFRJ, no Rio de Janeiro, onde cursei algumas disciplinas, partindo em seguida outra vez para Lisboa, com bolsa da CAPES e do Instituto Camões para pesquisar o tema da Desejada Parte Oriental.

O destino, porém, mais uma vez decidiu por mim, e logo me vi capturada pela gravitação poderosa do poema colossal, ao qual, de 1997 a 2001, dediquei exclusivamente a investigação, toda desenvolvida sob orientação de Silvina Rodrigues Lopes, na Universidade Nova de Lisboa. E ao longo da pesquisa a metáfora da desejada parte Oriental evidenciou-se como a ponta do fio condutor que me levaria por um longo percurso até a descoberta de uma vastíssima camada semântica subjacente à linha narrativa do poema que se definia como épico, e na sua profundidade era um trágico-lírico. Um invólucro épico que portava uma mensagem dissimulada ao rei, à corte, ao tempo e aos séculos vindouros. Desencadeou-se então um conjunto de descobertas que me surpreenderam e comoveram profundamente, e entre elas projetou-se com relevo a de que o vasto complexo semântico, constituído por uma prodigiosa cadeia combinatória semântica, era capitaneado pela figura de Baco. Alterava-se assim radicalmente o sentido da presença de Baco n’ Os Lusíadas, emergindo o deus – antes considerado um mero coadjuvante secundário, um adversário rancoroso dos Lusíadas navegantes, um despeitado decorativo, cujas ações teriam função meramente retórica e estariam destinadas ao fracasso – como a peça-chave do poema, nele desempenhando um conjunto de seis relevantes funções, decisivas para o sentido d’ Os Lusíadas. Pautada sempre na leitura do texto, observando e demonstrando sua trama semântica, identifiquei em Baco o solista de um coro dissidente, o porta-voz da vingança do poeta contra o injusto mando executado, e em defesa da Lusitana antiga liberdade, ou seja, sua vingança contra os novos tempos sombrios que se inauguravam com D. João III, seu poderoso adversário, por cujo mando foi o poeta despachado ao Oriente. Procedendo à análise comparativa d’ Os Lusíadas com as Rimas, as peças dramáticas e as cartas de Camões, tive confirmados os achados, que de hipóteses evoluíram para a tese, defendida em 2001, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o título: “A Traça no Pano: Contradicção de Baco n’ Os Lusíadas”.

Foi então que se iniciou precisamente aquilo que venho aqui relatar, atendo-me ao principal.

No ato de defesa da minha tese, Teresa Cristina Cerdeira, que compunha a banca examinadora, teceu comentários entusiásticos, cujo resumo entregou-me por escrito ao final da sessão. Cito alguns trechos:

Uma tese… polêmica, ousada… por isso mesmo merecedora do assombro, da quase revolta, às vezes, menos pelo que ela tem de novo (o leitor arguto e inteligente – mesmo em pertencendo à academia, instituição do poder, se compraz quando o espantam) e mais pela forma como esse novo se apresenta.

Um trabalho de pesquisa insano, e nisso apadrinhado diretamente por outra loucura providencial e bem-vinda que é a desse quase insuperável Jorge de Sena (pesquisa solitária, independente).

Uma ousadia no tratamento textual que não teme o grande texto, o texto modelar, o texto fundador d’ Os Lusíadas.

Uma qualidade de escrita que vai para além do texto gramaticalmente correto: uma escrita madura e com veios poéticos;

Foi às fontes, recuperou autores, releu documentos, deu espaço às cartas, leu-as com inteligência.

Baco é o herói d’ Os Lusíadas e alter-ego de Camões; o poema não é épico, mas trágico-lírico; o Oriente, mais que espaço de vitória e conquista, é espaço do desejo, mais que objeto do desejo, é o sujeito que transforma o outro (português/lusíada) em objeto desejante; o poema é vingança (movido a vingança).

E levanta bons sintagmas que dariam para teses várias: “desejada parte Oriental”; “engano fabricado” (projeto metalinguístico: o poema fala do poema); “a traça no pano”; “canto molhado”.

 

Faltou dizer que, pautando-me pela ética científica, eu tivera o cuidado de iniciar a tese com um relato do percurso pela fortuna crítica d’ Os Lusíadas que me antecedera, informando o leitor sobre até que ponto avançara a crítica, e demonstrando que até aquele momento nenhum estudo propusera a virada por mim operada no olhar que se lançava sobre a presença de Baco no poema.

Relendo depois de alguns anos tais comentários, alguns trechos sobressaem, infelizmente em meu desfavor, e ainda menos em favor da arguente. Mas naquela altura eu não poderia ter dado a devida atenção a frases como a de que minha tese levantava “bons sintagmas que dariam para teses várias”; ou de que minha tese, por ser polêmica e ousada, fosse “merecedora do assombro, da quase revolta”, por parte do “leitor arguto e inteligente” pertencente “à academia, instituição do poder”; nem poderia desconfiar de qual o uso que seria dado ao prazer que a arguente sentia ante o espanto perante o novo. E também não me custou ouvir-lhe as críticas, que se seguiram aos louvores. Eram de somenos, mas entre elas houve uma que se destacou. A discordância cingia-se ao tópico em que eu, depois de concordar com algumas teses de Hélder Macedo, discordara da sua tese sobre o amor misto n’Os Lusíadas. Argumentava Teresa que o camonista nunca defendera tal tese, que eu lhe desvirtuara o estudo, apresentado em Camões e a Viagem Iniciática. Eu estava, porém, quanto a isto segura, pois fizera daquele estudo uma leitura e releitura muito atenta, e aliás também proveitosa. Contudo, por mais que eu remetesse minha arguente aos trechos em causa, nada a demovia de sua irredutível posição, o que me obrigou, enfim, a contemporizar, postergando a questão, que dez anos depois voltaria à pauta, e por iniciativa, não minha, e sim da ex-examinadora.

Mas cito alguns trechos do que dizia eu àquela altura.

No primeiro capítulo, em que percorri a fortuna crítica até o momento do meu estudo:

A tese do amor misto… exposta no segundo estudo que se inclui em Camões e a Viagem Iniciática… com ela dialogarei, divergindo embora de sua conclusão; pois, se entendo que a dicotomia sublime versus baixo, n’ Os Lusíadas, abrange sem dúvida o campo do amor; não tenho, contudo, por igualmente certo o triunfo do amor sublime sobre o baixo amor, ou dos olímpicos sobre Baco, nas linhas e entrelinhas do poema.

No Capítulo V, tratando de Baco, afirmei que algum interesse pela sua figura se encontrava em Hélder Macedo, cuja abordagem, partindo da ideia da antinomia camoniana que contrapunha apetite e razão, sustentava que n’ Os Lusíadas tal oposição se dava entre amor sublime e baixo amor, sendo aquele representado por Vênus e este por Baco e Adamastor, sendo o propósito iniciático do poema a transformação do apetite em razão, logo, o triunfo de Vênus sobre Baco, o qual significava o triunfo total dos portugueses, simbolizado na “submissão de Tétis ao Gama”.

Citava ali trechos do referido autor:

Em contraste com o erotismo espiritualmente regenerador que Camões personifica em Vênus, Baco – o deus cujo poder se manifesta na embriaguez e na desmembradora submissão orgiástica da razão aos sentidos – significa o baixo amor. No contexto do esquema iniciático da obra, a identificação de Baco com o baixo amor ganha uma importância fundamental na medida em que, mitologicamente, era não só o senhor da Índia que os Portugueses demandavam, como também o pai de Luso, o antepassado mítico dos Portugueses. Tal importância fundamental não impede, contudo, que Baco represente o baixo amor a ser vencido pelo amor sublime na viagem iniciática lusíada. Ressentido e vingativo, este representante do baixo amor encarna a baixeza de sentimentos, partilhada por Adamastor, que cumpre aos lusíadas vencer, para merecer a palma.

Os Ventos, símbolos arquetipais do fálico poder masculino, tinham sido desencadeados para a destruição e estavam ao serviço do baixo amor inspirado pelo ressentimento vingativo de Baco. A sua intervenção veio, aliás, na sequência, e era compensatória do malogro da equivalente intervenção destrutiva de Adamastor.

Como se vê, eu não desvirtuava a tese de Hélder Macedo, ao dizer que, segundo ela, amor sublime e baixo amor, respectivamente representados por Vênus e Baco, confrontavam-se, sendo o propósito iniciático da viagem o triunfo do primeiro sobre o segundo; propósito que se cumprira, triunfando os nautas sobre os seus adversários. No mesmo capítulo, contestei estas ilações:

Que malogre a intervenção do Titã não me parece verdadeiro, porque sua fala é mais aviso do futuro que ameaça presente; e, como se sabe, suas profecias (duros casos) cumpriram-se.

Quanto aos ventos, desencadeados pelo conluio submarino após a descida de Baco ao fundo nunca descoberto, manifestam a intimação do instinto renegado a que o reintegrem antes que se desenfreie a catástrofe; e são aquietados quando as nereidas os seduzem, com amor, senão baixo, decerto nunca sublime.

Minha divergência não se cingia apenas à afirmação de triunfo do amor sublime sobre o baixo amor, mas incidia sobre a atribuição do sublime ao comportamento erótico de Vênus, tese facilmente contestável com o trecho em que a deusa, pretendendo obter os favores de Júpiter para os Lusíadas, levanta as vestes e mostra o sexo à promíscua divindade: Mas, para que o desejo acenda e dobre, / Lhe põe diante aquele objeto raro (Os Lusíadas, Canto II, estância 37).

E assim prosseguia o meu trecho crítico, que a arguente recusava-se a aceitar, por incidir sobre o texto de um autor de sua afeição:

Seguem-se as lágrimas teatrais, cujo poder sobre Jove só diz da pouca argúcia, ou do grande apetite, desse insaciável perseguidor de amantes. Mas que tem de sublime este estratagema da mais mimosa que triste, de falso angélico sembrante? Trata-se, obviamente, de um ato venal, de mercancia erótica, escambo de uns mimos por uma poderosa proteção. Mestra experta, é assim que o poeta vai chamá-la no Canto nono. E nesta perspectiva, aliás, nenhuma diferença faz que assim seja ou que assado fosse; pois não é de sublimezas ou baixezas que se trata, mas de veicular, por onde possível seja, o desejo interdito: solucionar a contenda levantada entre as potências submarinas e os nautas apreensivos, temerosos, semi-sonâmbulos.

Com tal argumentação, no entanto, eu pretendia sugerir a Hélder Macedo um avanço em sua já iniciada percepção da antinomia camoniana, e do papel nela desempenhado pelas presenças conjugadas do feminino e do dionisíaco no poema. Parecia-me que ele precisava proceder a um movimento de reajuste dos seus dados, ainda mal equacionados:

Mas se é o plano simbólico do poema que se invoca, então cumpre rever a significância da oposição entre o baixo e o sublime amor. Baixo, como procurei demonstrar no capítulo dedicado à análise da poética d’ Os Lusíadas, é um dos quatro núcleos basilares da combinatória que chamei antinômica. Associado a escuro, contrapõe-se a alto e claro, na combinatória em que os adjetivos transitam pelo sintagma-sema peito. Um quaternário que identifica a oposição do apolíneo e olímpico ao dionisíaco e titânico. Em torno deste campo, todo um universo de núcleos gravita. Baixo, como rudo, neste concerto remetem semanticamente a tudo o que o Olimpo rejeita como indigno e inferior, tal como está dito na Elegia VII: Porque só de não ser favorecido um claro esprito fica baixo e escuro.

Que rejeita o Olimpo? Tudo o que o antecede e lhe resiste; tudo o que ainda é selvático, não civilizado, a começar pelo instinto; ou – se entendemos Olimpo como metáfora do poder dominante – as classes sociais desprestigiadas, marginalizadas e descontentes; e os indivíduos desqualificados perante a corte. O poeta se diz baixo e rudo, autor de um canto rudo. Rudeza que quer dizer rustiqueza, naturalidade sem polimento. Ora, basta que se leiam suas Éclogas, algumas de suas demais composições, e a Carta dita primeira, que escreve de Lisboa a um amigo; para que se não tenham dúvidas quanto a ser ele um amante e defensor destes bucólicos hábitos e valores.

Era injusta, além de improcedente, a reprimenda que me impingia Teresa Cristina naquela tarde em que minha pressão caiu a 7 por 4. Improcedente porque Hélder Macedo de facto sustentara a tese que eu questionava; e injusta porque fui tão criteriosa em minha argumentação que dediquei alguns parágrafos a reconhecer que ele, já àquela altura – em convergência, aliás, com um estudo de Vasco Graça Moura, citado no meu livro – tinha um breve vislumbre do verdadeiro significado da presença de Baco n’Os Lusíadas, ao observar a figura de Sileno e nela entrevendo algo que poderia ser uma pista, vislumbrada também por Graça Moura, da identificação de Camões com Baco, ao explicitar-se a suspeita de que a presença do velho sábio bêbado, preceptor do adolescente Dionysos fugitivo, e depois figura destacada em seu cortejo, talvez tivesse uma significância no contexto mítico d’ Os Lusíadas; mas detendo-se na leve e breve alusão, e não ousando avançar.

A tese do amor misto, de Hélder Macedo, incidia sobre a regeneração do baixo amor, n’ Os Lusíadas; e eu discordava dessa tese, não quanto a que fosse misto o amor, mas que, no poema, o amor sublime regenerasse o baixo amor; primeiro, porque não via como atribuir baixeza ao Adamastor enamorado, ao Baco indignado, e sublimeza à experta Vênus; segundo porque entendia que, no poema como um todo, baixo tem função e conotação semânticas mais complexas, para lá de uma valoração moralizante; terceiro, porque o próprio poeta, em suas últimas palavras ao rei, não apenas se declara baixo e rudo, como acrescenta: Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado. (Lus. C. X, e. 154). Aqui, neste passo, como em versos das Rimas, baixo diz do oposto complementar da altura régia, e o que interessa ao poeta é isto: conectar as cousas que juntas se acham raramente. Ao alto não cabe regenerar o baixo. Caberia, sim, reintegrá-lo, mas, se não o faz, é ao baixo que cabe corrigir o alto, dizendo-lhe: Inclinai por um pouco a majestadeOs olhos da real benignidade Ponde no chão (Lus. C. I e. 9) Por tais razões, afirmei, concluindo:

Finalmente, parece-me que haja, quanto a esta tese, um ajuste a ser feito. Se, como diz o seu autor, o objetivo de Camões, tanto na lírica como no épico, é a reconciliação da própria totalidade humana (apetite e razão), seria uma incongruência pretender esta reconciliação através da regeneração de uma das partes pela outra. Uma pseudo-reconciliação. A verdadeira reconciliação das duas partes opostas de um mesmo todo não se pode obter com a absorção de uma parte pela outra, mas, como viu Jorge de Sena, através de uma conjugação dinâmica, ou seja, uma dialética, a mesma dialética que fez o pioneiro camonista afirmar ter sido Camões um precursor de Hegel.

Este choque epistemológico sucedeu em julho de 2001. Rejeitada que fui desde o início pela equipe da Literatura Portuguesa/UFRJ, defendida a tese, fui solenemente arquivada nos seus porões, ignorada inclusive pelo meu orientador oficial, Jorge Fernandes da Silveira. Arquivada eu, mas minhas teses, não. Como num curioso jardim, comecei a ver brotarem da UFRJ textos com teses que desenvolviam linhas apontadas em meus diversos capítulos e itens, ao longo das seiscentas páginas do estudo, e houve até quem desenvolvesse uma dessas linhas como pesquisa registrada no CNPq. Pouco se me dava. Segui em frente. Anos se passaram, ao longo dos quais fui publicando ensaios sobre Os Lusíadas, divulgando minhas teses em diversos periódicos, em Portugal e no Brasil. Em 2006, por iniciativa de Hélio Alves, da Universidade de Évora, e José Augusto Cardoso Bernardes, da Universidade de Coimbra, publicou-se um resumo do capítulo da tese sobre Baco, no volume Luiz Vaz de Camões Revisitado, do Santa Barbara Portuguese Studies; um ensaio longo em que se explicitavam, numa vasta trama combinatória semântica, as seis funções principais desempenhadas por Baco n’ Os Lusíadas, destacando-se a de persona do poeta e solista do coro dissidente na trama semântica do poema. Foi um ensaio bastante lido em Portugal e no Brasil, e comentado por alguns, mas ignorado pela equipe/UFRJ. Em fins desse mesmo ano, voei novamente a Portugal, para um ano de posdoc junto à Universidade de Évora, com a colaboração de Hélio Alves e Ana Luisa Vilela.

Ao longo desse estágio, confeccionei uma edição artesanal da minha tese, com o título O Canto Molhado: Profundidade d’ Os Lusíadas, e assim inédita submeti-a à leitura de Hélio Alves e José Bernardes. O primeiro escreveu sobre ela um comentário, que me entregou em mãos, avisando-me de que o mais provável destino de um livro pioneiro em Portugal seria o esquecimento. O segundo fez também alguns comentários por escrito, os quais me leu, mas não me entregou; e, manifestando admiração pelo que lera, bem como me agradecendo pela confiança com que lhe entregara um original com teses pioneiras inéditas, concluiu suas observações avisando-me das reações que o meu livro, se publicado, provocaria entre alguns portugueses camonianos, ressaltando um certo professor que o rejeitaria certamente, mas não por discordar das descobertas, e sim por não ter sido ele o descobridor. Apenas em um ponto enganou-se aquele perspicaz e sincero comentador: que o professor Hélder Macedo seria bem capaz de estimar e acolher as minhas descobertas. Tinha ele razão em parte, mas esqueceu-se de acrescentar que o acolhimento da tese por parte do camoniano excluiria o de sua autora.

Enfim, em janeiro de 2008, por iniciativa própria, publiquei em Lisboa a minha tese sob o título O Canto Molhado: Metamorfose d’ Os Lusíadas. Regressada ao Brasil em maio do mesmo ano, encontrei por acaso Teresa Cristina, que me recomendou adquirir um exemplar do nº 7 da revista Metamorfoses (periódico da Cátedra Jorge de Sena, recém-criada e por ela regida), que neste número publicara o texto de uma comunicação apresentada por Hélder Macedo num colóquio da UFRJ, no qual, dizia-me a ex-argüente, ele voltara ao tema de Vênus e Baco n’ Os Lusíadas, com algumas novidades que eu deveria conferir. Conferi, e qual não foi minha surpresa ao verificar que o camonista desenvolvera sua abordagem aproximando-a daquela tão veementemente repreendida em minha tese, em tópicos que, em diversos trechos – ao contrário do que sucedia no ensaio anterior – convergiam com a minha leitura d’ Os Lusíadas, mas sem citar o meu estudo.

O ensaio intitula-se “Cada Um Com Seu Contrário Num Sujeito” e está bem resolvido, deixando transparecer ponderada e processada reflexão, em dezesseis páginas, dez das quais dedicadas a Os Lusíadas.

Logo à partida, ele mostra uma novidade: enquanto o ensaio anterior afirmava que “Camões era um cristão”, e que, “sem a aceitação do cristianismo como a religião superior, um aspecto essencial d’ Os Lusíadas, que é toda a confrontação dos navegantes com as forças do baixo amor expressamente identificadas como ‘infiéis’, não faria qualquer sentido”; este atual diz que ele, Camões, situando-se embora na corrente central da poesia do seu tempo, que era neoplatônica, cristã e renascentista, “dela se desvia, sendo capaz de um radicalismo tão extremo que, no contexto da ortodoxia contra-reformista, muitas vezes atinge as fronteiras da heresia.” O que se aplicará, na conclusão do ensaio, a Os Lusíadas.

E continua com outra novidade: a de que, havendo na poesia de Camões uma antinomia em que se contrapunham razão e apetite, “o conflito só poderia ser resolvido pela transformação recíproca do apetite em razão e da razão em apetite, tornando possível alcançar a desejada ‘mansa paz’ através da coexistência de ‘cada um com seu contrário num sujeito’.”

Passa depois a analisar esta dialética n’ Os Lusíadas:

N’ Os Lusíadas, tal como na Lírica, Camões utiliza a linguagem da tradição literária para significar um novo entendimento do mundo derivado da coexistência de aparentes antinomias.

Mais à frente, observa de outro ângulo a embaixada de Vênus ao gabinete de Júpiter, quase admitindo que está longe do amor sublime, e dizendo com outras palavras o que dissera eu na crítica ao seu livro, que me valera a voraz repreensão da arguente:

E, é claro, não foi uma virginal Vênus que tinha ido ela própria seduzir o “soberano padre”, que, zonzo de cio, tudo lhe promete em favor dos seus favorecidos portugueses”.

Avança então com a “novidade”, ao dizer que esta Vênus representa “a tão camoniana recuperação do ‘apetite’ na ‘razão’; e que, “desta perspectiva, Baco significaria o inverso processo de submissão da ‘razão’ ao ‘apetite’, cujas conseqüências também estariam metaforicamente representadas na degradação de Adamastor.” O gigante continua a ser visto como símbolo do amor degradado; mas ao baixo amor, simbolizado por Baco, agora é conferido um outro significado, assim como à sua relação com Vênus:

…….… a um primeiro nível de leitura, Vênus e Baco parecem irreconciliavelmente opostos… Mas também é verdade que no contexto do poema as duas divindades significam muitas outras coisas, o que qualitativamente modifica essas duas significações mais aparentes…. Vênus vai consagrar a imortalidade espiritual dos navegantes na Ilha do Amor. E o que lhes oferece como veículo para esse alto propósito (como bem acentua Fernando Gil) é a celebração dionisíaca da sexualidade humana… Camões está, portanto, mais uma vez, a articular diferentes registos de significação de modo a transformar uma aparente oposição na coexistência de antinomias complementares.

Já não há, portanto, o triunfo de um sobre outro, e sim uma reciprocidade conciliadora:

……as afinidades entre os propósitos das duas divindades são mais profundas do que as suas diferenças, o que significaria que, em última análise, não há neste poema nem vencidos nem vencedores… Vênus e Baco, a despeito da sua expressa rivalidade na trama do poema, acabam de facto por terem de ser entendidos como divindades complementares na significação totalizante do poema.

Citando Fernando Gil, afirma que Baco “é o grande problema que Camões não resolve no poema”; que ele “desaparece do poema, sem qualquer explicação”, no Canto VIII; mas – e aqui está uma “novidade” que coincide com o que demonstrei em minha tese – é substituído por Téthys nos dois últimos Cantos, de modo que “os portugueses e o ancestral Baco foram reconciliados por via feminina, no que aliás seria uma solução simbólica em tudo consistente com a centralidade atribuída à mulher no universo camoniano”; conclusão que converge com minha demonstração textual da primazia do feminino, nas Rimas camonianas como n’ Os Lusíadas:

A Ilha do Amor seria… o triunfo de Vênus que apoiou a aventura e também o triunfo de Baco, cujos ancestrais valores míticos a mesma aventura (se correctamente entendida e devidamente direccionada) deveria poder implementar no novo tempo da História. No plano simbólico do poema teria assim deixado de haver conflito e passado a haver ‘dois contrários num sujeito’, numa reconciliação não só entre pai e filhos mas também entre irmã e irmão, Vênus e Baco, na harmonia universal da Ilha do Amor.”

Aqui porém ainda ele se engana. Baco não desaparece, apenas já não é citado no enunciado, mas permanece na enunciação, porque passa a palavra à Ninfa, e ainda mais porque, sendo máscara do poeta, esgarçou-se ao longo do percurso, e ao final já deixa ver, cada vez mais, o rosto que ocultava. Por outras palavras: a intermutabilidade das instâncias subjetivas representadas pelas personagens avança para a afirmação da presença do poeta n’ Os Lusíadas, a auto-referencialidade que, no âmbito de um poema que se definisse como épico, seria uma anomalia.

Houve, portanto, uma evolução no pensamento de Hélder Macedo sobre o sentido d’ Os Lusíadas. Mas suponho que, quando falou de novidades, Teresa Cerdeira relacionasse esse ensaio ao outro do mesmo autor, que fora pomo da discórdia em minha argüição; pois, na verdade, nenhuma dessas ilações seria nova para ela, que lera e comentara com tanto entusiasmo minhas teses, então ainda não aventadas, e muito menos meticulosamente demonstradas, por quem quer que fosse, em Portugal ou Brasil ou país outro.

Camões herético; antinomias complementares dialéticamente reconciliadas; substituição de Baco pela Ninfa, nos Cantos IX e X; conexão entre Baco e o elemento feminino e colaboração subliminar de Baco e Vênus; ambigüidade e heterodoxia n’ Os Lusíadas; veiculação de heterodoxia através da metáfora mítica; Os Lusíadas como veneno coberto; função metafórica da água, como curso da vida e discurso poético; tudo isto já ela, Teresa Cristina, encontrara na argumentação indevidamente repreendida. E, aliás, o capítulo que em minha tese dediquei à presença e ação da água n’ Os Lusíadas está no cerne de uma leitura que identifica no poema a ação metamórfica da seiva feminina sobre o seu sentido, transformando o navegante em navegado e o poema em canto molhado, como disse o próprio poeta, e como intitulei o meu livro.

Assim, Hélder Macedo engenhosamente condensou, naquele seu ensaio, a articulação semântica que demonstrei, principalmente em quatro capítulos de minha tese: o que trata da função metafórica da trama mítica n’ Os Lusíadas; o que trata da metáfora da Desejada Parte Oriental como correlativo objetivo da Anima (parte feminina); o que trata da contradicção trágico-lírica de Baco no fio épico do discurso; e o que trata da umidificação e imersão do poema no húmido elemento, e da irrupção, no fio discursivo, da carga trágico-lírica subjacente.

Seria o caso – perguntava eu àquela altura em que a ex-arguente, tendo-lhe eu oferecido o meu volumoso livro, mandara-me comprar a magra revista – para meditar sobre como viajam as ideias através de cabos subterrâneos, e sobre até quando a poesia será acatada ou desacatada conforme seja o status institucional ou o poder de fogo daquele que a postule, como tão bem resumiu Éxupéry no Petit Prince? Repreendida eu fora por uma má interpretação, que não fizera, de um certo autor; mas ele teria sido depois informado de que suas renovadas proposições convergiam agora com outras já desenvolvidas por uma investigação procedida naquela universidade onde ele proferira a conferência, e que conviria, portanto, por razões de ética científica, citar a autora daquela investigação em suas especulações, tal como fizera ela, a autora, citando as dele, ao escrever a sua própria? Expus essa dúvida a uma ex-colega do Doutorado/UFRJ e ela me sugeriu que escrevesse ao professor Hélder Macedo, indagando-lhe se lera minha tese. Assim fiz, e dele obtive uma zangada confirmação, à qual respondi com uma advertência.

Abriu-se novo longo hiato, que agora se interrompe, quando, vigente a era da WEB, o amigo Luís Serguilha, poeta português residente no Brasil, avisou-me do lançamento de um novo livro de Hélder Macedo, o qual será acompanhado por uma conferência cujo título é este: “Os Lusíadas: Portugal, Filho de Baco”. Que pena eu não estar agora em Lisboa, para ter o gosto de ouvi-lo apresentar ao distinto público a tese extraída de um longo estudo procedido por outrem! Mas tenho sido paciente, e serei ainda uma vez. Terei lá ouvidos a postos, e confiemos em que dessa vez ele não ouse ofender, pela omissão, já não digo a autora da tese, mas o próprio deus da hera, antes tão aviltado, e agora exaltado, por obra de algum vinho rentável em elucubração.

Mas alguns reparos ainda se fariam necessários às novas ilações de Hélder Macedo em sua revisão. Pois Baco, o invejoso rancoroso da tradição crítica (mais recentemente atualizado em ressentido neurótico), é na verdade o porta-voz da indignação do poeta, solista do coro contradictório do discurso épico.

Divergir também de que Baco seja o problema que Camões não soube resolver n’ Os Lusíadas – ponto máximo a que chegou Fernando Gil em sua breve menção à necessidade do novo olhar sobre a figura de Baco n’ Os Lusíadas. Baco não é problema. Pelo contrário: se problema houvesse, ele seria a solução. O problema verdadeiro está na demora, na relutância, na resistência renitente da crítica em entender o que Jorge de Sena reiterava há mais de seis décadas: que Os Lusíadas é um poema. Quando a crítica compreender enfim esta evidência elementar, compreenderá instantaneamente que Baco não é problema algum: que ele é, pelo contrário, uma chave-mestra, um veículo, um signo; e que desempenha, no poema, um conjunto de funções convergentes, em níveis de crescente complexidade, funcionando, pelo menos, como:

1) personagem que cumpre seu papel no enredo, como Lieu irado, ofendido e indignado fugitivo do Olimpo que demanda justiça, mais que vingança;

2) ícone-símbolo emblemático do encontro Ocidente-Oriente;

3) persona do poeta, agente da pulsão trágico-lírica subjacente ao intuito épico;

4) signo mitopoético de um código partilhado por humanistas e maneiristas, porta-voz de uma heterodoxia filosófica e ideológica de caráter dissidente;

5) solista de um coro de vozes que interceptam e contraditam o discurso;

6) paradigma de um conjunto de eixos constitutivos do campo semântico que contradita o propósito épico d’ Os Lusíadas.

Divergir, enfim, de que tudo ao final se reconcilie lindamente, como ainda insiste Hélder Macedo: paganismo e cristianismo de mãos dadas no paraíso da Ilha Namorada. Porque, sendo Os Lusíadas um poema, e não uma história narrada, ele não acaba ali, onde a história termina. Se em algum lugar ele acaba, é onde o poeta encara o rei e lhe diz: Sem à dita de Aquiles ter inveja.

A questão é que Os Lusíadas não é um poema cuja leitura se resolva à superfície. É preciso imitar Baco no Canto VI, mergulhar com o poema e descobrir o fundo nunca descoberto; ou, como os nautas sacudidos pela borrasca, descer às íntimas entranhas do profundo.

Assim procedi. E talvez por isso foi que ouvi de Rita Marnoto, numa conversa proveitosa que tivermos em Coimbra, a afirmação de que o diferencial do meu estudo era a sua fidelidade ao texto. Mas não foi essa a única ocasião em que uma voz séria se pronunciou em reconhecimento da minha contribuição. Diversas vozes se pronunciaram, de Stephen Reckert e José Carlos Seabra Pereira (em Portugal) a Lêdo Ivo (no Brasil). Entre elas, porém, assumiram aos meus olhos mais alto relevo as registradas em dois honrosos comentários, assinados por personalidades que dispensam apresentação, dos quais transcrevo trechos, e sob cuja chancela encerro esta carta aberta.

O primeiro, de Silvina Rodrigues Lopes, no prefácio que escreveu ao meu livro NO REINO DA ÁGUA O REI DO VINHO: Submersão Dionisíaca e Transfiguração Lírica d’ Os Lusíadas:

No Reino da Água o Rei do Vinho: conspiração dionisíaca e triunfo do trágico-lírico n’ Os Lusíadas, de Luiza Nóbrega, constitui um momento decisivo da leitura daquele poema de Luís de Camões, por quatro motivos principais: 1. parte de um conhecimento exaustivo dos estudos camonianos, deslocando o horizonte aberto pelo que há de mais importante nessa tradição; 2. realiza um trabalho de leitura e interpretação que, tomando o poema enquanto tal, na sua intrínseca complexidade, mostra a inépcia das leituras culturalistas que apenas encontram  no poema a exaltação de feitos dos portugueses servida por uma estrutura retórica; 3. apresenta uma argumentação consistente acerca dos processos metamórficos e dionisíacos que estruturam o poema; 4. descobre aspectos decisivos, não só dessa estruturação metafórico-metamórfica, mas também contextuais e intertextuais, que subtraem o poema a um destino de simples objecto de análise, e sobretudo ao de suporte de projecções ideológicas.

………………………………………………………………………………………………………………………………..

É particularmente importante sublinhar como desde sua tese, defendida em 2001, Luiza Nóbrega fez da indagação da função de Baco no poema um elemento central para a compreensão do mesmo – ao abalar a função ideológica tradicionalmente atribuída àquela figura mítica, abala a própria redução do poema a um nível ideológico. Em No Reino da Água, o Rei do Vinho: conspiração dionisíaca e triunfo do trágico-lírico nOs Lusíadas, a função de Baco-Dionisos como agente do emergir da contradicção do poema aparece, não só apoiada num amplo conhecimento do mito, como suportada pela leitura subtil e rigorosa de algumas passagens (trechos que a autora demonstra serem semanticamente críticos) d’Os Lusíadas; após o que nada será como dantes em relação a um poema que não pode mais ser encerrado na estrita categoria do épico, mas, como Luiza Nóbrega demonstra, é também trágico-lírico.

O segundo, de Eduardo Lourenço, em ensaio publicado na revista LER (setembro 2011):

Talvez não seja um acaso se devemos a uma estudiosa brasileira de Camões, Luiza Nóbrega, uma das mais originais leituras do texto camoniano… A sua exegese pode suscitar estranheza ou perplexidade para quem está mais habituado a uma leitura classicamente culturalista. Navega atrevidamente e com audaciosa sintonia nas águas mitológicas de que Os Lusíadas são entre nós espelho insuperável e não ainda superado. O seu texto é, ao mesmo tempo, glosa literal e transcendente dos mitos que funcionam no poema.

Aqui encerro este relato, que do meu locus amoenus envio aos leitores sinceros de Camões, eu, que não pretendo nem jamais pretendi cátedra, mas nunca me resignei à mentira.

 

Natal, 14 de fevereiro de 2017

 

 

 

Breve Bibliografia de Textos sobre Os Lusíadas

 

Livros

No Reino da Água o Rei do Vinho: Submersão Dionisíaca e Transfiguração Trágico-Lírica d’ Os Lusíadas. Natal: EDUFRN/Academia Norte-riograndense de Letras, 2013.

O Canto Molhado. Metamorfose d’ Os Lusíadas (Leitura do Poema como Poema). Lisboa: Publidisa, 2008.

Ensaios em Periódicos e Livros

A Egípcia Linda e Não Pudica: Cleópatra e a Desejada Parte Oriental n’ Os Lusíadas”. In: Colóquio-Letras. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, nº 191, Janeiro/Abril 2016, pp. 137-147.

“Luso-Liso-Lois-Luís: a dissidência lúdico-lingüística subliminar n’ Os Lusíadas. In: Colóquio-Letras.

Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, nº 188, Janeiro/Abril 2015, pp. 177-184.

“Uma Distração Implicativa: porque o consílio olímpico ofuscou o consílio submarino n’ Os Lusíadas. In: Por S’ Entender Bem a Letra. Homenagem a Stephen Reckert. Lisboa: IN/CM, 2011, pp. 437-452.

No Reino da Água o Rei do Vinho: O Triunfo de Baco n’ Os Lusíadas”. In: Revista Brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, Ano XVII, nº 68, Julho/Agosto, Setembro 2011, pp. 161-192.

“O Velho que não é do Restelo: Presença Subliminar de Garcia da Orta e o Arquétipo do Velho Sábio n’ Os Lusíadas”. In: Revista Brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, Ano XVI, nº 63, Abril/Maio/Junho 2010, pp. 199-238.

“Liber Pater: O Louvor de Baco da Antiguidade Greco-Latina ao Renascimento Luso-Italiano”. In: Biblos. Coimbra: Faculdade de Letras/Universidade de Coimbra, N. S. VI, 2008, pp. 119-134.

“Navegante Navegado: Canto da Ninfa-Sereia e Paixão Dionisíaca d’ Os Lusíadas”. In: Românica. Lisboa: Departamento de Literaturas Românicas/Faculdade de Letras/Universidade de Lisboa, nº 17, pp. 229-245.

“A Traça no Pano: Contradicção de Baco n’ Os Lusíadas”. In: Luiz Vaz de Camões Revisitado. Santa Barbara: Center for Portuguese Studies, 2006, pp. 79-115.

“A Traça no Pano: Contradicção de Baco n’ Os Lusíadas”. Tese de Doutoramento elaborada na Universidade Nova de Lisboa, com orientação de Silvina Rodrigues Lopes e defendida na UFRJ em julho de 2001.

“Duas Chaves para Compreender Os Lusíadas. In: Cerrados. Brasilia: UnB, Ano 1 nº 1, 1992,  pp. 24-26.

 

 

 

 

 

 

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Luiza Nóbrega é escritora (poeta, ficcionista e ensaísta) e pintora, professora de Artes e Literatura recém-aposentada pela UFRN. Graduada em Direito com medalha do Mérito Universitário. Estudou Artes Plásticas no CPA (Rio de Janeiro), com Ivan Serpa, praticou com Nise da Silveira em seus grupos de estudos e foi discípula de Rolf Gelevski. Mestre em Literatura Brasileira na UnB, Doutora em Letras Vernáculas-Literatura Portuguesa na UFRJ e Universidade Nova de Lisboa e com dois posdocs (o primeiro, sobre Os Lusíadas, nas Universidades de Évora e Nova de Lisboa; o segundo, sobre Lêdo Ivo, na Università degli Studi di Perugia). Especializada na leitura dos discursos poéticos, dedicando-se especificamente a Camões e Lêdo Ivo. Membro de três Centros de investigação: dois em Portugal (Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e Instituto de Estudos Portugueses, da Universidade Nova de Lisboa) e um na Itália (Centro di Studi Comparati Italo-Luso-Brasiliani/Universidade de Perugia). Em novembro de 2015 coordenou o evento internacional POESIA SEM FRONTEIRAS: PAUTA E CENA COM LÊDO IVO, realizado na UFRN. E-mail: luiza14@gmail.com

 


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