Domingos em um hospital


Iacyr Anderson e a sucessão dolorida e poética de domingos em um hospital

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Imagina você reviver as estações da Via Crúcis dentro de uma cama de hospital, olhando o soro pingando e refletindo sobre as vísceras da vida. Imaginou? Agora, imagina isso sendo transposto para o papel com imagens ricas, imprevisíveis, e uma poesia que encanta pela riqueza do inusitado na abordagem de nossas dores cotidianas. Eis, então, o livro “Estação das Clínicas”, do poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas, numa caprichada edição da Escrituras Editoras.

Iacyr Anderson Freitas é daqueles poetas necessários à literatura brasileira. Vez por outra, quando a poesia dos contemporâneos parece muito xerox uma da outra, se diluindo e se escorando em fórmulas prescritas em bulas de críticos, sem arriscar o erro, eis que aparece um livro de Iacyr Anderson Freitas, com sua poética forte e sobretudo necessária.

“Estação das Clínicas”, como já dissemos, recria uma Via Crúcis particular, no mínimo original. Na cristã, Jesus vive um calvário que o leva a refletir sobre a condição humana através de mensagens de paz, de esperança e, principalmente, de fé. Na de Iacyr Anderson Freitas, o calvário traz apenas reflexões e a constatação da nossa incompetência para sublimar nossas próprias dores, nossas próprias vaidades. O que salva, o que redime, neste caso, como aponta Luiz Ruffato, é a poesia; a morbidez irônica dessa poética de Iacyr, eu acrescentaria.

Ironia essa presente nos dois últimos versos do primeiro poema do livro: “Mamãe faz 99 anos”. Essa ironia está presente em praticamente todas as páginas do livro, mas em alguns ela vem tão explícita que chega a doer. Lembra até a poesia de Augusto dos Anjos, não na forma, mas na coragem de transformar em poema aquilo que falamos ou refletimos à boca miúda. Em alguns poemas, isso vem até de forma lírica, apesar do título, como no poema “Sangue oculto nas fezes”:

 

“o espírito sangra

desde o princípio

 

(ninguém sabe

o motivo)

 

já o corpo

hoje sangra

escondido

 

o que o outro

lhe sugere

em sigilo”.

 

Em outros, de forma explícita, reproduzindo a rotina dolorida em um hospital. Como urinar de hora em hora (“Menos um dia”), o aborto do “feto expelido no vaso”, uma viagem iniciada no ventre da mãe por corredores intermináveis (“Fábula hospitalar de João sem Maria”), a analogia entre a queda do soro e nossa queda de todo sempre (“O soro, gota a gota”), a contagem dos tumores do intestino (“Para o próximo inventário”), a constatação de que o futuro fede a sangue marinado (“Pagar em dia”), a tarja preta que sempre lhe entregam (“Tarja preta), a fuga das veias que os médicos não encontram (“Da arte de fugir”), a verruga sem fim (“Raiz tão funda”), a triste alegoria do tempo na UTI e a certeza de que certas feridas nasceram para doer a vida inteira (“Sangradura”).

“Estação das Clínicas” é um livro que incomoda, porque parece que a qualquer momento iremos viver essa poesia dramática na prática, se é que já não estamos vivendo. Iacyr Anderson Freitas é mineiro de Patrocínio de Muriaé. Nascido em 1963, é mestre em Teoria da Literatura. Publicou dezenas de livros de poesia, ensaios, de prosa e infanto-juvenil, recebendo premiações e sendo traduzido em diversos países, como Argentina, Espanha, França, Estados Unidos, Malta, Nicarágua, Suíça e outros. Para Luiz Ruffato, “Estação das Clínicas” é madura meditação a respeito da transitoriedade da vida e dolorosa busca de superação metafísica. Sim, é isso que vejo também em sua poética, desde “Pedra-Minas”, de 1984 (seu segundo livro), e nos demais publicados que consegui acompanhar. Gosto dessa meditação presente em poemas como “Mesmo nesse momento”, dedicado a Antônio José Queiroz:

 

chega o momento

em que se perde de vez

o fio dos dias

da semana   do mês

 

tudo é uma sucessão de domingos

consumidos

por soros     tubos

luzes e apitos

 

mas mesmo nesse momento

não se perde a Hora

 

o vagido da Hora

no infinito.

 

 

 

 

 

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Linaldo Guedes é jornalista, poeta e mestre em Ciências da Religião. Como jornalista, atuou nos principais órgãos de comunicação da Paraíba e foi editor do suplemento literário Correio das Artes por seis anos. Como poeta, lançou os livros “Os zumbis também escutam blues e outros poemas”, “Intervalo Lírico”, “Metáforas para um duelo no Sertão” e “Tara e outros otimismos”. Lançou, ainda, “Receitas de como se tornar um bom escritor” e “O Nirvana do Eu: Os diálogos entre a poesia de Augusto dos Anjos e a doutrina budista”. Reside atualmente em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, onde nasceu em 1968. E-mail: linaldo.guedes@gmail.com

 


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