A queda de um anjo


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Quase no fim da segunda década do século XXI – aquela que seria de ouro, e se transformou num pesadelo, após o golpe profundo nas bases democráticas do país –, percebemos como a poesia brasileira aos poucos delineia novas caraterísticas internas. Uma delas, senão a principal, é a presença cada vez mais veemente das mulheres, a garantir uma polifonia de vozes atuando no cenário atual.

Nos autores – e aqui não faço distinções de gênero – que se encontram entre os 25/40 anos, detecta-se a nítida diversidade de estilos, determinando assim o distanciamento de qualquer sectarismo literário. Toda literatura só se enriquece com tais pressupostos.

Sabemos, hoje, como as obras poéticas de Cecília Meireles, Ana Cristina César, Orides Fontela e Hilda Hilst trafegam em territórios distintos, cada uma expressando a intensidade estilística em seus universos criativos. Circunscrevendo a argumentação mais próxima aos nossos dias, as obras de Josely Vianna Baptista, Lu Menezes ou Mariana Ianelli, atestam o mesmo grau de multiplicidade vigente. Portanto, não temos uma só via a seguir, mas muitos caminhos por abrir.

Tendo estreado em 2014, com o livro Intimidade Inconfessável, num lançamento discreto da Patuá, a poeta mineira Fernanda Fatureto regressa com o segundo livro, Ensaios para a Queda. E mais uma vez nos surpreende com o equilíbrio e a beleza persuasiva da sua escrita, que adquiriu maturidade e desenvoltura. Ela reflete, em simultâneo, sobre o exercício da linguagem, a densidade imagética e a irrisão perante a barbárie do mundo e dos homens.

Sabemos como, de Milton a Wim Wenders, o tema da queda deslumbra poetas, artistas e escritores. A urdidura desta poesia se desvela segundo segmentos que se coalizam para tentar apreender a linguagem.

Conforme diz, a queda é uma espécie de travessia que se realiza entre “martírio e salvação”, enfrentando o sentido das perdas e desencontros. Ela sabe que isso ocorre entre a dor e o emudecimento:

Realizo ensaios para a queda tal qual a última noite
de uma estrela cadente;
(…)

Tempo fértil para chorar

ainda assim o choro ao molhar o rosto
ressente os grilhões do que cala e permanece em
silêncio.

Ela não hesita perante o desafio. Todo poeta cai e levanta; todo poeta se perde e se acha; se cala ou fala. Extrai daí a consciência diante das coisas:

Olhar-se no espelho e mirar o rosto farto de
passado,
camada ante camada,
identidade tecida como Moiras que se apegam à
memória do tempo

Por esse fato, entende como a escrita é um ato doloroso que se impõe à revelia dos acontecimentos:

Escrever como martírio e salvação,
caligrafia fina por sobre a pele dos fatos.
Não se cura a vida de si mesma,
tece o corpo no tempo-espaço do verbo
enquanto o céu continua o mesmo a velar sobre
nós.

Sua mundividência exibe, às vezes, certa referencialidade ou um sensualismo discreto:

Nástienka, sou.
Meu duplo no espelho da memória
Entre miradas –
Chuva que dispersa o hálito de amor no quarto
Escuro

A imersão no cerne da linguagem acontece sob a percepção penetrante:

Com uma lupa escava-me por dentro
E encontra toda ferida exposta

A vida e as sensações que habitam a mulher se expõem sem dissimulações:

Um corpo em chamas sobre o abrigo despido de
delicadeza
Sussurra a palavra interdita:
Foi o amor que passou ao largo
E não encontrou morada.

Nas três partes que compõem o livro, parece se desenvolver uma tensão gradual, levando a poeta a abandonar seu espaço privado para se situar no presente real, observando as transformações trágicas do nosso tempo. Ante a queda do homem, todos os homens perigam cair sob o espectro da barbárie:

Mas o relativismo constrói muralhas ao redor da
China
Enquanto o Ocidente delimita suas fortificações
para que um alarme terrorista não soe mais alto
que o possível.
Estão cavando seus próprios inimigos há tantos
séculos.
Canaã foi uma promessa inadequada
ou interpretamos mal o Antigo Testamento.

Ou seja, das inquirições subjetivas aos exercícios estilísticos, até a visão do fragor que chega dos confins do mundo, a poeta se esgueira para dominar sua linguagem, emergindo no rio turvo da realidade em que vivemos:

Hoje sonhei com Paris
E então veio a notícia dos tiros.
Pessoas mortas como na guerra de Bastille.
(…)
A tragédia possui o tom mais vibrante
E Celan se jogou do alto.
Uma cidade linda cheira o espectro da morte.
Por que os belos são tão infelizes?

Num poema antológico de W. H. Auden, “Musée des Beaux Arts”, e inspirado num quadro de Brueghel sobre a queda de Ícaro, ele diz;

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram
Os velhos mestres: quão bem entenderam
A condição humana (…)

É sob essa égide que a contenda da poeta/anjo estabelece o entendimento individual e global. Ela procura ensaiar uma queda que não se efetiva; a linguagem adquiriu espessura, as tragédias consomem o humano.

A poesia continua a ser testemunha verdadeira. Ou a única salvação.

 

 

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Serviço:

Ensaios para a queda
Ed. Penalux
72 pgs

 

 

 

 

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Jorge Henrique Bastos é jornalista, tradutor e editor, organizou “Poesia brasileira contemporânea, – dos modernistas à actualidade”. (Antígona, 2002). E-mail: jorgehenriquesbastos@gmail.com


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