O santo e a porca e a crítica


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Ariano Suassuna faria 90 anos em 2017. Dono de uma fala única e de um projeto artístico sólido, hoje é praticamente uma unanimidade entre acadêmicos, artistas e leitores; mas nem sempre foi assim, como este ensaio mostrará.

No dia 18 de outubro de 1970, Ariano Suassuna (1927-2014) assumiu oficialmente seu compromisso com a arte popular ao anunciar a existência do Movimento Armorial, projeto cultural de um grupo de músicos, escritores, artistas plásticos e dramaturgos pernambucanos, do qual Suassuna foi figura central, que pretendia “realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da nossa cultura” (SUASSUNA apud VASSALO, 2000, p. 148).

A primeira atuação do Movimento Armorial acolhia diversas formas artísticas: “uma exposição de artes plásticas, de um concerto intitulado Três Séculos de Música Nordestina: Do barroco ao Armorial, e de um texto programático de Ariano Suassuna” (GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 38-39). Nesse texto, Suassuna afirmava que “A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como característica principal a relação entre o espírito mágico dos folhetos do Romanceiro Popular do Nordeste (literatura de cordel), com a música de viola, rabeca, ou pífano que acompanha suas canções e com a xilogravura que ilustra as suas capas, assim como o espírito e a forma das artes e espetáculos populares em correlação com este Romanceiro” (SUASSUNA apud GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 39).

O folheto nordestino é o ponto central da Arte Armorial justamente por reunir, segundo Ligia Vassalo, “o literário, teatral e poético dos versos e narrativas; o das artes plásticas em associação com as xilogravuras da capa e do folheto; o musical dos cantos e músicas que acompanham a leitura ou a recitação do texto” (VASSALO, 2000, p.148).

Os folhetos, embora centrais, não são as únicas fontes da arte armorial, que dialoga também com clássicos da literatura mundial. Cabe lembrar, como afirma Idelette Muzart Fonseca dos Santos, que “Gil Vicente, Calderón de La Barca, Cervantes, José de Alencar, Euclides da Cunha ou Federico García Lorca foram identificados como os ‘mestres’ de Suassuna e de outros artistas armoriais, na medida em que tiveram objetivos ou caminhos comuns ou próximos” (SANTOS, 2000, p. 98). De fato, a escolha “consciente ou inconscientemente” desses nomes por Suassuna “está na estreita relação que todos eles mantêm, à cultura popular do seu país ou da sua região” (SANTOS, 2000, p. 98).

Acrescentaria a essa lista de escritores muitos outros nomes como Shakespeare, Plauto, Molière etc. Esses três pelo menos estão na base de sua peça O santo e a porca, de 1957. A influência das peças Aulularia, do comediógrafo romano Plauto, e O avarento, de Molière, é notória e citada por muitos estudiosos do escritor pernambucano; afinal, todas as peças giram em torno do protagonista avarento e do casamento de seus filhos com pretendentes abastados. Mas acho que, de alguma forma, O santo e a porca dialoga também com algumas peças de William Shakespeare e seus enredos emaranhados.

Como lembra Sábato Magaldi, Suassuna costumava dizer, em meados do século XX, que “estamos vivendo a época elisabetana agora, estamos num tempo semelhante ao que produziu Molière, Gil Vicente, Shakespeare etc.” (MAGALDI, 2004, p. 236). Desse modo, prossegue Magaldi, “o dramaturgo paraibano, fixado no Recife, aproxima o Nordeste de Florença e Roma renascentista”. Mas Suassuna não esquece nunca de aliar “o espontâneo ao elaborado, o popular ao erudito, a linguagem comum ao estilo terso, o regional ao universal” (MAGALDI, 2004, p. 236-237).

A propósito da peça O santo e a porca, ela é uma farsa, “comumente identificada como um gênero do teatro popular” (GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 144), que, de acordo com Décio de Almeida Prado, “para o autor de O santo e a porca [...], significa cruzar duas correntes que não se contradizem porque derivam da mesma fonte. Uma de natureza erudita, vem-nos de Roma, passando por GIL VICENTE, autor de essencial predileção de Ariano SUASSUNA. A outra, ao contrário, emana do povo [...]” (PRADO apud GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 145).

A peça, dividida em três atos, cujo enredo se desenvolve em torno de um velho avarento que pretende casar sua filha com um homem rico, como disse acima, foi considerada, tão logo encenada nos palcos do Rio de Janeiro em 1958, um plágio por parte da crítica, que acusou Suassuna de ter se “copiado” passagens da peça de Plauto e da peça de Molière.

Há muita semelhança entre passagens das mencionadas peças como, por exemplo, aquela em que Euricão, o protagonista de O santo e a porca, desconfia que sua criada tenha lhe roubado, com outra de O avarento, quando o protagonista age da mesma forma com o seu criado:

HARPAGÃO (medindo-o com os olhos de alto a baixo) Que tens nessa mão fechado? restitui-mo.

TOMÁS (abrindo a mão) Eu, nada; aí tem.

HARPAGÃO Mostra a outra.

TOMÁS Aí vai também.

HARPAGÃO E a outra?

TOMÁS Não sou dotado de mais de duas. (O avarento, na tradução de António Feliciano de Castilho)

***

EURICÃO — Sacuda o vestido.

CAROBA — (Obedecendo.) Está quente hoje, hein, Seu Euricão?

EURICÃO — Vire-se de costas.

CAROBA — Pois não.

EURICÃO — Deixe de manejos e abra as mãos.

CAROBA — Aqui estão.

EURICÃO — Não terá escondido nada embaixo da saia?

CAROBA — Epa, vá pra lá! Que molecagem é essa? (O santo e a porca)

 

Há que se levar em conta, todavia, que o avarento é uma personagem universal, imutável e atemporal, o que fica claro se compararmos as características da personagem numa peça escrita cerca de 200 anos antes de Cristo, com a de uma peça do século XVII e outra do século XX.

Diria que em O santo e a porca Suassuna põe em prática “a tensão existente entre a matéria popular e a produção culta”, que se conjuga, na sua obra, “com o binômio regional-universal, porque os temas, problemas e personagens do Sertão são os mesmos de outras regiões, expressos em outra roupagem”, segundo a estudiosa Ligia Vassalo (VASSALO, p. 148-149).

O santo e a porca recebeu muitas críticas negativas. Logo que estreou foi considerada uma peça menor, diante do estrondoso sucesso de Auto da compadecida.

Sábato Magaldi, após a primeira apresentação de O santo e a porca, no Rio de Janeiro, enumerou algumas de suas reservas em relação à peça: uma delas diz respeito às confusões de identidade de pessoas no escuro que “se mostram demasiado simplórias na obra de Suassuna” (MAGALDI, 2004, p. 244). Além disso, “é inverossímil que Euricão Engole-Cobre [sic] guardasse na porca dinheiro há muito tempo recolhido” (MAGALDI, 2004, p. 244).

As confusões de identidade das personagens e, acrescentaria, a trama embaralhada da peça de Suassuna parecem vindas da dramaturgia shakespeariana, que dão por vezes a impressão de que o autor não irá conseguir organizar a tempo a sua narrativa.

A respeito do caráter inverossímil, o próprio Suassuna explica que não é um autor realista: “Considero-me um realista, mas sou realista não à maneira naturalista — que falseia a vida — mas à maneira de nossa maravilhosa literatura popular, que transfigura a vida com a imaginação para ser fiel à vida. Não tem sentido, portanto, dadas as características de meu teatro, dizer como disseram alguns críticos ilustres, que é inverossímil que um avarento ignorasse uma operação bancária e perdesse, assim, seu tesouro. [...] o público, vendo que não pretendemos enganá-lo, que não queremos competir com a vida, aceita nossos andaimes de papel, madeira e cola e pode, graças a essa generosidade, participar de nossa maravilhosa realidade transfigurada. A vida e o mundo são os motivos, que aparecem transfigurados, no teatro” (SUASSUNA, 2007, p. 25-26).

Sábato Magaldi termina sua crítica de forma mordaz: “Provavelmente receoso de gastar-se com novas peças que não repetissem o triunfo de A compadecida [sic], o dramaturgo se recolheu ao trabalho na província, reunindo forças para novas experiências” (MAGALDI, p. 244).

Para a sorte dos espectadores, Suassuna não se amedrontou nem se recolheu à província; o escritor continuou escrevendo peças como A pena e a lei e A farsa da boa preguiça. O santo e a porca é uma referência na dramaturgia brasileira e, como lembra Suassuna, o resultado da crítica é sempre um mistério e ao lado das más recepções, existem as boas recepções à obra como aquela que obteve de Carlos Drummond de Andrade logo de sua estreia.

 

 

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Referências

VASSALO, Ligia. O grande teatro mundo. Caderno de Literatura Brasileira, n. 10, nov. 2000.

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. O desafiador de brasilidades. Cadernos de Literatura Brasileira, n. 10, nov. 2000.

GUINSBURG, Jacó; FARIA, João Roberto; LIMA, Mariângela Alves de (Org.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva; SESC de São Paulo, 2006.

MAGALDI, Sábato. Panorama do teatro brasileiro. São Paulo: Global, 2004.

SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

 

 

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC, autora, entre outros, de James Joyce e seus tradutores (Iluminuras, 2015). E-mail: dwa@matrix.com.br


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