Um olhar sobre a condição humana


 

Vista da metrópole

O conto dominou o cenário da literatura brasileira nas décadas de 1970 e 80. Surgiram revistas como Ficção e Escrita que ajudaram a divulgar a prosa curta e a revelar novos autores. O gênero continua sendo praticado e publicado, embora sem o mesmo ímpeto do chamado “boom” setentista. Mas, há contistas de ponta na cena do novo século. Luiz Roberto Guedes é um deles. Poeta, cronista, versátil em vários meios, neste Como ser ninguém na cidade grande ele crava o olhar em pequenos e insignificantes momentos que desvelam a face oculta da metrópole. O crítico e escritor inglês David Lodge, em A arte da ficção, afirma que “a estrutura de uma narrativa é como a estrutura de vigas que sustenta os arranha-céus: você não a enxerga, mas é ela que determina o formato e as características do edifício”.

Todas as histórias deste livro possuem essa estrutura: só o escritor a enxerga, já que mal olhamos para as “vidas pequenas na esquina”, no dia a dia da cidade frenética. Guedes é taxativo quanto a isso, desde a primeira narrativa: “Ninguém olha duas vezes para um mendigo, a não ser (…) um escritor deparando-se com uma história”.

Leitor, prepare-se para idas e vindas pela metrópole paulistana, conduzido por um criador que “se ocupa de pessoas que não existem”. Como na história do mendigo que escrevia um diário, do advogado que adorava seduzir proletárias, do professor sessentão que se envolveu com uma ninfeta, do estudante que alugava um quarto no apartamento da viúva solitária ou mesmo do futuro regressivo presentificado em Telemundo 2050. Essa multiplicidade de olhares reflete um testemunho de nosso tempo, numa prosa direta e repleta da condição humana.

 

Roniwalter Jatobá

 

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#TRECHO

Grande João Vitorino. Parece que você nos mandou alguns originais nos últimos anos, não foi? É lamentável, meu caro, mas este país não lê, não valoriza o autor nacional. O que você trouxe aí? Morto sem chão? Qual é o assunto? Hum. Interessante. É compreensível, você lida com a realidade que conhece. O tema é sempre o grande problema de um livro, meu caro. That’s the trouble. Atualmente, ninguém quer ouvir falar desse tipo de regionalismo tardio: massacre de sem-terra, tribo dizimada, grilagem de terras, assassinato de missionário, matador de aluguel etc. O Brasil urbano está de costas pra esse Brasil do fundão. É pena, mas that’s it. A missão de um editor hoje é uma verdadeira cruzada. It’s really hard, my dear.

 

 

Leia um conto do livro: http://rascunho.com.br/sorte-grande

 

 


Como ser ninguém na cidade grande, contos de Luiz Roberto Guedes
Penalux, 2018, 208 páginas, R$ 40,00.

LANÇAMENTO: 19 de setembro, quarta-feira, a partir das 19 horas, no Centro Cultural Al Janiah
Rua Rui Barbosa, n° 269, Bela Vista, S. Paulo.

 

 

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Luiz Roberto Guedes é poeta, escritor, cronista, tradutor e também letrista (sob o nome de Paulo Flexa), Luiz Roberto Guedes é um criador que não se encerra num único nicho. Autor atuante no campo da literatura juvenil, com definido gosto pelo fantástico, vem publicando numerosos títulos, desde “Perdidos no trem fantasma”(1995), até “A saga do Gato do Negro” (2016), tendo obras adotadas pelo PNBE (Plano Nacional Biblioteca na Escola), a exemplo de “Treze noites de terror” e “O livro das mákinas malukas”. A par de traduzir poetas e organizar antologias de conto e poesia, Guedes tem publicado sua obra adulta, a partir da novela histórica “O mamaluco voador” (Travessa dos Editores, 2006). Seus contos de “Alguém para amar no fim de semana” (Annablume, 2010), foram considerados pelo escritor Luiz Ruffato como “uma quase novela, de sabor pop”, devido às narrativas interligadas, protagonizadas por um Josué Peregrino, possível alter ego do autor.

A coletânea seguinte, “Miss Tattoo — uma quase novela” (Jovens Escribas, 2016), foi descrita pelo crítico Alfredo Monte como uma “taxonomia do tiozão”, que abrangeria desde “tipos descolados (que circulam pela noite), até tipos introspectivos, voltados nostalgicamente para os anos 80. Monte assinala: “É incrível a leveza da prosa de Guedes. Ele escreve como um autor policial norte-americano. Entretanto, é uma falsa leveza, ainda que o leitor ache tudo fluente, jocoso e mordaz. (…) É amargura no fundo do riso, é o ácido no suco da laranjeira ”. Esse estilo seco e despojado também foi observado pelo poeta, tradutor e editor Vanderley Mendonça: “Guedes é poeta e, impressionantemente, não usa o artifício poético em seus livros para criar imagens batidas e surradas buscando emoção fácil no leitor”.

Agora, Guedes lança “Como ser ninguém na cidade grande”, sua seleta de melhores contos, escritos nos últimos vinte anos, a maioria publicados anteriormente em livros, revistas e jornais literários, além de alguns inéditos. Para o escritor Roniwalter Jatobá, que assina a orelha do livro, essas dezoito narrativas propiciam uma multiplicidade de olhares sobre a cidade e seus viventes, refletindo “um testemunho do nosso tempo, numa prosa direta e repleta da condição humana”. A propósito, o escritor argentino Ricardo Piglia considera que “o êxito do artista é ser reconhecido pelos outros artistas”.

 

 


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