Sombra, Silêncio e Cores


na poesia de Roberto Schmitt-Prym

Como afirma Fritz Baumgart, a arte não modifica o mundo, como o fazem as ferramentas. No entanto, como um princípio ordenador, representa um dos meios mais diretos de dominar o caos exterior e interior do homem. Para o historiador, a arte é a configuração do desordenado, que sempre significa ameaça.[1] Os poemas de Sombra silêncio são uma tentativa de ordenar o caos interior e exterior. Tratando de temas como a impermanência, o anonimato das grandes cidades e a força primordial da natureza, seus versos tocam de forma profunda nossa sensibilidade de seres marcados pela incerteza e solidão dos centros urbanos, em constante busca de quem somos.

O livro é dividido em quatro partes, compostas de poemas que se distinguem ora pela temática e pelo tom, ora pela forma. Nas duas primeiras, “Sombra” e “Silêncio”, observa-se a presença de um eu errante que perdeu a direção e o sentido da existência. Trata-se da representação do apagamento do sujeito e de sua tentativa de se reconhecer. Os poemas contêm o título no próprio corpo, marcado em negrito, o que reforça a sensação de diluição sugerida.

No poema “Sombra”, enquanto os automóveis passam, a sombra à distância desaparece sem que ninguém perceba:

sombra à distância
automóveis passam
ninguém percebe
…………………como desaparece (p. 18)

O poema sugere o anonimato e a fugacidade da experiência humana ao se reportar a uma sombra que passa despercebida do movimento dos carros, também fugazes, porque passam. Mesmo em sonho, a sombra predomina:

na penumbra do sonho
vislumbra o céu sinistro
em torvelinhos veementes
se inclinam e coagulam
estrelas
…………nebulosas cósmicas
…………do universo primordial
mastigam o escuro (p. 26)

O céu sinistro vislumbrado em sonho pelo sujeito parece ser a projeção de sua interioridade em conflito. No poema transcrito a seguir, o espaço exterior hostil de uma cidade grande com prédios altos corporifica o conflito do indivíduo:

o barulho das ruas
tantas vezes     tantas vezes

conflito estranho
terra e céu parecem confusos

em movimento rápido
cruza horizontes           horizontes
o cume dos prédios
a planície distante (p. 49)

Diante do caos, entretanto, ao cruzar horizontes, o eu poético visualiza uma planície distante, o que sinaliza a busca da essência perdida e da identidade, conforme se verifica no poema que segue:

desperta e volta a ser quem foi
ou alguém com o seu nome

se sente seguro
sem se perder de si

mesmo sem lembrar
que esqueceu
um tigre e uma pomba
em seu peito (p.50)

O esquecimento de um tigre e de uma pomba no peito sugere a perda da conexão com a essência primordial, traço que aparece em outros poemas da obra em análise nos quais o sujeito se sente impotente diante da força do natural.

Em “Reflexos”, terceira parte do livro, a sombra e o silêncio são rompidos, e o autor estabelece um profícuo diálogo com a literatura, o cinema e as artes plásticas. Nessa parte, ponto em que a obra se abre, evidencia-se a própria experiência artística do poeta, como no poema que alude ao Quarto em Arles (1888-1889), de Van Gogh, em que, mais que descrever o quadro, o autor indica o estilo do pintor:

no quarto duas cadeiras
simples de madeira
a da esquerda
…………parece maior
a da direita
…………mais útil
…………uma irmã menor

as duas de pé

entre elas uma mesa
………..a mãe das duas
………..abarrotada

o que ocupa mais
espaço é a cama
……….deitada

a cena vista por paisagens
……..amarela como trigais (p. 60)

A cena do quarto reflete as cores do exterior numa espécie de espelhamento. Semelhante jogo ocorre no poema em que equipara a folha em branco do escritor com a terra do nunca, onde é possível não crescer como o personagem de Peter Pan (1911), de James Matthew Barrie. Neste texto, o autor situa a literatura como um espaço de transgressão e sonho:

era uma vez
terra do nunca

eu só quero escrever mais um
……………antes de me tornar um adulto
……………outra vez (p. 57)
.

Em diálogo com Zelig (1983), filme de Wood Allen, Prym define os espelhos como espaços que refletem a aparência e não a alma:

zelig escolhe seu traje
e o faz completamente

não é ninguém
se esconde
age como se fosse você

o coração em evidência

espelhos não são olhos
são aparências
questionáveis
côncavas e convexas (p.62)

Nos poemas de caráter intertextual e intersemiótico, o jogo de espelhos entre interior e exterior, ficção e realidade e aparência e essência torna ainda mais evidente uma poética voltada à integração de contrários. A tentativa de síntese também está presente na última parte da obra, intitulada “Mínimos”, na qual o autor experimenta a forma breve, expressando sua afinidade com as poéticas voltadas ao instante, como o haicai:

últimas folhas
galhos negros
explodem em pássaros (p. 79).

No testemunho poético do momento, vislumbra-se o mesmo sujeito do início da obra, solitário e à mercê da passagem do tempo:

está em casa
imerso nas dobras de horas
não espera por alguém

Sombra silêncio, de Roberto Schmitt-Prym, afirma a nossa fragilidade diante da passagem das horas e aponta a arte como uma das saídas para essa condição, na medida em que o desconcertante, assustador e inconcebível da vida só pode ser ordenado ao receber forma, como assinala Baumgart.[2] Nesse sentido, pressentindo a “longa sombra que se move lentamente no campo” e anuncia que “a noite vem”, o poeta convida-nos a contemplar um universo poético tecido pelo tempo, pela memória e pela investida de organizar o caos, através da captação sensível da sombra, do silêncio e das cores que nos compõem e recompõem.

 

 


[1] BAUMGART, Fritz. Breve história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 1-2.

[2] Idem, p. 1.

 

 

 

 

 

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Cinara Ferreira Pavani é professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 


Comentários (1 comentário)

  1. Laís Chaffe, Quem tiver interesse no livro, pode encontra-lo aqui: http://www.bestiario.com.br/livros/roberto_sombra.html
    21 maio, 2018 as 18:35

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