O foz da voz


 

Aqui você vai conhecer a face poeta de Silvia Camossa, já respeitada pelas suas belas obras infantojuvenis e pelos seus contos. Delicado e esperançoso é este seu Almar. Os poemas, em ritmo de pulso, levam-nos ao rio da infância e nos entregam ao mar que temos dentro de nós. Emersos das entranhas, surpreendem pela coragem de revelar o avesso: não as pedras do caminho, mas o caminho onde as pedras tropeçam. Com a sede própria da saudade, mirando lá atrás, Silvia nos lembra que só podemos retornar ao passado como visita, e seu portal nos impõe um preço para se abrir. Dividido em duas partes complementares, adentro e afora, Almar traz inquietações de um eu poético sobre si (no encontro consigo) e sobre os outros, a partir de si (o sanfoneiro, o malabarista, a artesã, o sonhador, a velha). Uma obra de sensibilidade, fiel ao espírito humano. Escrita por Silvia Camossa para você também se almar.

João Anzanello Carrascoza

.

***

.

Ler os poemas de Sílvia Camossa foi um passeio que fiz pelas palavras que, nas mãos da poeta, formam uma sinfonia. São poesias com ritmo e originalidade surpreendentes. Talvez o poema que mais sintetize minhas impressões sobre o livro seja Retirada.

Isso porque parece que cada palavra foi colocada ali por não haver outra possível, por ser insubstituível na composição. Para alcançar tal efeito sobre o/a leitor/a, é preciso retirar; retirar o que sobra, o desnecessário, o supérfluo, raspar o tacho dos sonhos e tecer, com o que é essencial, a cuidadosa arte da poesia.

Sílvia só consegue montar seu tear e trabalhar com tamanha delicadeza porque é assim em tudo o que faz. Seja na literatura, no teatro ou no canto, ela está presente inteira escolhendo a melhor forma de dizer, o melhor tom, a expressão mais exata. E é assim que atinge aquele lugar em nós que chamo de alma.

Fazer poesia como faz Sílvia não é fácil. É preciso vasculhar a si mesma, observar o mundo com olhos sensíveis e usar a razão para compor, ou seja, encontrar o fino equilíbrio entre inteligência e sensibilidade. O resultado é este belo livro que certamente encontrará ressonância em leitoras e leitores que, como ela, são capazes de montar seu tear de leitura com delicadeza e inteligência.

Cássia Janeiro

 

***

 

Seleta de Almar

 

TAMBOR

Menina, atravessa a noite.
Se o passo é certo ou errado
você é quem diz.
Anda!

Se não souber o caminho
lembra que os pés têm cheiro de mato.
E o peito é como um tambor.
Segue!

Ouve o pulso, seu ritmo.
O coração, seu guia.
Deixa o tempo fazê-la
poesia.

 

RIO DA INFÂNCIA

Hoje andei no rio
da minha infância.
Onde era água
agora é pedra.
Onde sobrava correnteza
sopra o ar.
O peixe não pula, não.
Nada.
Vida passada, ser
tão.

Hoje cruzei o esquecido.
O chão antes invisível.
Avancei na seca bruta
à espera da chuva que faça desaguar
o mar
que guardo em mim.

RETIRADA

Tirei o arrumado do cabelo.
O inventado da maquiagem.
O perfume.

Tirei a roupa cara.
O brinco.
O sapato de salto.

Tirei o cartão de visitas.
A agenda habituada.
O emprego e o salário.

Tirei o que sabia.
O caminho que dizia quem eu era.
O amanhã.

Retirei-me.

Raro, me faço achada.
Dizem que quando chove me bronzeio
mais vermelha que dourada.

Já caí, me ergui e tombei.
Machucou, doeu.
Aprendi, levantei e andei.

Virei fim, avesso.
Reinício, recomeço.
Princípio.

Fui vista ontem sendo
sonho de me atirar nas águas tratadas
quiçá águas claras!
do rio Tietê.

 

FOZ DA VOZ

Navegar em horas lentas.
Flutuar acima das copas das árvores.
Verdes mares, terras distantes.

Rio afora
o coração aflora.
Dispara, não para
de vagar.

Inundar o caminho
até reencontrar o velho ninho.
Ser como o pássaro
que descobriu na foz a própria voz.
O canto do seu lugar.

 

GESTAÇÃO

Um pássaro canta.
Enquanto aguardo
guardo
sua voz em mim.

 

NAS NUVENS

Eu estava tão distraída
que uma pedra tropeçou
…………………………….em mim.

 

QUEDA

Quis cair como a chuva.
Logo vi, não consegui:
chuva cai porque quer.
Só sei cair sem querer.

 

ORAÇÃO

Amanheço.
Arrumo a cama.
Saio com os chinelos que comprei
nas Pernambucanas.

Tardo.
Limpo a casa.
Lavo a louça.
Costuro a roupa rasgada.

À noite, faço um verso.
A ele entrego as minhas entranhas.
Trama tamanha, o mundo interior
ser como o universo.

Existo nessa oração.
Enquanto o chão procura os meus pés
palavras nascem
na palma da minha mão.

 

RESTA-ME

Não sei o quanto resta
de quem fui.
O quanto flui em tom passado
no corpo que se entrega ao sonho.

Não lembro o sabor da comida.
Reduzi os passos para evitar a pressa.
Libertei as ideias para deixá-las fugir.
Vomitei não sei, não sei.

O tempo que nasce é oferta de vida.
Vigorosa, revirada, mexida.
Ser gente é coragem.
Essa viagem é passagem.

Ontem fui feita de fim.

 

QUANDO A SANFONA VIRA MUNDO

Vai, sanfoneiro.
Leva música no peito.
Força nos braços.
Alegria nas mãos.

Atravessa estrada depois de estrada.
A vida não tem pa
rada, abre e fecha.
Faz partida e milagra uma nova acolhida.

Quando apagarem a luz
escuta o silêncio.
Vê a estrela que te guiou.

Sonha a noite.
Acredita que nela o sol nasceu.
A lua tudo viu.
Nada negou, não dormiu.
Guarda na memória
os encontros que a sanfona fez brotar.
As histórias de cada lugar.

Será esse o eterno desejo.
A fome até o leito.
O leite derramado pelo povo que te faz
nada mais: firmamento.

 

O MALABARISTA DO FAROL

O malabarista do farol
é livre como nunca saberei ser.
Ele me chama com os olhos
enquanto suas mãos
se lançam no ar.

O malabarista do farol
faz da rua o palco.
Da fome o texto.
Da fé, o gesto.

Não tem hora.
Sabe que logo todos irão embora.
E mesmo assim, sorri.

 

FLOR DO ASFALTO

A flor não sabe
que na rua onde nasceu
o asfalto está morto.

Ninguém a vê
Mesmo assim, ela se eleva.
Observa os pedestres.
Os carros fechados por vidros.
A pressa que nada faz parar.

E lentamente se abre.
Goza em seu perfume
a força do existir.

 

O TIRO

Ouvi o disparo do revólver.
Não sabia que meu destino
era o peito de um menino.

Ouvi o grito da mãe.
O choro dos irmãos.
A última batida
do pequeno coração.

Tornei-se bala perdida.
Enterrada nessa morte.
Sem voz.

Em uma tarde cinza
que logo será esquecida.
Como a criança sem vida.
Como a chuva que cai.

 

MUTAÇÃO

Será mar ou rio
o destino do peixe que salta?
Mar ou rio
a fé que lançamos à vida?

 

 

 

 

lançamento oficial e a sessão de autógrafos acontecem no dia 23 de junho de 2018, às 18h30, na A Casa Tombada, Rua Ministro Godói, 109 – Água Branca – São Paulo – SP.

E reunirá dois grupos formados por mulheres dos quais a autora faz parte: o Coletivo Literário Martelinho de OuroAs Cantadeiras, para apresentação de alguns poemas.

 

Almar
Poesia 
autora: Silvia Camossa 
112 páginas 
Editora Reformatório (reformatorio.com.br/#nossos-livros)

 

 

 

Silvia Camossa nasceu em Pirassununga e vive em São Paulo. É autora dos livros História das ideias do Zé, vencedor do Prêmio do Público na FIL Niños, de Guadalajara, Escolhas que brilham, Sonha Zé e Os amigos do balacobaco, infanto-juvenis publicados pela Callis Editora. Foi responsável pela dramaturgia da peça Os lavadores de histórias, dedicada às crianças. Integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, com quem publicou as coletâneas de contos Serendpt (Livrus), Sub e Eu não sou aqui (Patuá). Participou também da primeira antologia poética das Senhoras Obscenas (Benfazeja) e da primeira coletânea de prosa do Mulherio das Letras (Mariposa Cartonera), dentre outras. É criadora de oficinas que estimulam a expressão por meio da escrita. Almar é o seu primeiro livro de poesia.

 

 

 



Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook