O menino da sua mãe


AZULLOST: melancolia, animalidade e pulsão poética em O menino da sua mãe de Djami Sezostre

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A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se ‒ em lágrimas ‒ do paraíso, é condenar-se à liberdade.[1]

Bartolomeu Campos de Queirós

 

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A dissolução do vínculo umbilical, prenuncia Bartolomeu Campos de Queirós, é uma lesão que se padece por toda a vida. Um ferimento para o qual não há remédio ou linha que suture. Experiência análoga à cisão primordial que desata o ser do centro da criação, o parto grava em quem nasce a marca indelével da perda. Arrancado do uno, sua ferida, no entanto, não verte sangue – e ainda assim é sentida como se aberta estivesse, porque aberta está: a memória, chaga que não estanca, registro obscuro de um elo desfeito.

É contra essa ferida que o sujeito poético de O menino da sua mãe, de Djami Sezostre, lança seu dedo em riste. Esse é o gesto inaugural de que se engendram os poemas que compõem este volume – embora, na presente obra, o fazer poético comporte, para além de sua dimensão memorialística, uma caracterização sobretudo sexual. Com efeito, frequentemente, como se observa em “Animalista”, o ato de criação é representado pela imagem metapoética da cópula: “o menino da sua mãe [...]//  Aprendeu a falofalar com/ As corujas a faunalua da noite/ o filho da mula e filho do mulo// A sua própria línguahímen/ A liralíngua noite passou [...]// A riscarasgar com os lábios [...]”.

A concepção do poema, portanto, resulta de um exercício de defloramento da própria língua. Ao iniciar-se no “falofalar” das corujas, logra o menino penetrar uma “línguahímen” que, ressignificada, se torna, então, fecunda: “liralíngua”. No dístico final, “E o beijoblue de Judas,/ Rudá”, a aproximação entre o renegado apóstolo de Cristo e a divindade tupi associada ao amor e à reprodução – logo, também à criação – aponta para uma noção do fazer poético como um melancólico ato de traição, insculpido no termo “beijoblue”.

Cabe registrar, ainda no que toca à aludida conexão entre animalidade e pulsão poética – traço encontrado de forma sistemática em O menino da sua mãe –, a constante presença de signos que remetem ao arquétipo do Cavalo: cavalo, cavala, mulo, mula, éguo, égua. Símbolo que comporta uma multiplicidade de acepções e analogias, a reiterada menção ao cavalo nos poemas reunidos neste livro evoca uma rede de conexões de sentido que, enuncia Paul Diel, são relacionadas à “impetuosidade do desejo, da Juventude do homem, com tudo o que ela contém de ardor, de fecundidade, de generosidade”.[2] Na medida em que, segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o cavalo simboliza, em razão da natureza de seus instintos, “os componentes animais do homem”,[3] é possível compreender o motivo pelo qual o referido signo é empregado na linguagem psicanalítica como representação das profundezas da mente humana. Uma vez que se opõe às faculdades racionais e ao plano da consciência, o cavalo é ainda símbolo do êxtase e do arroubo sentimental – elementos estes que, em uma perspectiva romântica do fenômeno lírico, consistem no cerne do ato de criação.

Tomado, porém, sobretudo como imagem do inconsciente e daquilo que o humano contém de insondável, o cavalo, ainda de acordo com Chevalier e Gheerbrant, pode ser aproximado a outro arquétipo: a “Mãe, memória do mundo”.[4] É precisamente essa a razão pela qual tal signo, com frequência, corresponde às figuras materna e paterna. No já citado “Animalista”, a relação estabelecida é de identificação direta, como se depreende da leitura dos dois versos iniciais do poema: “o menino da sua mãe/ filho da mula e filho do mulo [...]”. O mesmo se observa em “Cardume e girinos”: “O menino deixou/ A mãe que chorou/ A égua que heraágua// O menino deixou/ O pai que chorou/ O éguo que heraáguo [...]”.

As articulações de sentido entre as imagens equestre e materna, conforme visto, demonstram o modo como se comunicam as duas mencionadas dimensões do fazer poético em O menino da sua mãe: as concepções de poesia como cópula e como operação levada a cabo pela memória.

No que concerne a esta segunda dimensão, vale acrescentar que são várias as vias pelas quais a memória é trazida à superfície dos versos de Djami Sezostre. Em “O sarilho”, poema construído como digressão a partir de uma única imagem, seu afloramento é representado pela cena em que o menino – signo da vivência do poético em oposição à figura do homem, forma em que aquele, porém, coexiste –, em um torvelinho, gira a manivela do sarilho, trazendo à tona o balde do fundo da cisterna. Como conteúdo do recipiente, emerge, “feito a água”, um “azul infinito azul”: à memória, assim, é atribuída a função de acionar a melancolia como um ofício arqueológico; das entranhas do ser, irrompe, líquido, o azul.

Tom que dá cor não apenas aos poemas, mas ao próprio menino – “[...] floresta/ Azul, no meio da terra” –, cuja única herança transmitida pelos pais é a vocação contemplativa, o azul adquire em “Lazúli” seu máximo grau de saturação. Valendo-se dos recursos formais da repetição, da matização e do adensamento, que, oportuno salientar, perpassam toda a obra em um constante exercício de estilo, Djami Sezostre ergue seu poema como um edifício de blocos sobrepostos. Reproduzidos de forma mecânica e alternada, os elementos em destaque sobressaem vertiginosamente, potencializando o efeito das imagens: “[...] O menino [...]/ Tinha medo de ser azullost/ Pênis (Lápis) e lazúli [...]”. Sublinha-se, no trecho transcrito, a ambiguidade de que é investido o termo lápis: ora com a acepção de falo, ora como instrumento a serviço do ofício da escrita, o signo em questão realça ainda mais a aludida conexão entre sexualidade e metapoesia.

Quanto ao vocábulo azullost, cabe indagar: estaria nele inscrita, de forma prefigurada, a realização final da vocação contemplativa do menino dos poemas de Djami Sezostre? Encerraria o termo um prognóstico para o sujeito poético? Ou seria este capaz de escapar ao determinismo do desejo, da pena e da melancolia? Estariam tais elementos ligados de forma indissolúvel?

Merece registro, ainda, uma consideração acerca do modo como o aspecto da animalidade é abordado nos poemas de O menino da sua mãe. O pensamento moderno, sobretudo a partir do advento da doutrina cartesiana, opera uma estreita aproximação entre o estatuto do humano e a faculdade da razão. O critério do logos é invocado para estabelecer uma distinção fundamental entre o homem, cuja racionalidade é tida como um reflexo da inteligência ordenadora do cosmos, e os demais seres. Uma vez que tal atributo, nessa perspectiva, não se comunica aos outros animais, é instaurada uma relação de oposição entre humanidade e animalidade. Não apenas no discurso filosófico, como também na ordem da moral, perpetua-se uma dicotomia já consolidada entre ambas as categorias. Na arte, fenômeno análogo pode ser percebido: o homem, cada vez mais, toma a si próprio como referência e medida.

Assim convertido na outridade do humano, o animal se apresenta ao seu olhar como alteridade imediata. Alheio ao seu código simbólico, é, portanto, relegado ao âmbito do insondável. Segundo Foucault, é possível, ainda no século XX, identificar uma recusa em se conceber o animal como ente que “participa da plenitude da natureza, de sua sabedoria e de sua ordem”.[5]

Maria Esther Maciel, no entanto, observa que tal constatação já não condiz, a rigor, com a produção poética do século XXI. Sustenta a autora que a mencionada cisão entre humanidade e animalidade, nos moldes em que é transmitida à arte do século XX, cede lugar, na atualidade, a uma relação ambígua e paradoxal entre as duas esferas: se, por um lado, subsistem suas diferenças, não é mais possível tratá-las como estanques, visto que “os humanos precisam se aceitar como animais para se tornarem humanos”.[6] Seria esse imperativo decorrência de uma sociedade que, com uma intensidade crescente, reifica as potencialidades do homem? Seria a exaltação de sua outrora enjeitada animalidade uma resposta à desumanização de sua natureza, empreendida pela modernidade e pelo capitalismo?

A obra de Djami Sezostre certamente ilustra essa mais recente orientação da poesia contemporânea. Em O menino da sua mãe, o modo como o sujeito poético se dirige à figura do animal rompe radicalmente com a aludida polarização entre humanidade e animalidade. O que se observa é justamente o inverso: o resgate e a afirmação da animalidade do homem. A esse respeito, vale transcrever os versos de “Vadiice no jardim Geena”: “[...] O menino achou humana/ A imagem de um cavalo [...]”. Uma aproximação – ou identificação – semelhante entre ambas as categorias pode ser apontada no poema “Complexo ocapi”, em que sobressai a zoomorfização da família, retratada sob a forma do exótico animal: “[...] O menino da sua mãe/ Mais uma vez olhou/ A mãe ser ocapi/ Mais uma vez olhou/ O pai ser ocapi// A família sendo ocapi/ E ficou alado [...]”.

É possível afirmar que, de forma análoga à tentativa de reconstituição do elo firmado com as figuras ancestrais materna e paterna, o ideal de recuperação dessa animalidade extraviada, recolhida aos recônditos do humano, provém de um mesmo sentimento de perda. De fato, assim como se dá com a memória, o resgate da animalidade também consiste em um ato melancólico. Desnecessário acrescentar que, no que toca a ambas, a busca do sujeito poético está fadada à não concretização. À poesia, contudo, cabe justamente a procura: o poema é o caminho, o avizinhamento, mas não a promessa da realização.

Sem oferecer respostas, O menino da sua mãe nos deixa, entretanto, uma série de perguntas. Qual a afinidade entre pulsão poética e impulso sexual? De que modo a melancolia – traço do intelecto e tão humano emblema – pode receber tamanho realce em uma poética da animalidade? Quais os pontos de tensão travados pela presença, na tessitura do poema, de arquétipos tão distintos? A inquietação é decerto um sedutor convite a novas leituras.

 

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[1] QUEIRÓS, 2011, p. 8.

[2] DIEL apud CHEVALIER; GHEERBRANT, 2015, p. 209.

[3] CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., p. 205.

[4] Ibidem, p. 203.

[5] FOUCAULT apud MACIEL, 2011, p. 87.

[6] MACIEL, op. cit., p. 98.

 

 

 

 

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[Confira mais sobre a edição e a editora, aqui.]

 

 

 

 

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Leo Bryan Lisboa é ensaísta. Estudou Letras na FALE/UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participa do livro “Vox Lusus Poetas Contemporâneos do Brasil e de África” (Viva Voz/FALE/UFMG/2016), organizado por Bianka de Andrade Silva, com o ensaio “A lira e o espelho em Orides Fontela”. E-mail: leobryanlb@gmail.com


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