Agulhando a Cultura


AGULHA REVISTA DE CULTURA # 105 | Dezembro de 2017


 

● A OPULÊNCIA ANTECIPA A MALDADE

1 | Reformas são indispensáveis. Fazem parte da mecânica de qualquer norma. Devem ser efetuadas sempre que houver necessidade de atualização de um sistema. O dilema não está na reforma em si, mas antes em seu conteúdo, ou melhor, nos interesses que protagonizam a reforma. Mais especificamente, o dilema está na condição daquela fatia da sociedade que rege a reforma, o poder Legislativo. A lisura das reformas, em quaisquer âmbitos, exige um altruísmo da parte dos congressistas, hoje impossível de se encontrar, excetuando casos cuja função única é manter a relação entre regra e exceção. Demais poderes têm que atuar conforme a lei, porém o Legislativo é a Lei. Uma lei atualmente regida por gente a mais desonesta possível. Consequentemente toda e qualquer reforma trará benefícios únicos para a casta que comanda o espetáculo, o circo de horrores de nossa República.

2 | Há uma coisa criminosa nessa concepção da redação do ENEM. Dois critérios que por si só justificariam a correta aplicação de uma prova de redação – o domínio do vernáculo e a clareza na argumentação – estão sendo minimizados em face do julgamento sobre o entendimento que cada inscrito tem acerca do tema. A junta revisora converte-se em tribunal de valores, impondo uma linha de pensamento a seu bel prazer. Evidente que isto tanto inibe o candidato quanto atropela a formação de caráter do mesmo. Não tenho mais filhos em idade de vestibular, porém alerto a todos os pais conscientes que é no mínimo inaceitável o modo como este assunto vem sendo tratado pelo Governo.

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ZUCA SARDAN & FLORIANO MARTINS | Plek-Plek-Plex Repescando memórias

Entra em cena o eunuco Bidê Kalção seguido por três pastorinhas e preparam a mesa com Salames Empédocles, chás de chávenas com chaves aladas e frutas sortidas caracterizadas por seus atributos pambióticos. Tudo certo, ao que parece e pelo contar das cadeiras, para o encontro entre dois convidados até o momento desconhecidos. Ao centro da mesa duas pequenas caixas de papelão, branquinhas, se agitam como se o conteúdo de cada uma delas estivesse por um fio para vir a baile. Decerto haverá mesmo um baile, e toda a dúvida quanto a isto se esvai ao darmos por conta dos vultos que adentram o ambiente. E entram entrosando uma mesma risada, como se acabassem de forjar um verbo com infinitas possibilidades de ação.

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FM | Como o absurdo da existência pode requerer uma ciência própria para contê-lo e desanuviá-lo? Faz sentido o homem queimar tantas pestanas para dirimir suas dúvidas quanto ao que é ou deixa de ser?

ZS | Pros marxistas dos 50s, o absurdo da existência seria resolvido com o materialismo dialético que se apoiava na ciência, à qual a filosofia bolchevique dirigia e orientava, dando-lhe o sentido ético e social. E no plano da vida prática, acabava com os conflitos de classe graças à Ditadura do Proletariado. Despedida Metafísica, agora era só olhar pro Futuro onde se perfilava uma crescente felicidade sob a direção do Partido, quando o Mundo inteiro, enfim convencido, abraçaria o Comunismo para a liberação da Humanidade. Naturalmente, pra conduzir o Comunismo internacional havia, após o falecimento precoce de Lênin, o Stalin. Começa a terrível Segunda Guerra Mundial, e Stalin, em aliança com USA e Inglaterra, vence a Alemanha Nazista e o Mussolini. No após-guerra o Stalin perfila-se como o Supremo Chefe ideológico, militar, filosófico, moral do Mundo Comunista, ditando tudo, na Filosofia, nas Artes, na plantação de hortaliças. Após uma euforia galopante que conquistou noventa por cento das elites intelectuais e políticas da Europa, da China e América, meio inexplicavelmente, afrouxaram-se alguns parafusos, e o Stalin morreu. Segue avante o Partidão, mas vai batendo pino, cada vez mais forte, e acaba-se o sonho bolchevique com a queda do muro de Berlin. Então agora estamos vivendo na maravilha da Globalização Iluminista, com os Ricos cada vez mais ricos. E os pobres? Cada vez mais pobres, mas vão acabar se acostumando… (ou morrendo… faz de conta qu’eu não disse nada). Os que estão nas camadas remediadas se maravilham com os filmes de porrada, assassinatos, ficcionais ou reais, garotas gostosonas, e um trepa-trepa na tevê, que fica no meio de anúncios de automóveis e espanadores, e vem tudo embrulhado junto com o noticiário, pra ninguém mais distinguir a realidade da ficção, porque a realidade virou uma ficção e a ficção virou a realidade. Então, já não há mais necessidade de explicar o absurdo, porque já estamos vivendo no absurdo, e todo o mundo está gostando.

FM | Esta foi a grande cartada, que deve durar enquanto houver formas de financiamento da realidade. Governos mais astutos já distribuem antidistônicos como se fossem vacinas e o cinema alia-se à televisão para ajudar a deglutir melhor a ideia – já de todo natural – de que a verdade é um doping barato. A satisfação do cliente importa na medida em que o mesmo não cause problemas com a qualidade do produto que lhe é empurrado. Por toda parte rezam os cartazes que a ilusão é o melhor de todos os sedativos para eventuais crises de consciência. Não há mais peças de resistência, tudo é fast food. A moral tornou-se insalubre. Portanto, o absurdo agora está em descobrir um antídoto para os eufemismos e os prospectos de venda. Encurralados pela própria toline, já não está passando da hora de desfazer as malas e desistir da viagem pelo mundo irreconhecível?

ZS | O freguês deve aceitar logo o sanduiche que lhe é empurrado ou acaba sendo mal visto pelos outros clientes, e  deixará  ressentido o garçom. Nada melhor, afinal, de que a verdade venha em antidistônico na seringa  do remorso. Tome o seu antidistônico, e jogue o remorso no lixo. Só os sadomasoquistas insistem em mascar o remorso. Afinal, desmontado o circo do Céu e do Inferno, pra que serve o remorso? Só se for pra gozar mais…  Aliás… este é o segredo do sucesso da Divina Comédia, do Dante…

FM | Zuca, gostaria de saber como foram teus primeiros encontros com Dr. Faustroll.

ZS | Pois é, Doutor Faustroll me interessou de modo fulminante-instantâneo. Porque eu jovem adolescente respeitava, mas sentia a visão científica e artística da sociedade bem pensante como se fosse um saco insuportável, que eu deveria, no entanto, aceitar como um óleo de rícino indispensável, pra não cair na baboseira juvenil da turma mais boa vida dos colegas de Pinóquio. Então, a aceitação da visão científica e artística bem pensante, se adotada de uma maneira propositadamente exagerada –o humor de segundo grau! –, foi pra mim a porta escapatória que descobri na Pataphysica do Doutor Faustroll!…

FM | Como viste, mandei uma pergunta única, quase seca, direta, porém ajustando a agulha de nossa conversa, onde o Norte deve plantar bem o mirante de onde desfrutará a tecelagem do horizonte e os eflúvios dos outros pontos cardeais. Até lembraria aqui outro célebre patafísico, Vicente Huidobro, ao dizer que os quatro pontos cardeais são três: norte e sul.

ZS | Floriano, eu achei que foi justamente tua pergunta única e direta a melhor possível, e reforçou minha ideia de um pasquim. Acho que devemos cortar a parte ficção-teatro, e deixarmos só a parte do nosso Pasquim Nanico Louco… a ficção afrouxa a parte-entrevista, porque os personagens não responsabilizam diretamente o autor (sobretudo se forem dois autores… o-ro-rooo…) que sempre pode sair pela tangente dizendo que o que diz o personagem não representa necessariamente o pensamento do autor. Ou seja, a ficção é um sabão de Pilatos. As nossas entrevistas me parecem ter muito maior impacto porque estamos então de trapezistas sem rede. Toda a recepção que tive de nossos trabalhos sempre se interessava – exclusivamente – pela parte-entrevista. Sugiro então passarmos da mesa volante ficcional do Dok. Kardoff pras entrevistas-piranhas do Nanico Louco. Creio que devemos manter um estilo-jornal dos bons tempos em que havia Sátira. Aliás, o Pasquim, de Millor e Jaguar, foi o último pasquim, realmente autêntico. Mas como se especializou no feroz ataque ao Regime Militar… quando este acabou… o Pasquim, sem ter a quem morder… acabou.

BIDÊ KALÇÃO | Não cortem o teatro, não, não cortem. O plano era apenas o de servir como introito ao diálogo entre vocês. Não esqueçam que, assim como o Iluminismo é uma Baleiaa Ficção é o Sabão de Pilatos. Deem calças frouxas às pernas longas… Tomem conta da casa… Deixamos uns quitutes sobre a mesa e um barril do melhor vinho da casa…

ZS | Muito grato, Bidê Kalção!… Jamais cortaremos o nosso teatro. Vocês são uma trupe formidável, verdadeiros… Plek-Plek-Plek!!! (estalo os dedos) Plek-Plek-Plek-Plek!!! Como é mesmo o nome daquele pássaro? Uutau?… Pássaro-Lyra?… Não!!! que renasce… que renasce…

BIDÊ KALÇÃO |… da própria bosta?… é a… Hyena!…

ZS | A hyena não é pássaro, Bidê!… É um mamífero… mas não renasce da própria bosta. A Hyena…

BIDÊ KALÇÃO | …come a própria bosta. Come, se lambuza e… gargalha… AH-RA-RA-RAAAAAAAAAAA

ZS | Exato, Bidê!… Mas só em caso de emergência. Todavia, eu me referia ao pássaro!…

BIDÊ KALÇÃO | …o Condor?… Voando sobre o Titicaca e o Cocopateplek!…

ZS | Mais ou menos, Bidê… Mas enfim vamos ficando por aí… Gratíssimo pelo magnífico introito. De qualquer modo, em que pesem minhas ranzinzas de velho, nosso teatro é como… Plek-Plek-Plek…

FM | Pensei logo no cenzontle, o imitador-poliglota, o pássaro dos mil cantos, que aqui nos caberia melhor. Até por evocação ao inesgotável princípio de todas as coisas que aqui nos leva de volta aos campos magnéticos da criação e da formação do caráter do criador. Também confesso, já na adolescência, a minha atração por uma “ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções”, não necessariamente a Patafísica, então por mim desconhecida, porém intuída, de algum modo, na rejeição às formas e métodos com que o mundo ao meu redor se impunha. A memória hoje evidencia o quanto a sátira – e sempre irmanada na anarquia e do absurdo – me foi um guia revelador.  Em meu caso, bem cedo se revelou uma técnica que sigo utilizando, a do deslocamento, a retirada de um objeto ou de um princípio, de seu ambiente natural, tratando de encaixá-lo em outro habitat, a ver que reação produz.

ZS | Realmente, você intuiu a própria Patafísica. A Patafísica é uma disfarçada sátira do mundo científico-moral burguês, feita em forma de apoio a este mesmo mundo racional circunspecto. O perigo da sátira é que o artista tenha um ideário pronto na cabeça, quando a sátira passa a ser um veículo de propaganda virtual da ideologia do artista. Mas a sátira é por si mesma insubornável, e se for forte, ela saberá enganar o próprio autor. Na Rússia, após implantada a arte realista proletária, os artistas sérios deveriam se dedicar a uma arte devocional extremada… com Stalin de fardão branco fumando cachimbo rodeado de crianças… e no final do ciclo, o Brejnev, de fardão militar, no front, ao crepúsculo na floresta, lendo um livro do Lênin… Enquanto isso, os caricaturistas, não tendo de fazer loas ao Grande Chefe, nem ao Partido, se deliciavam em sátiras furiosas engraçadíssimas contra os nazistas e o capitalismo, com toda a liberdade pra lascarem o malho nos inimigos sem a menor cerimônia… e nos deixaram assim o melhor da Arte Bolchevique, ao dar vazão a toda uma fúria libertária, sempre contra os inimigos de guerra, mas certamente, inconscientemente (ou secretamente consciente), contra a própria ditadura soviética. Os secretamente conscientes acabavam sendo flagrados e eram fuzilados ou despachados pra Sibéria.

FM | Hitler roubou a cena da época, de tal modo que, mesmo sendo o seu o menor saldo genocida, ficou na memória como sendo a mais nefasta criatura que o mundo já produziu. Até mesmo a sátira teve a perna passada, de modo que jabuticabas floriram num colossal tamarindeiro. A época toda foi de uma artimanha impagável, com o Pai Goebbels distribuindo manuais de ilusionismo por todo o Ocidente. Até hoje a nossa moeda de troca existencial tem as duas faces iguais, o que facilita o comércio e dá plena circulação à hipocrisia. Em meio a tudo isto, como ias apontando os teus lápis?

ZS | Participei ativamente da Guerra, desenhando batalhas aéreas e navais, bombardeios, naufrágios, traiçoeiros submarinos… e curtindo os anúncios da enfermeira Rhódis, que trazia os peitões na bandeja, entre os remédios fortificantes para os soldados feridos. Havia também uma HQ do Capitão Terry na guerra do Pacífico, onde por vezes aparecia a fatal Madame Tokyo, gostosíssima, em seus colantes vestidos de seda, com ousado decote… ela cantava de voz rouca  e falava pelo rádio com os pilotos americanos… dizendo… “e tua esposa, bela e fascinante, sozinha na América?… em noites de lua cheia?… e tu aqui, morrendo à toa, meu amor…”

FM | Uma delícia, a fala insultante de Madame Tokyo. Enquanto eu crescia a guerra já havia desmontado seu curtume internacionalista quase romântico – que tantos filmes deu ao mundo – e passara a dedicar-se à ocupação estratégica de laboratórios químicos e galões de petróleo. As Graphic Novels se mudaram para o espaço sideral e a comarca delirante dos super-heróis. Também o sexo perdeu sua vazante de sedução reveladora e tornou-se o mais vulgar e dilacerador de todos os comércios. Madame Tokyo hoje não assinaria contrato em nenhum escritório da pastelaria das diversões eletrônicas.

ZS | Na linha erótica dos comics do entre-guerras, anteriores a Madame Tokyo, gosto muito da Betty Boop, com um desenho magnífico, em contrastes de campos de preto-e-branco, recurso aliás também utilizado pelo Gato Félix. A Betty e Félix têm grande semelhança física, parecem irmãos… A manha inocentinha da Betty Boop me lançava em fúrias de volúpia, na minha longínqua infância. Hoje acho que o Gato Félix sacou a técnica do contraste preto-e-branco da Betty Boop, e me pergunto se não haveria um erotismo oculto?… Todo gato é meio safado…

FM | Uma das grandes maravilhas de minha infância, premiada com a chegada da TV no Brasil, foi justamente o Gato Félix, do qual voltarei a falar. Atarraxando o assunto anterior, bem antes do Pai Goebbels, outra figura tutelar, o apóstolo Paulo, intuiu que a Verdade só se realiza na Fé, de modo que o fundamental não é a Verdade e sim a Fé. A sabedoria popular equacionou o assunto: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Dois mil anos de fraude astuta até que a arte adota a premissa de que a mesma, para ser crível, necessita se basear em fatos reais. A nova Verdade abomina a imaginação. Indistintamente igrejas, farmácias e agências de viagem são notórias lavanderias de dinheiro, assim como agências de modelo e cursos de dramatização se especializaram no negócio camuflado de pedofilias e prostituições. A analogia entre Verdade e Fé cria um afluente no binômio Crime e Fachada.

ZS | Questão de fé demais ou fede menos. É preciso a Verdade pra arrolhar a Imaginação. As bruxas fedem demais, vão pra fogueira. O arrependido será lavado com sabão Araxá (mas sem a estampa das Três Gordas)  e logo… axará a Fé no Mercado Global. Todos os sexos são iguais perante a Lei, o primeiro, o segundo e o terceiro. O quarto e o quinto ainda estão sendo examinados pelas autoridades competentes civis, militares e religiosas.

FM | São sexos jovens, inscritos no provão do Ministério dos Tamancos Aguados. Curioso como os corpos celestes definham submissos aos caprichos do Tempo & Espaço, a dupla sibilina do Araxá. Pracabá com isso somente os comícios da Fé. A inquilina suspeita nas feiras de inutilidade pública. A freira pornográfica. A cafetina assexuada. Quem chegou ao episódio 69 de Felix the Cat descobriu que só a loucura contabilizará ganhos dentro e fora dos tabuleiros. Mas Zuca, chegaste a jogar xadrez com o Dr. Faustroll?

ZS | Sim, joguei xadrez com Doutor Fautroll que guardou seu Rei no bolso, e me disse: “Pois é, Zuca, fora do tabuleiro, meu Rei não poderá sofrer cheque mate”.

O tabuleiro se fecha automaticamente. Os peões, sempre desprevenidos, escorrem pelas brechas. Não fossem os cavalos do Rei as torres teriam desabado sobre os bispos. Ainda era possível ouvir a Rainha solfejando a ária final de Manon Lescaut. Também a plateia, boquiaberta, escorria pelo ralo. Quando a cortina cai, o cenário se mostra um deserto. Como a memória. Abandonada por todos.

 

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Os poetas ZUCA SARDANFLORIANO MARTINS escreveram a quatro mãos e publicaram os seguintes livros: O iluminismo é uma baleia (2016) e Farelos do Mytho – teatro de farsas (2017). Em 2018 a Sol Negro Edições publicará Teatro automático.

 


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