Philip Roth & o Nobel


HOMENAGEM A PHILIP ROTH & SOBRE O NOBEL

 

Logo na abertura de Zuckerman Acorrentado, quando este alter ego de Philip Roth que é Nathan Zuckerman fala do impacto de suas primeiras incursões literárias sobre a comunidade judaica de sua cidade americana, temos um acontecimento genial. O narrador sarcástico transcreve uma carta que lhe dirigiu um bom amigo da família Zuckerman, de posição na pequena sociedade em questão, versando sobre a índole de um conto seu, saído numa revista local. Mais especificamente sobre o tratamento que esse texto reserva aos judeus.

O missivista informa que a esposa se une a ele nas advertências que faz chegar ao jovem escritor. É principalmente ela, a esposa, que está preocupada com o que Nathan anda escrevendo. A carta termina com 10 perguntas dirigidas pelo casal a sua consciência de judeu. São 10 alfinetadas megairônicas naqueles que um outro judeu genial, o historiador de arte Georges Didi-Huberman, dirigindo-se, por sua vez aos teóricos fundamentalistas da Shoah, no belíssimo volume Imagens apesar de tudo, chama “os frequentadores de uma região da adoração mística”. São principalmente uma defesa da literatura. E explicam o crítico literário sueco, se é que ele existe.

Eis o singelo questionário:

1-     Se vivesse na Alemanha nazista dos anos 30, você teria escrito uma história como a que escreveu?

2-     Duvida que o Shylock de Shakespeare e o Fagin de Dickens tenham sido úteis aos antissemitas?

3-     Você pratica o judaísmo? Se sim, como o faz? Se não, que credenciais tem para escrever sobre a vida judaica?

4-     Teria coragem de afirmar que as personagens de seu conto são uma amostra representativa do gênero de pessoas que constituem uma comunidade judaica contemporânea típica?

5-     Numa narrativa com pano-de-fundo judaico, o que justifica a inclusão de um episódio em que se descrevem intimidades físicas entre um judeu casado e uma cristã solteira? Por que numa história com pano-de fundo-judaico deve haver a) adultério; b) brigas constantes sobre dinheiro numa família; c) comportamentos desviantes de modo geral?

6-     Que conjunto de valores estéticos o faz pensar que o desprezível é mais válido que o respeitável e o chulo, mais verdadeiro que o sublime?

7-     O que em seu caráter faz você associar a fealdade da vida com o povo judeu?

8-     Como você explica o fato de que, a despeito de incluir um personagem que é um rabino, seu conto não revele nenhum traço da grandeza oratória com que o rabino tal e o rabino tal instigavam e comoviam suas audiências?

9-     Além de seus ganhos financeiros, que benefícios você acha que adviriam da publicação de sua narrativa numa revista de circulação nacional para a) a sua família; b) a sua comunidade; c) a religião judaica; d) a prosperidade do povo judeu?

10-    Você diria, com sinceridade, que não há nada em sua história capaz de alegrar o coração de um Julius Steiner ou de um Joseph Goebbels?

 

 

 

 

 

 

 

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Leda Tenório da Motta estudou com Roland Barthes, Gérard Genette e Julia Kristeva.  É Professora no Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP, pesquisadora do CNPq nível 1, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, tradutora e crítica literária, com passagem pelos mais importantes cadernos de cultura brasileiros. Traduziu, entre outros, O Spleen de Paris de Baudelaire e Métodos de Francis Ponge, o primeiro livro deste poeta a  sair no Brasil. Publicou, entre outros, Proust – A violência sutil do riso, que recebeu o Prêmio Jabuti, e Roland Barthes- Uma biografia intelectual (Iluminuras), finalista do Prêmio Jabuti.  Lança em 2015, pela Iluminuras, Barthes em Godard- Críticas suntuosas e imagens que machucam. E-mail: ltmotta@pucsp.br


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