Senzala Geral


UM ‘PROUST’ DO FORA

O livro EXPLOSÃO parte do denso e inacabado projeto chamado A HISTÓRIA DA SENSIBILIDADE de Hubert Fichte é um livro que opta pela mistura de perspectivas simulando uma espécie de olhar em camadas que recobre o corpo como vozes escritas a partir de seu encontro com uma exterioridade tensionada pelo desejo. Fichte é uma espécie de ‘Proust do FORA‘, alguém que em seu projeto de nomadismo realizou com o corpo, um projeto de produção do desejo para dinamitar as fronteiras entre religiosidade, etnografia e erotismo para desse modo espreitar zonas hibridas entre exterioridade e diversas outras alteridades. Seus livros fazem um inventário de objetivação do mundo inusitado e até surpreendente. Trata-se de um projeto que tenta fundir literatura e vida em uma  reconfiguração dentro de uma espécie de jazz fusion ficcional que inclui os movimentos de transe, transição e evocação dos corpos, H.F. em uma lição aprendida nos escritores beats, em Genet, em Amiel, recria gestos de observação do transe-trânsito dos fatos da corporiedade e os mistura com a temporalidade histórica do Brasil, onde se passa o livro. Este Proust do fora tetu criar uma poética da pesquisa de campo erótica e etnográfica, algo que se configura para mim como um A VIDA SEXUAL DO SELVAGEM COMO ERONÔMADE. Há aqui neste deslocamento do centro de emanação PARA FORA voltado para a notação de camadas de um Ethos erótico nomádico e ao mesmo tempo exílico, é aí que A COBRA MORDE O RABO e faz da dissolução na outridade um gozo.

 

A FORÇA DA DELICADEZA

A delicadeza é uma força nos poemas de Lucila de Jesus em seu livro PONTE lançado pela Editora Patuá, há poetas que procuram a palavra como quem se protege em uma precária redoma de sentido e outros que são procurados pela palavra justamente por se recusarem a viver dentro de uma redoma, este é o caso de Lucila de Jesus, que escreve na borda, na quarta margem, na margem da escuta das coisas onde o poema é a procura de um diálogo finíssimo, onde escuta-se a formiga e a limpidez da água das nascentes interiores do difícil dia, porque não existe dia fácil para os sensíveis, abrir mão da redoma do sentido é também abrir os sentidos que se irmanam com o social que é também parte da natureza. Lucila nisto está em um enorme diálogo comunitário com outras poetas, de Adélia Prado passando por Adília Lopes até Hildegard Von Bingen, a abertura para o outro aqui é o chão por onde a palavra deve caminhar. Trata-se de uma poesia de fundo místico-social, que consegue um equilíbrio entre as demandas interiores e as urgências de um mundo que não colapsa por haver algum misteriosíssimo elo ou teia sustentando as coisas.

 

RETRATOS NA NEBLINA: PEDRO PAULO ROCHA

Pedro Paulo Rocha é um criador que não se enquadra em nenhuma categoria da chamada arte contemporânea, não houvesse uma imensa preguiça e má vontade de certos curadores de mostras media class haveria uma recepção maior para seus trabalhos fora do esquadro que fazem um espelhismo sinérgico com o mundo dos computadores ou seja com o totalitarismo da tela ou totelalitarismo.

Há uma implosão dentro de uma explosão nestes trabalhos, uma implosão geométrica que é como um desossamento do concretismo e que pode ser confundido com uma citação ou ecoísmo deste movimento.

É óbvio que P.P.R. não anda por aí com uma carteirinha de Filho de Glauber Rocha e que, isso, a influência, já foi assumida por ele para além do sangue e da postura cover de herança imantada como valor autoritário de troca de favores como é comum aqui no Brasil. O tal filho de peixe não cola aqui porque estamos falando de oceanos escuros, oceanos cinza de lutas e conflitos justamente com as forças do retrocesso que assassinam e depois louvam o animal assassinado erguendo estátuas de ouro para ele.

Pois bem, trata-se aqui da negação do outro, da negação da morte, da negação da linguagem, principalmente da linguagem da arte, mas isso é feito de um modo pretensamente caótico, voluntariosamente debochado, há algo de uma dimensão esquizocênica aqui, há a produção do desejo de uma morte encenada como desconstrução de uma ética da competência, enormes contradições se fundem aqui com um pensamento que podemos chamar de dissonante, mesmo dentro de um discurso de guerra às vezes excessivo, de um barroquismo minimalista e de outras enormes contradições.

É necessário prestarmos atenção no instante em que o ruído se converte em música bastarda e o cinza em prateado e a loucura simulada se confunde com a lucidez aguda, algo que no Brasil infelizmente pode ser nadificado, assassinado por projeções perversas, eu disse pode ser, pode mas não será porque destinações outras iluminam esse abismo filho de um abismo

quais destinações?

 

O SOL O SOL

 

 

 

 

 

 

 

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Marcelo Ariel é poeta, coordena cursos de criação literária em Santos e São Paulo, mora em Cubatão, autor dos livros Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Patuá), O rei das vozes enterradas (Córrego), Não -Eu (Dulcinéia Catadora), entre outros. Em 2016 deve lançar Com o Daimon no Contrafluxo pela Patuá e A criação do mundo segundo o esquecimento/Diários- 2010-2015 pela Imaginário Coletivo. E-mail: marcelo.ariel91@gmail.com


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