ANTROPOLOGIA POÉTICA DO FERRO


 

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KPINGA: A IDADE DO FERRO

por aqui os negros da terra não conheciam o ferro, embora mais acima uns seus primos fundissem outros metais, muito mais amarelos. também alhures diversas culturas só de bronze os seus gumes tiveram. do ferro e do aço, jamais a glória e o flagelo. faraós e Ulisses reinaram apenas sob o cobre dessa liga, boa mas nunca tão rígida como o ferro dos hititas, capaz de repelir as agilíssimas bigas egípcias.

o forno volta o minério em lava de fogo para logo refazê-lo, quando sólido de novo, ainda mais forte que o sílex e o osso. ferro: substância e forma do sabre vitorioso. dele e de outras ferramentas malhadas na forja: o facão que decepa, a pua que espeta, a enxada que vira a terra e o machado que deita a madeira que o prego penetra. ferro: mais que ouro na guerra.

atiçar o carvão com o fole em pele de cabra: entre os Azande, um privilégio do clã Avongara. drenar a escória e com o malho sobre a bigorna moldar na massa viva a lâmina mais fina: kpinga, a arma de arremesso do povo Zande, um misto de adaga, foice e lança. um falcão capaz de atingir cinco homens. e até de contornar seus escudos. espécie de bumerangue muito mais cruel e astuto, aprendido quiçá com os núbios. jalis e bruxos disseram não ser desse mundo. um pacto de reis baniu das guerras seu uso. Ogum e Xangô selaram o acordo, mantendo-a distante de seu povo.

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O FERRO E OS HOMENS DE ÉBANO

Fundidores e ferreiros da África negra dominaram a técnica da forja e dos fornos siderúrgicos muito antes dos admiráveis aços das cimitarras andaluzas, das katanas japonesas e dos sabres alemães. Não obstante isso, em 1835, julgando os negros autóctones como primitivos, a Conferência de Berlim partilhou o território africano entre os potentados coloniais europeus, ignorando por completo fronteiras naturais, linguísticas e comerciais entre os povos daquele continente. Era o prolongamento do genocídio escravista e da diáspora transatlântica, cujas consequências devastadoras sobre o desenvolvimento da África subsaariana ainda hoje se fazem sentir.

A África negra, muito precocemente, já no III milênio a.C., desenvolvera o complexo domínio do ferro, uma conquista tecnológica desconhecida por egípcios, gregos e romanos durante um longo período da Antiguidade. Desde os anos 1980, questionava-se a primazia do surgimento do ferro na África do Norte, na região da atual Tunísia. Com a importante ajuda da UNESCO, novas pesquisas e datações mais exatas de fornos e fragmentos permitiram, desde os 2000, a comprovação derradeira da hipótese da origem autônoma da siderurgia do ferro na África negra do centro-oeste, em diversos pontos próximos aos lagos na região da Nigéria. Para os interessados no aprofundamento dessa discussão, eis  uma obra de referência para os embates arqueológicos e antropológicos:


Em uma África de enormes fornos cônicos, o ferro está intimamente ligado à fertilidade da terra, pois logo tornou-se essencial à produção dos implementos agrícolas (em especial a enxada) que viriam a ter reflexo na própria divisão sexual do trabalho, tornando as mulheres cultivadoras mais dependentes dos homens que detinham a exclusividade das ocupações metalúrgicas. Além de ser frequentemente usados como dotes, os utensílios de ferro, em especial o martelo e a bigorna, tornaram-se também presentes nas cerimônias de entronização de diversos chefes e soberanos de povos da África negra como insígnias de poder. Aliás, o artefato bélico tratado pelo poema –kpinga – não consistia apenas em uma crudelíssima arma de arremesso: é também um importante símbolo de nobreza dos guerreiros Azande, um povo metalurgista localizado entre o Congo, a República Centroafricana e o Sudão do Sul.

Cá no Brasil, todos certamente já ouvimos alguma referência aos ferros de Ogum, o orixá que na cultura iorubana exerce o patronato dessa metalurgia. Mas talvez se tenha dado pouquíssima atenção ao testemunho de Wilhelm Ludwig von Eschwege (ou simplesmente Barão de Eschwege), o mineralogista germânico trazido ao Brasil por Dom João VI em 1810. Em um depoimento de Eschwege, encontrei o registro dos homens que pela primeira vez teriam fundido o ferro em terras brasileiras, infelizmente só reconhecíveis pelos nomes de seus respectivos senhores. Trabalhando na Itabira que séculos depois seria a cidade de Drummond e da Companhia Vale do Rio Doce, o Barão de Eschwege escreve: “Na província de Minas, a fabricação do ferro tornou-se conhecida no começo deste século [XIX], através de escravos africanos. O ferro foi fabricado pela primeira vez em Antônio Pereira, por um escravo do capitão-mor Antônio Alves, e também em Inficionado, por um escravo do capitão Durães (o mesmo senhor que achara cobre nativo arenoso). Ambos disputavam a honra da prioridade.”.  O livro de Eschwege a respeito das vicissitudes da metalurgia e da mineração brasileiras foi publicado na Alemanha, em 1833, sob o título Pluto Brasiliensis,contando com essa tradução em português, que sairia na coleção Brasiliana apenas em 1944.

Volto à África, agora a magrebina, mais especificamente à medina de Rabat, no Marrrocos, a pouco mais de 300 quilômetros de Marraquexe, onde gravei o vídeo abaixo em 2009. Uma característica fundamental das medinas muçulmanas é a vedação de que no seu interior se utilize qualquer espécie de máquina em processos produtivos. Nelas só é autorizado o trabalho manual que preserve técnicas ancestrais e linhagens de ofícios ameaçados pela mecanização industrial e pela indiferença ensejada pela inundação de bugigangas chinesas. Para alguém como eu, interessado em fenomenologia desde uma perspectiva antropológica, é como transpor uma porta dimensional.  Registrei aí um homem de nome Aniq, um ferreiro tradicional que estava manufaturando a encomenda de uma série de martelos de carpinteiro. Sobre a sua bigorna, com a ajuda de tenazes, lâminas e punções, uma marreta (malho) molda a cabeça da ferramenta em preparo: ajusta as suas facetas, alarga o orifício que receberá o cabo e abre a fenda da unha usada em alavanca como extrator de pregos.

O trabalho da forja é lento, árduo e perigoso: une robustez, destreza e paciência. Absorto nesse verdadeiro espetáculo artesanal de um martelo que fazia outro, pensei, em dado momento, na ferramenta primordial. Na linhagem dos utensílios que se engendraram, em um dado instante primevo, o metal fundido teve de ser moldado por pedras, madeiras e talvez até ossos. Mas uma vez inaugurada essa genealogia, as ferramentas procriaram até que das mãos que as empunham surjam as máquinas que já nos fazem esquecer o caráter plenamente utensiliar dos instrumentos que franquearam ao homem essa via irreversível de domínio crescente do mundo natural, inclusive rumo à sua destruição e ao seu exaurimento.

Hoje acredito que a ferramenta primitiva não é inventada nem propriamente descoberta: ela simplesmente acontece como uma confluência benfazeja entre a mão, a mente e as circunstâncias. Durante muito tempo, a tradição cartesiana, reiterada inclusive por Marx, nos fez acreditar que a mão é o simples executor daquilo que o cérebro pensa e planeja: a mente comanda, a mão apenas cumpre. Em O Capital, Marx nitidamente subscreve essa primazia da ideação mental sobre a inteligência do corpo: “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador.” (cap. VII, Seção I). Claro que Marx tem grande parte de razão no que afirma. Entretanto, um conceito fundamental que venho pesquisando na fenomenologia de Heidegger, muito caro a toda minha poesia e reflexões teóricas, permite revisar essa perspectiva: Zuhandenheit, a manualidade ferramental dos entes intra-mundanos. Assim, tendo a compreender que não é apenas a mão que faz aquilo que o cérebro pensa: primariamente, o cérebro só pôde pensar aquilo que a mão conseguia fazer. Ou seja: a estrutura da manualidade humana, com todos os traços anatômicos e evolutivos de sua proporção e de sua disposição prêensil, encontra-se na própria origem do pensamento e da linguagem humanos, rearticulando o corpo e a mente em uma totalidade existencial capaz de superar o dualismo psicofísico herdado de Platão, com todas as suas armadilhas cognitivas e suas amplíssimas consequências metaforizantes. Tal  preocupação filosófica e antropológica já esteve presente, misturada a outras, em muitas publicações de meu projeto poético-ensaístico, dentre as quais destaco apenas duas mais recentes: uma que aborda a faca, no poema Ofícios da Carne, e outra que aborda O Çapateiro. Uma vez que esses links trazem digressões que podem se tornar aborrecidas para quem não se interesse pelos seus assuntos, recomendo que se vá direto aos poemas. De outro lado, é bastante compreensível que, de um ângulo como o da Literatura (que definitivamente não é o meu) só se possa enxergar nessas obras a vaga manifestação de algum sentimento anti-lírico ou de uma mera poesia de coisas.

Bem, volto ao Marrocos. Enquanto fotografava o labirinto da medina de Rabat, retornei por três vezes à oficina de Aniq, tentando convencê-lo a me vender um daqueles martelos. Depois de muita conversa e de uma negociação cheia de blefes e caretas (típica dos mercados árabes), consegui arrancar dele, por 20 euros, um exemplar da série. Anos depois eu arranjei para aquele martelo um lindo cabo de angelim-pedra e mandei confeccionar uma caixa de vidro com uma lâmpada dicróica acoplada. Pretendia  deixá-lo na sala de casa, em um ambiente expositivo que o retirasse dos olhares capazes de só ver nas suas imperfeições uma triste ferramenta velha e oxidada. Isso é o quepretendia, porque antes de receber a tal caixa do vidraceiro aquarista que iria confeccioná-la, emprestei o apartamento para um amigo. E, ao voltar para casa, encontrei sobre a mesa um ótimo vinho e um bilhete de agradecimento com um PS escrito mais ou menos assim: “Bah! Nem sabe! Esqueci os faróis ligados e a bateria do carro arriou. Peguei o teu martelinho pra soltar os contatos do cabo da bateria e acabei esquecendo na rua. Comprei pra ti um Tramontina, novinho!”. No começo imaginei que aquilo fosse uma brincadeira. Pensei: vai ver que o vidraceiro apareceu para entregar o tal aquário e acabou falando do martelo. Quando descobri que era tudo verdade, fiquei, por óbvio, muito puto da cara. Perdi a minha relíquia do vídeo e ganhei esse presente de grego:

É difícil reproduzir o orgulho que Aniq envergava por seu ofício de ferreiro. Recordo de seu discurso altivo, e às vezes virulento, a respeito das diferenças entre o ferro forjado e o ferro fundido, em uma mistura de árabe, francês e gestos ilustrados por diversos exemplos incompreensíveis para mim. Naquela hora, lá no Marrocos, eu só lembrava desse poema de João Cabral de Melo Neto a respeito de sacadas (balcones) e açucenas:

 

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
“Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe uma grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.

 

 

 

 

 

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Marcus Fabiano Gonçalves nasceu no Rio Grande do Sul (Santana do Livramento, 1973). Radicado no Rio de Janeiro, é professor da Universidade Federal Fluminense. O autor publica ensaios e poemas inéditos no blog Arame Falado, no endereço:  marcusfabiano.wordpress.com. Em 2005, publicou O Resmundo das Calavras (ws editor), obra finalista do Prêmio Jabuti. Em 2012, publicou Arame Falado (Rio de Janeiro, 7 Letras). E-mail: marcusfabiano@terra.com.br




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