Poetas contemporâneos brasileiros


Antinomias em poetas contemporâneos brasileiros: a propósito de Wilmar Silva

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A nova edição de Estilhaços no Lago de Púrpura (originariamente pela Anome livros de Belo Horizonte em 2006, agora em parceria da Sete Letras e Anome) enseja observações sobre o modo como esse poeta – e ativo difusor da poesia – prossegue uma tradição e ao mesmo tempo a inova.

Nesse livro, assim como no anterior Arranjos de Pássaros e Flores, celebra a fusão do “eu” com o mundo; a integração com a natureza. O poema é análogo, em relação de equivalência e não apenas descrição de algo.

Em Estilhaços no Lago de Púrpura: “ / eu anfíbio, escavo um rastro na memória do chão apenas para suspender as plantas que colhem nos pés a trilha dos chacais de onde você exala em sombras, eu com este olhar de espadas e meus cílios de areia e minhas retinas que entornam pela estrada [...]”.

Em Arranjos de Pássaros e Flores: “eu, diedro é meu sangue dentro da pele onde idioma é memória nos ouvidos, piar de nhambu quando mastigo rubi-tomate separo sementes para o almoço de ceres {…]”

Precede-o uma das “escrituras” gnósticas encontradas no colossal acervo de Nag Hammadi, “O Trovão – Intelecto Perfeito”. Hino ou exortação por uma voz feminina, consiste na repetição do eu sou, conferindo-lhe qualidade litúrgica e, evidentemente, poética: “Pois eu sou a primeira: e a última / Sou eu a venerada: e a desprezada. / Sou eu a meretriz: e a santa. / Sou eu a esposa: e a virgem. / Sou eu a mãe: e a filha. / Eu sou os membros de minha mãe. / Sou eu a estéril: e a que tem muitos filhos. / Sou eu aquela cujo casamento é magnífico; e a que não se casou. / Sou eu a parteira: e a que não dá à luz; / Sou consolação: de meu próprio trabalho. / Sou eu a noiva: e o noivo. [...]”

Nas oito páginas que “O Trovão – Intelecto Perfeito” ocupa na edição brasileira de As escrituras gnósticas, por Bentley Layton (edições Loyola), vai expondo, de ponta a ponta, oxímoros ou antinomias, pares de atributos e condições opostas – primeira-última, venerada-desprezada, mãe-filha. E inversões de seqüência temporal: “meu marido é quem me gerou”. Também há transgressão de tabus: “Sou eu a mãe do meu pai: e a irmã do meu marido”. O princípio lógico da identidade e não contradição é atacado por todos os flancos. Percebe-se a mão de alguém que conhecia filosofia; e que se empenhou em subverter esse conhecimento: “a voz cujos sons são tão numerosos” e “o discurso cujas imagens são tão numerosas”; ao mesmo tempo se diz síntese de significante e significado, “a fala: de meu próprio nome”.

Oxímoros e antinomias, sendo típicos da Antiguidade tardia e com afinidade com outros textos ainda mais antigos, ao mesmo tempo soam modernos. “O Trovão – Intelecto Perfeito” parece precursor de muito da poesia contemporânea, em sua lógica do “isto é aquilo”. Partilha características de outros textos das mesmas fontes. Todos, expressões, como observa Layton em sua edição de escritos gnósticos, de um “entendimento não-discursivo” que viria a ser a própria experiência mística, a gnose: é o conceito gnóstico de salvação, identificada ao conhecimento, à superação da dicotomia de sujeito e objeto. Como é dito em outra das “escrituras”, o “Zostrianos”: a “pessoa que se salva é a que procura compreender e, assim, descobrir a si mesmo e ao intelecto”.

Definições negativas de um princípio ou instância divina não foram exclusividade gnóstica. Encontram-se no Corpus Hermeticum, manifestação da doutrina iniciática contemporânea do gnosticismo, cuja tradução e divulgação no Renascimento teve enorme influência. No Asclépio, o mais substancioso dos livros do Corpus Hermeticum, “Deus é uma esfera inteligível, cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma”.

Com todos os cuidados quanto a generalizações sobre o que seria “ocidental” e “oriental”, mesmo assim a expressão por antinomias, a valorização do “entendimento não-discursivo” e da superação de opostos são características de doutrinas e sistemas filosófico-religiosos da Índia e China: religião védica, budismo e taoísmo. Octavio Paz, em O arco e a lira, comenta a troca dos isto é aquilo em vez de isto ou aquilo: “O pensamento oriental não sofreu desse horror ao “outro”, ao que é e não é ao mesmo tempo. [...] Todas essas doutrinas reiteram que a oposição entre isto e aquilo é, simultaneamente, relativa e necessária, mas que há um momento em que cessa a inimizade entre os termos que nos pareciam excludentes.” É o pensamento analógico, contraposto à lógica do discurso. Corroboram-no trechos (melhor dizendo, poemas) do Tao-te-Ching de Lao-Tsé.

Antinomias reaparecem pela voz de Rumi, poeta e místico persa do século 13, expoente do sufismo e criador da ordem dos derviches dançantes: “O homem de Deus não é de ar nem de terra. / O homem de Deus não é de fogo nem de água. / O homem de Deus é um mar ilimitado. / O homem de Deus faz chover pérolas de um céu claro.” E através de São João da Cruz, com seu famoso preceito: “Para vir ao que não és / hás de ir por onde não és”; e da sua “noite escura da alma”: a mesma “escuridão luminosa” já vislumbrada pelo pseudo-Dionísio Areopagita.

Todos atendem ao ensinamento expresso em outro texto gnóstico, O Evangelho Segundo Filipe (também publicado na coletânea aqui citada, de Layton), com orientações para o adepto; recomendações sobre o modo de alcançar a gnose, através da superação da distinção entre ser e perceber, a representação e seu objeto: “As pessoas não podem ver coisa alguma no mundo real, a não ser que se tornem essa mesma coisa. No reino da verdade, não é como os seres humanos no mundo, que vêem o sol sem ser o sol, e vêem o céu e a terra e assim por diante sem ser eles. Antes, se você viu qualquer coisa lá, você se tornou aquela coisa”

É possível comparar esse logion gnóstico com a importante passagem de Baudelaire sobre “ arte pura”, em um texto inacabado e publicado postumamente, “A arte filosófica”: “O que é a arte pura segundo a concepção moderna? É criar a magia sugestiva que contenha ao mesmo tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista.”

Baudelaire é o poeta em cuja obra antinomias, contrastes, choques de opostos, têm importância especial. Um dos exemplos é o “Hino à Beleza”; outro, “O Heautontimoroumenos”: “Eu sou a faca e o talho atroz! / Eu sou o rosto e a bofetada! / Eu sou a roda e a mão crispada, / Eu sou a vítima e o algoz!”. É possível observar, comparando-o aos versos de “O Trovão – Intelecto Perfeito” e os demais trechos de escrituras e hinos religiosos, bem como de poetas-místicos aqui citados, a passagem do abstrato para o concreto, do geral para o particular, do sagrado para o profano.

Em um passo adiante, Vicente Huidobro, em Altazor, confundiu todas as hierarquias, do transcendente e imanente, celestial e mundano, universal e particular, da esfera do sujeito e do mundo dos objetos: “Sou vaga-lume e vou iluminando os ramos da selva [...] / E não sou só vaga-lume / E sim também o ar em que voa [...] / E logo sou árvore / E mesmo árvore mantenho meus modos de céu [...] Agora sou roseira e falo em linguagem de roseira [...] Sou rosa de trovão e ressôo meus pigarros [...] Meu meu é todo o infinito”.

É a mesma confusão proposital estabelecida em Estilhaços no Lago de Púrpura e também em Arranjos de Pássaros e Flores. Parece um Huidobro frenético, multiplicado, em trechos como este: “[...] onde sou tempestade limo as unhas para cozer um inverno e hibernar cães, punhais, cernes de cedros para uma cama / eu este que habita as espreitas da solidão [...] eu todopiscoso aguardo uma noite menos insone”. Mas há um terceiro termo adicionado por Wilmar Silva ao “eu” e a todas as coisas que compõem a natureza e o cosmos: o “você”. Por isso, e pelo tom de exaltação em seus poemas, pode ser adicionado à categoria do “misticismo do corpo”, apresentada por Norman Brown em Life against Death.

Sem dúvida, a poesia de Wilmar Silva também apresenta relação de continuidade com outro místico do corpo, exemplar no registro das antinomias e da proclamação do “eu sou”: Roberto Piva. Em seu “Poema vertigem” de Ciclones, alterna o sagrado e o profano; ou promove uma sacralização do profano e uma correlata profanação, através de um “eu” expandido, total: “Eu sou a viagem de ácido / nos barcos da noite / Eu sou o garoto que se masturba / na montanha [...] / Eu sou o Tambor do Xamã / (& o Xamã coberto / de peles e andrógino) / Eu sou o beijo de Urânio / de Al Capone / Eu sou uma metralhadora em / estado de graça / Eu sou a pomba-gira do Absoluto.”

Integram a confraria dos modernos neo-pagãos, poetas para quem, citando Rimbaud, “eu é um outro” – ou, antes, são muitos outros. Recriando o panteísmo, restauram a natureza animada; prosseguem a iluminação vivida por Gérard de Nerval ao escrever o soneto “Versos dourados”, que o levou a proclamar que “tudo é sensível”, pois “Cada flor é uma alma em Natura nascente; / Um mistério de amor no metal reside dormente; [...] À própria matéria encontra-se um verbo unido… [...] Quase sempre no ser obscuro mora um Deus escondido.”[1]

Em Wilmar Silva, o panteísmo é celebrado através de uma intensa e colossal orgia, da qual tudo – o “eu”, o “você”, a natureza, o universo – participa.


[1] Utilizei a tradução de Contador Borges, na abertura de Aurélia (Iluminuras)

 

 

 

 

 

 

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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Traduziu parcialmente Ginsberg e Artaud, e a obra completa de Lautréamont. Publicou também, entre outros, Geração Beat, L&PM Pocket, 2009 e a tradução do Livro de Haicais, de Jack Kerouac (L&PM, 2013). E-mail: cjwiller@uol.com.br




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