AfroAscendente afirmativo


Fui convidado a fazer uma breve palestra de abertura de um recital dedicado a poéticas de poetas africanos e afrodescendentes de literatura em língua portuguesa. O Menu de Poesia é organizado por Maria Alice de Vasconcelos no Centro Cultural São Paulo e contou com a presença de vários poetas que fizeram leituras e de representantes da Faculdade Zumbi dos Palmares. Incapaz de fazer uma palestra à altura da proposta, limitei-me a um depoimento e reflexão que me chacoalhou por semanas. Atendendo a pedidos, publico o texto que li na ocasião.

 

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Sou filho de mãe branca e pai negro com avô, por parte de pai, saído diretamente da senzala. Um escravo liberto.

Migrante da Bahia para o sul-maravilha, separado de pai e avós, demorei muito, muito tempo para que tivesse condições e depois quisesse entender o que me era particular e intransferível. Fui, entre meus irmãos, o único que nasceu em Ilhéus. O único de pele negra. O único que, adolescente, voltou e morou na Bahia. O único que olhou o cinza dos olhos de seu avô negreiro de perto.

Antes, e durante tudo isso, a árvore frondosa e bem nutrida da ditadura me deixou em névoa de desinformação e inconsciência. Depois, fui consumido pelos mitos e estereótipos oficiais que me diziam a todo instante: ‘não existe racismo no Brasil’, ‘o brasileiro é um povo amistoso e cordial’, ‘você não é negro é mulato’, ‘você até pode ser negro, mas tem a alma branca’.

Aliás, em minha certidão de nascimento consta que eu nasci com a cor parda. O que, segundo o Houaiss, significa “branco sujo, escurecido”.

Por sorte, fui convidado a ingressar em um Seminário de Padres. Por sorte lá tinha uma biblioteca gigantesca. Por sorte, tínhamos professores particulares gabaritados. Tudo o que um menino ‘branco sujo, escurecido’ em minhas condições jamais poderia pleitear.

Com minha ginga natural, driblei bem os padres. Depois, quis ser jogador de futebol. Depois, músico popular. Mas, aquelas noites passadas na biblioteca, o contato precoce com a leitura e a literatura me salvaram.

Com elas descobri coisas que ninguém poderia ter me contado, nem minha mãe, nem meu avô, muito menos meu pai desconhecido e falecido. Mas não foi fácil. Resisti, ou fingi que não entendia.

O primeiro Cadernos Negros que me caiu na mão foi o de número 13. Significativo, não é? Guardo-o até hoje. Nele, um poeta me impressionou e mais impressionado ainda fiquei depois de conhecê-lo pessoalmente: Arnaldo Xavier.

Esse nome foi o que ficou, como um enigma. Um negro, culto, bravo, sem papas na língua e doce como um leão. Um turbilhão com as ideias azeitadas e pleno domínio da linguagem escrita:

“O QUE fezes nesta redoma? Imenso salão de beleza morta Escritório de cabeça sonolenta reich-eada de fraudes e freuds  apocarílica alfacanção das compras   entrecanto eu não Sabiá debulhar a fava de sete grãos              A partilha efetuada em partes desiguais    pedações de África sobrepedações de Europa    sobrepedaços de Ásia 99999999999999999999999 palavras de solidão    Se heterodoxo lustre gélido anoitece juízo      Cata o vento a orelha    Que inútil fenece         Colibris pousam febris nos muros do paraíso          Um pano brancobre-lhe a cara-pálida           Walt Whitman come pétalas ilusionógenas   mijando nos olhos de Borges      Anjos à paisana brincam o carnaval    de mortecicletas sobreondas onde nada mais além se salvara    Um jardim foge pelo fundo sombrio de um hospital”

A partir daí, com o que me foi possível ter acesso, e esbarrando em cabeças pelo caminho fui percebendo um pouco mais, aprendendo…

Sim, as ordens dominantes no Brasil não incluíram as culturas negras nos movimentos de construção de sua “identidade nacional”. Aliás, o que é mesmo ‘identidade nacional’ no Brasil? Falar a mesma língua? Qual delas?

Sim, a ebulição do continente africano, a luta contra o colonialismo português, o Apartheid, o perdão de Nelson Mandela a seus opositores, as relações e conquistas dos negros nos Estados Unidos da América, foram e são ingredientes fundamentais para a minha e para a nossa compreensão das “raízes”.

No meio do caminho sempre tem um poema. O meu foi o de Oliveira Silveira. Dizia assim:

“Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
cantos
em furiosos tambores
ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei”

Sim, a negritude pode ser uma manifestação cultural e política mobilizadora, como já disse Kabengele Munanga, e transformar a identidade sociocultural dos povos negros em uma arma de emancipação e num projeto de renascimento. Assim foi e está sendo.

Sim, a expressão afrodescendente resgata a negritude de todo o contingente de pessoas que buscam se afastar, como eu já quis, de sua identidade negra, mas que têm o negro profundamente inscrito no corpo e na cultura.

Sim, os argumentos que livram o negro das armadilhas do discurso colonial podem se constituir em uma nova forma de idealização do negro.

Sim, as expressões “escritor negro”, “literatura negra” ou “literatura afro-brasileira” podem rotular e aprisionar mais ainda, mas instauraram e ainda instauram um debate necessário e urgente.

Sim, o critério para se definir quem é negro deve ser cultural.

Sim, os que deveriam possuir uma perspectiva mais ampla sobre estas questões são os próprios negros.

Um poeta pode dizer-se negro e não professar nenhuma religião afro-brasileira ou praticar um budismo japonês como eu pratico?

Sim, a cultura é uma teia de significados que tecemos ao redor de nós mesmos e que, ao final, nos amarra. Resta-nos o quê? Talvez, captar sua densidade simbólica.

Sim, o intercâmbio e a modificação são caminhos que orientam a formulação e a construção das identidades modernas.

Sim, a miscigenação cultural pode provocar mudanças numa determinada etnia.

Sim, o opositor não é o brasileiro branco, mas o brasileiro preconceituoso.

Sim, parece que a grande maioria preconceituosa é branca, e amarela e, também, negra.

Sim, não temos uma identidade nacional coesa. Coesão é coisa de redação de vestibular.

Sim, a expressão afrodescendente resgata uma descendência negra que se dilui nas miscigenações. É um posicionamento importante.

Sim, vinculado à mestiçagem, o branqueamento, como negação da afrodescendência, tem nos presenteado com escritores que produzem uma literatura esquecida da questão racial e das desigualdades dela decorrentes.

Sim, talvez não seja impunemente que trazemos correndo nas veias o sangue da África e que tenhamos passado pela senzala e dela saído com esforço. Se é que todos saímos…

Sim, continuo e continuarei a procurar, além da mimese das formas europeias e sob a melodia das flautas pan, o que subsiste do ritmo africano sufocado.

Sim, se somos um país de mestiços isso não nos autoriza a pensar que vivemos em um país, ou que antecipamos um mundo sem raças.

Sim, temos que ser afirmativos.

Sim, os signos podem e devem ser postos em movimento como já fizeram Césaire e Glissant.

Sim, Machado de Assis e Castro Alves eram negros, meu nego.

Sim, não vamos esquecer dele. Aquele simbolista que, se não foi maior que Mallarmé e Stefan George, foi, para nós, maior que o Simbolismo: Cruz e Souza.

Sim, somos todos exilados de nós mesmos e precisamos nos reencontrar em alguma medida.

Sim, como já disse um poeta, somos todos negros, cravados de escravidão.

Sim, somos todos, antes de mais nada, seres humanos.

 

Como ainda tenho tempo, gostaria de encerrar com um poema meu:

 

BANZO

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carrego em meu lombo

várias máculas onomásticas

 

sou Zé, filho de Edward

um desterro sem quilombo

e sobre o nome

a Cruz

 

sou nenhum

mulato negro índio

..,,,…. ninguém tingido d’água

salgada vindo

 

mesmo depois de liberto

sapatos a luzir

— inédita condição —

um ilhéu

que o destino não quis

soteropolitano

 

um grapiúna no sul-

maravilha

quase

impecável

sem marcas

cicatrizes

não ungido

sem excesso

…….de melanina

 

algo assim próximo à matéria

alva que se tinge o mundo

visão última

dos que erram o alvo

e encontram

a morte.

 

 

 

 

 

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Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta, editor e revisor. Desgraduou-se em muitas coisas: Psicologia, Música e Letras. Foi fundador e editor do site de literatura Cronópios (até meados de 2009) e da revista literária Mnemozine. É professor no Curso de Criação Literária, da UnicSul/Terracota Editora, no módulo Poema. Lançou em 2007, Sortilégio (poesia), pelo selo Demônio Negro/Annablume e, como organizador, O que é poesia?, pela Confraria do Vento/Calibán. Lançou, também, uma adaptação do épico indiano, Mahâbhârata, pela Paulinas Editora. Em 2011, lançou Sambaqui, livro contemplado pela Bolsa de Criação da Petrobras Cultural. Em janeiro de 2012, colocou no ar seu novo projeto: o site MUSA RARA. Escrevia com frequência no blog: http://sambaquis.blogspot.com E-mail: sonartes@gmail.com




Comentários (1 comentário)

  1. Maria Lindgren, Gostei muito tanto da prosa como do poema. Sou como toda brasileira mesclada de branco(sueco, português) e preto ( Bahia). Demos no que demos, o que é tudo de bom. Maria
    12 agosto, 2013 as 17:18

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