Ademir Assunção


……………………………….Pig Brother & até nenhum lugar
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Conheci o Ademir Assunção por volta de 2005; foi no projeto Rompendo o Silêncio, que acontecia na Casa das Rosas, organizado pelo Frederico Barbosa e por mim. Uma vez por mês, um poeta contemporâneo, escolhido pelo Frederico, era entrevistado por um aluno dos cursos de Letras, da FFLCH-USP, que eu cuidava de orientar. Ademir foi um dos poetas que participou do projeto; depois disso, tenho acompanhado sua carreira de escritor. Em 2008, fizemos juntos o Musa Chapada, com arte gráfica do Carlos Carah; hoje quero falar de seus dois últimos lançamentos: Pig Brother e até nenhum lugar.

Lançados no segundo semestre de 2015, ambos pela editora Patuá, os livros são encontrados no site www.editorapatua.com.br

Como ler Ademir Assunção? Diferentemente das poesias do Paulo Scott ou do Delmo Montenegro, que são bastante herméticas, sua poesia é certeira; em nome da contundência, Ademir costuma ir diretamente ao assunto. Entretanto, embora aparentemente sua poesia não necessite de chaves de explicação, ela está longe ser óbvia, seja nas referências que faz, seja na vertente – ia escreve verve – à qual ela se vincula.

Pig Brother me fez reler A voz do ventríloquo, seu livro anterior, de 2012. Ambos têm a mesma estrutura: A voz do ventríloquo é organizada em sete noites, Pig Brother é organizado em sete círculos; a cada noite ou círculo correspondem sequências de 5 a 13 poemas. Também em ambos, o tom dos versos é o mesmo: o poeta puto investe contra os desastres de sua época. Mas dizer isso é pouco, muitos poetas fazem o mesmo; o interessante em Ademir é como ele subverte esse lugar comum e tão recorrente.

Antes de tudo, Ademir se refere explicitamente a Roberto Piva:

(1) Ademir é metropolitano, notívago, não há lugares amenos em sua poesia;

(2) ele tematiza as drogas, sejam elas do vício ou do iniciado, do craque ao santo daime – no caso de Piva, era a época da erva do diabo –;

(3) o modo de composição é o modo beat de fazer versos, por meio de motes verbais e variações, sugerindo a tensão tema/improviso do jazz – como Lawrence Ferlinghetti expõe em seus sete poemas de Mensagens orais –;

(4) Ademir – e essa é a referência a Piva de que eu mais gosto – constrói personagens em seus poemas – Mister Morfina, Lili Maconha, … – que retornam ao longo do livro – Piva faz isso em Coxas, sex fiction & delírios: Polén, Onça Humana, … –.

Ademir dá continuação à poesia de Roberto Piva, tão singular nas literaturas de língua portuguesa, recorrendo a um modo de composição poética pouco explorado entre nós, seus falantes. Imitar Piva grosseiramente é fácil, basta fazer delírios lexicais e pasmar diante da poesia – Piva nunca é um pasmado, ele domina o verso –; incorporar sua verve e sua levada, como faz Ademir, é bem mais complicado.

Além do mais, Ademir Assunção, embora preste contas à poética de Roberto Piva, faz suas próprias inovações, valendo-se de outros imaginários:

(1) sua metrópole não é mais São Paulo, localizada nos mapas, mas uma cidade imaginária, que dialoga com Gotham City, Sin City ou Metrópolis, inserindo São Paulo na mitologia das HQs;

(2) Ademir tem perspectivas budistas, o que dá matizes menos disfóricos em sua distopia – há poemas líricos em suas noites e círculos –;

(3) ao lado do jazz, Ademir incorpora o rock;

(4) as personagens de seus poemas são próximas das de HQs, enquanto as personagens de Piva se parecem com as dos filmes de Pier Paolo Pasolini ou Nagisa Oshima.

Um dos poemas de Pig Brother mais significativos desses procedimentos é “Sombras cambaleando nos becos (quinto monólogo interior de Lili Maconha)”:

 

Há homens limpos no meio da sujeira.

Há homens gentis no meio da loucura.

Eu sei que eles existem.

Posso vê-los em movimento no meio da neblina.

São como sombras cambaleando sob a luz fraca dos becos,

entre latas de lixo e gatos feridos.

Eles têm a cara cheia de uísque, cerveja, vinho e cicatrizes.

Eles são velhos, muito velhos.

Eles andam sozinhos pelas ruas mais sórdidas.

Às vezes se trancam em casa

e não conseguem sequer abrir as janelas.

Eles bebem muito. Eles fumam muito.

Eles leem histórias em quadrinhos

e dançam em cima dos muros das suas casas

quando estão sóbrios.

Eles mijam fora da privada quando estão muito bêbados

e às vezes adormecem com a cara enfiada na poça de urina.

Eles vão até o açougue e compram ossos para seus cachorros

quando conseguem algum dinheiro.

Eles ficam felizes olhando seus cachorros mascarem o osso.

Eles falam devagar e conseguem manter o olhar fixo,

durante muito tempo, em lugar nenhum.

Eles riem quando procuram a carteira pela casa toda

e a encontram caída dentro da privada

e olham para a capa de couro toda ensopada

e perguntam: “ei, o que você está fazendo aí?

eu a procurei por todo canto”.

Agora mesmo, um deles deve estar alimentando seu gato

com as últimas sardinhas que restaram

e tentando abrir a janela para a Coruja com Asas de Areia,

que bate contra o vidro, tremendo de frio.

Não consigo sentir mais quase nada,

não sei o que fizeram com a minha coragem,

nem com meu medo.

Mas sei que esses homens existem

e continuam vivos entre os escombros.

Posso senti-los por perto.

 

Seu outro livro é bem diferente; Pig Brother é a noite escura, enquanto o poeta de até nenhum lugar é contemplativo. Se em “Sombras cambaleando nos becos” o poema nos fala dos poucos brilhos no meio da Noite Negrume tematizada por Ademir, os versos de até nenhum lugar, contrariamente, são bem mais luminosos, são poemas de alguém limpo no meio da sujeira.

Os poemas do segundo livro são curtos, ao invés dos longos desabafos e imprecações do primeiro, eles estão próximos dos haicais; a pregação do poeta puto cede seu lugar para a tranquilidade zen, própria da observação concisa e aguda:

 

vassoura em punho

o monge varre

a própria mente

 

Por fim, resta recomendar os dois livros com bastante entusiasmo. Ademir Assunção está cada vez mais afiado enquanto poeta; dos continuadores da poesia de vocação beat feita no Brasil, ele é, com certeza, um dos poucos escritores que vale a pena conhecer.

 

 

 

Caros leitores

Vou procurar participar da Musa Rara com mais diligência; daqui a 15 dias volto para falar da poesia de Delmo Montenegro e de seu livro mais recente, Recife, No Hay.

 

Visite meu site: www.seraphimpietroforte.com.br

 

 

 

 

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Antonio Vicente Seraphim Pietroforte nasceu em 1964, na cidade de São Paulo. Formou-se em Português e Lingüística na FFLCH-USP; fez o mestrado, o doutorado e a livre-docência em Semiótica, na mesma Faculdade, onde leciona desde 2002. Na área acadêmica, é autor de:Semiótica visual – os percursos do olharAnálise do texto visual – a construção da imagem;Tópicos de semiótica – modelos teóricos e aplicaçõesAnálise textual da história em quadrinhos – uma abordagem semiótica da obra de Luiz Gê. Na área literária, é autor de: – romances:Amsterdã SMIrmão Noite, irmã Lua; – contos: Papéis convulsos – poesias: O retrato do artista enquanto fogePalavra quase muroConcretos e delirantesOs tempos da diligência; – antologias: M(ai)S – antologia SadoMasoquista da Literatura Brasileira, organizada com o escritor Glauco Mattoso; Fomes de formas (poesias), composta com os poetas Paulo Scott, Marcelo Montenegro, Delmo Montenegro, Marcelo Sahea, Thiago Ponde de Morais, Luís Venegas, Caco Pontes, mais sete poetas contemporâneos; A musa chapada (poesias), composta com o poeta Ademir Assunção e o artista plástico Carlos Carah. E-mail: avpietroforte@hotmail.com




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