Acordes que nunca acabam


Tanto faz falar de um livro. Ele Já foi escrito e teve a sorte de ser lido. Ponto. Mas porque insistimos tanto em querer falar sobre determinados livros? Não sei. Talvez porque alguns ainda ficam soando em nossos ouvidos feito um acorde que nunca acaba. Como o final daquela música no disco antológico dos Beatles, O Sgt. Pepper’s… Sim, àquele último acorde no piano que estica o pescoço ao máximo em direção ao infinito. Num acaba nunca – assim são os livros fodões. Mas enfim! Não estou aqui exatamente pra falar sobre o livro em si: o porquê disso ou daquilo, qual a visão de mundo do personagem, qual a trama e blábláblá. Não estou mesmo aqui pra fazer um exame clínico do conteúdo. Gostaria apenas de falar sobre o que esse livro representou pra mim. O que ele fez por mim: ele me salvou. Ponto. Beleza! Eu poderia parar por aqui, pois acho que já disse tudo, mas vamos nessa.

Eu estava me separando – aliás, eu estou sempre me separando. Problema delas que não sabem ainda que os príncipes viraram uns chatos muito antes do Nando Reis atentar pra isso – e tava barra. Estava naquelas de achar que o mundo não é uma bola, que a Torre de Pisa não é inclinada, que os Dez Mandamentos, na verdade são onze, enfim! Achando que tudo tava errado. Andava procurando apartamento, voltando, indo, indo, voltando. Uma merda. Cómo me cuesta quererte, me cuesta perderte, me cuesta olvidar. Resumindo, eu caminhava às margens pálidas de um fim. Tinha que aceitar isso e, essa coisa demora, ô! Muitos não saem vivos. Eu acho que saí. Sério! Bom! Quando falo que escrevo ou leio porque isso é minha salvação, dizem por aí que sou exagerado. E quem disse o contrário? Bom, tô me perdendo. A questão é que quando eu tentava me segurar em raízes muito frágeis de uma queda inevitável num buraco escuro e úmido, um livro caiu em minhas mãos. O título olhou pra mim, eu olhei pra ele e foi amizade à primeira vista. Com o livreco sob o sovaco, a língua estalando e o coração destroçado, fui pro meu boteco predileto que frequento há mais de vinte anos: Paulista com a Manuel da Nóbrega. Quem me atende é o Márcio, que já está lá muito antes do bar nascer. Quando ele me vê chegando já vai puxando uma mesa, uma cadeira e trazendo a minha breja predileta. Vou-me aboletando, a língua ainda estalando, olhos-telescópio-na-paulista-passarela-meninas-pra-lá-e-pra-cá, dou um trago na cerva sempre bem gelada e depois de alguns minutos abro o livro. Sinto-me um padreco iniciando uma missa. Um ritual completo. Quando li o primeiro parágrafo: (…) Chega no Studiô e cai matando numa cerveja gelada. Arroto formidável de barítono, que lhe evoca os sabores distantes do jantar. Janela escancarada para o verão. Abafamento. Madrugada (…) Um sorrisinho escorregou pro canto da minha boca, me aprumei na cadeira e disse, “aqui tem coisa” fui lendo: (…) Matutando. A cidade está fora do meu quarto, mas eu estou dentro da cidade. Dentro e fora. A hierarquia sensível da realidade é a seguinte: primeiro meu quarto, depois a cidade lá fora. Aí vêm o país e o mundo. O país e o mundo são notícias impressas no jornal intacto jogado no chão. Um gole descuidado de cerveja faz um fio gelado lhe escorrer pelo canto da boca e pingar em seu peito peludo. Corrige-se primeiro meu corpo. Depois o quarto, a cidade, o país, o mundo (…)
A coisa deslizava, ia, frases descoladas, fortes, soltas, espontâneas, livres, rápidas, cheias de coisas dentro, linguagem ruaceiramente coloquial, com pro, pros, pra, prum, mina, carinha, bicho, pra todo lado. Gírias a torto e a direito. Pitadas precisas de expressões ora em inglês, ora em francês, além dos espalhafatosos neologismos: tristeliz, feliztre, pénabundeou, cagástrofe (Nunca mais consegui dizer: catástrofe) e trechos de canções preferidas do autor que acabam se enroscando no texto e se confundindo com o mesmo. Eu ali, sentado, me fingindo de vivo, o arpão bem no meio da pleura, latejando, doendo, clamando por ela, e lendo aquele livrinho com o desespero de um mendigo que se depara com um banquete. Eu lia, lia, quando sentia que podia não parar mais, fechava o livro como quem mata um pernilongo. Fazia isso só pra deixar o prazer lá dentro por alguns minutos. Tomava minha cerva, olhava as pernas das meninas na Paulista – o sorrisinho no canto da boca agora um pouquinho maior – e começava a sentir a sensação de que a cada capítulo o arpão latejava um pouco menos. Louco. Pensei. Será?

Nesse livro há uma tristeza dentro de uma alegria ou é ao contrario? Sei não. Uma esperança embrulhada num papelzinho celofane da desesperança? Agora é que não sei mesmo. Cabrera Infante tentou definir um livro que havia lido pela terceira vez: (…) Um romance comovedor e triste e ao mesmo tempo alegre (…). Por ai: uma coisa tristeliz ou feliztre. Sei lá. O que sei é que você vem rindo com as presepadas do Reinaldo, quis dizer do Ricardo e, de repente, mais que de repente, ele manda uma tão dolorosa, tão tosca, tão nossa, tão lá dentro que você começa a marejar e quando menos percebe tá com um sorriso escorrendo dos olhos. Um sorriso salgado, doído, apertado, molhado. Mas o foda é que até nessas, há umas, tipo (tipo?): ”segura a onda ai, mermão”, a coisa pode piorar, mas se piorar, a gente vai ali na esquina e toma todas. Pode crer.

O autor me disse uma vez, lá na mercearia São Pedro que não o considerava seu melhor livro. Foi ainda mais radical, disse que nem achava que fosse um livro. Disse-me que ele o havia escrito num lance meio romântico: pelos bares e cafés de Paris numa temporada de dúvidas e diversões. E eu me pergunto se os não-românticos já escreveram livros. Só os românticos escrevem livros, meu xará. Só um romântico para um punhado de horas, dias, meses, anos e se debruça sobre um troço que nem ele sabe bem o que é ou se será. E têm também os ainda-mais-que-românticos, que são os que acham que muita gente vai ler o livro que eles estão escrevendo. Bom, achismos à parte. Pois o GGM também acha o Cem anos de Solidão uma merda…Tá, mas vamos atrás que na frente tem gente…bom… Pra mim é um puta livro. Uma confusão que no fim tudo se encaixa ou não (como diria o Caetano). Há momentos de pura poesia, proesia rara, mas pra evitar que vire um negócio meio sério demais, aparece um humor bonachão e tira a poesia pra dançar e aí na saída encontram a filosofia meio pra baixo, lhe oferecem um trago e saem os três cambaleando pelas ruas da cidade luz.

Enfim! O livro foi me fazendo soltar as malas cheias de coisas que não me serviam pra nada e que eu nem sabia se eram mesmo minhas. Uma mala sem alça que eu teimava em carregar. O livro foi me lavando as culpas. Parecia me dizer: relaxa cara, a coisa num é bem assim. Enquanto o lia, em catapultas fui mandando as putas das minhas culpas pro olho da rua. Bom! Num foi bem assim, mas foi.

Pois é camarada, não foi só esse livro que me salvou. Muitos outros tiveram um papel importante em minhas boas confusões no percurso dessa minha vidinha. Como disse um amigo meu: “ninguém passa por essa vida sem causar conflitos. Nem os mortos conseguem isso” Então vamos indo. Como sempre digo: a literatura é minha religião. Porque ninguém precisa me proselitar. Eu mesmo me ajoelho e subo a longa escadaria de um “Guerra e Paz” ou de um “Ulisses” numa boa. Sem reclamar. Houve um tempo em que precisei do Henry Miller todos os dias. Vi que não tinha sido só eu que havia fundido a cachola por uma mulher fodona. Eu acompanhei a via sacra do cara passo a passo e percebi que havia muitos mundos doloridos pulsando além do meu. Pois é, também numa noite desesperada, em que eu tentava de tudo pra ficar com uma lindeza, e esta escorregava feito mercúrio entre os dedos, Bukowski me disse que há coisas piores do que ficar sozinho. Em outras palavras, esse livro, anos depois me disse a mesmíssima coisa. E aí fui abrindo as mãos, soltando as rédeas, deixando a coisa ir. Aceitando o que tinha que ser. Entregando pra vida o que é da vida. Esse livrinho foi apaziguando o meu coração destroçado. Horas e horas na prainha lendo-o, tomando blacks, fumando cigarrilhas, olhando a rua e rachando o bico num esgar úmido, salgado, doído e às vezes até catarrento. Sabe, não dou trela somente pra pegada do autor, o estilo, se ele tem ou não tem cancha, manha e tudo mais. Prum leitor avisado, em poucas linhas se sabe qual é a do cara, mas confesso que preciso de algo mais além da experiência, estilo, técnica, consistência, visão de mundo e tudo mais e blábláblá. Preciso muito da carga, da energia que o malandro tava vivendo quando resolveu por a bunda na cadeira e escrever. Algo mais tem que saltar da coisa. Falo de tutano, verve, vida, verdade, transfiguração, crucificação e não só de palavras perfumadas, arrumadinhas e bem penteadas. Falo da mesma coisa que senti quando – ainda com ela – resolvi, antes de dormir, ler os contos do F. Scott Fitzgerald. Caraca! Aquilo tem tanta eletricidade que tive um curto-circuito e fui até de manhã lendo o troço e rodando pela casa. Parecia um louco. Tentei dormir, mas não deu. Um verdadeiro zumbi pra lá e pra cá. Perguntava-me como um cara sob sete palmos de terra há muito tempo ainda conseguia ligar os nervos de outro maluco em 220? Com toda aquela energia e palavras martelando na cabeça vi a luz do dia, feito um estilete, cortar a sala, e aí desisti.  Ainda com o calhamaço debaixo do braço, aproveitei o ensejo e fiz um café pra empregada. O livro sobre o qual estou escrevendo – que já nem sei mais qual é – está repleto dessa energia, dessa força, desse troço, sei lá e, pra mim isso foi mais forte do que qualquer outra coisa que se fale sobre literatura.

Bom! Meses depois resolvi morar na Europa. Esse livrinho foi responsável por isso também, pelo menos em parte. Precisava de uma fuga geográfica, uma trégua, ou sei lá o que, mas precisava. Estava esgotado. No aeroporto, quando estava prestes a entrar no corredor pro portão de embarque, ela me olhou demoradamente e lágrimas saltaram do despenhadeiro dos seus lindos olhos. Eu não esperava mais por isso. Eu não chorava mais. Havia chorado tudo ou algo mudara? Sei não. Ela me abraçou e me disse, “até um dia”. Eu a mirei, e lhe disse: “até um dia, baby”. O livro estava sob o braço, mais surrado que o coldre do Billy the Kid ou os joelhos de São Francisco.

Já dentro do avião, que é um lugarzinho onde costumo desmoronar depois de alguma treta, não chorei também. É, algo mudara mesmo. Eu tinha aceitado o fim? Se sim, com toda certeza não havia conseguido isso sozinho. Tive um livro, um bom livro, mais uma vez, como grande amigo…Isso já faz tanto tempo.

Bom! Eu poderia ficar aqui falando desse livro sem parar e com o maior prazer. Até já estou olhando-o de esguelha em minha estante, mas é que tô me separando de novo, é, de novo, então, sabe como é, né? Preciso começar a relê-lo agora, já e nesse momento. Valeu. Tô indo. Vou deixar algumas brejas pagas, ok? Abçs.

O Livro é “Tanto Faz” (editora Azougue) do Reinaldo Morais. “Tanto Faz” foi também publicado pela Companhia das Letras juntamente com o primeiro romance do autor, o “Abacaxi”, numa edição pocket. É considerado um clássico da literatura contemporânea.

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Reynaldo Bessa é músico e escritor. Já lançou cinco CDs. O mais recente com músicas suas sobre diversos poemas de autores como: Drummond, Leminski, Auta de Souza, Alphonsus de Guimaraens, além de Fabrício Carpinejar, Alice Ruiz entre outros. Em 2008 lançou seu primeiro livro “Outros Barulhos – Poemas” (Prêmio Jabuti 2009 – Poesia). Em 2010 foi um dos finalistas do PRÊMIO SESC DE LITERATURA , com o seu livro de contos  “Algarobas Urbanas” (editora Patuá) lançado recentemente. O autor escreve para sites, blogues, jornais sobre literatura, música e poesia. Têm contos, crônicas, poemas publicados em revistas, jornais, suplementos literários pelo Brasil e exterior. E-mail: contato@reynaldobessa.com.br
Sites: www.algarobas.blogspot.com e www.reynaldobessa.com.br




Comentários (5 comentários)

  1. Lincoln Alves, Como sempre, show!
    17 janeiro, 2012 as 13:57
  2. Cleo, seu texto me encanta…
    19 janeiro, 2012 as 14:25
  3. June Sorel, Puta artigo. Inteligência e humor na medida certa. Parabéns.
    27 janeiro, 2012 as 13:53
  4. Reynaldo Bessa, Obrigado a todos pelo feedback…bjs/abçs
    19 fevereiro, 2012 as 20:42
  5. lena brasil, Maravilhoso texto! Parabéns.
    30 agosto, 2015 as 16:50

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