A poesia que vem das ruas


 

Nas últimas décadas notou-se na literatura brasileira a predominância de uma imaginação literária urbana, mesmo quando os relatos chegam até nós carregados de um forte teor regional, ou com histórias de migração e inadaptação social. Exclui-se dessa visada a literatura que simplesmente emula um fazer literário com olhos voltados para o estrangeiro, ou para o mercado literário de vendas e best-sellers.

Estamos evidentemente no campo da prosa e, para os pesquisadores, essa dominância parece apontar tanto para o fato de a população brasileira ter se tornado sobretudo urbana, quanto para uma reconfiguração artística das tensões entre localismo e cosmopolitismo, do que seria centro e do que se denominaria periférico, do rural e do urbano.

Essas questões também poderiam ser colocadas quando avaliamos a produção poética contemporânea dos grandes centros urbanos, abraçados por suas enormes e efervescentes periferias. E são elas, as periferias, que exigem atualmente uma reconfiguração de toda a análise do fazer literário já feita. Seja no âmbito dos jornais, dos suplementos culturais, da Academia ou das editoras.

A despeito do descaso das grandes mídias, do quase nenhum reconhecimento de sua produção nas instituições escolares e acadêmicas e da indiferença total da crítica literária, os manos e minas seguem produzindo, publicando, criando e oralizando suas produções em bares, feiras, saraus, em performances que arrastam multidões.

Talvez falte para a crítica o instrumental adequado para analisar uma produção que deve sua popularidade e magnitude ao hip hop, ao rap, à literatura negra, à literatura marginal, à cultura nordestina, ao grafite.

A coisa ficou grande, já esboça um movimento mais que literário, de afirmação social. Um movimento artístico que considera, além da língua escrita, outras semioses: linguagens como a música, a corporalidade, a performance, e que tem como motor propulsor sua grande diversidade cultural.

Um grande expoente desse movimento é o poeta Sérgio Vaz, que chega agora a seu oitavo livro, Flores de alvenaria. Grande agitador cultural que é, não dá para mencionar seu nome sem lembrar do Sarau da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), evento que idealizou em um bar da periferia de São Paulo e que reúne semanalmente cerca de trezentas pessoas para ouvir e falar poesia.

Seu livro é o terceiro pela Global e tem apresentação do músico Chico César. O que revela de cara que o mercado de livros costuma ser mais rápido no gatilho do que pode supor nossa vã filosofia.

Em todo caso, ‘quem tem valor não tem preço’, como diz Sergio em seu livro. E seu valor não cabe em um livro, não se comporta em uma resenha de jornal. Isso porque sua voz poética representa o elo em um movimento mais amplo, mais significativo que, a partir de agora, todos vão querer catalogar e capitalizar.

‘Um poema é quase nada nisso tudo’ que é a vida. Mas pode ser muito.

Sinfonia para surdos

Sou um poema
que o destino incumbiu de ser feliz.
Dizem que sou filho de Ogum,
guerreiro que transforma em batalhas
o silêncio de quem não diz.

Sou um poema
sem nome algum,
a espada de cortes profundos
na anca dura da solidão.

[...]

Engana-se quem acha que os textos de Vaz sejam panfletários ou tematizem apenas a condição social dos excluídos e perseguidos por um sistema que seleciona e unge seus escolhidos numa chave elitista.

Sua poesia pode ser lírica e sintética como uma gota de orvalho. Vários dos poemas que permeiam o livro – entre um ou outro poema mais longo e muitos textos curtos em prosa, crônicas possíveis – são aforismos, versos lapidares como os que destaco abaixo.

Por conta da timidez
aprendi a beijar com os olhos.

Sorrir enquanto luta é uma ótima estratégia para
confundir os inimigos.

A vida sabe o que eu quero
e fica se fazendo de difícil.

Pra quem tem medo de amar
um sussurro é tempestade.

Desconfio que a sorte não sabe onde moro.
Azar o dela.

Quanto mais se vive
menos se morre.

 

Embora sejam colocados despretensiosamente no livro, revelam um ouvido apurado para o corte dos versos e a potencialização de sentidos dos chamados encavalgamentos. Assim como alguns poemas mostram um controle feliz das assonâncias e dos ritmos e rimas internas do verso. Não são trabalhos de um amador, nem sorte de principiante.

Afundei o navio negreiro do coração,
não me sinto escravo de nada, sei nadar,
mas ele ainda singra na memória
como o sangue derramado no mar.

Na estrofe acima, do poema “Canto das negras lágrimas”, o canto ecoa as negras lágrimas, o sangue derramado de um navio que ainda singra, sangra, na memória.

Um bom poema como esse nos faz recordar o que esquecemos. Um poeta não quer dizer algo, ele vai lá e diz com os recursos que tem. A poesia nutrida pela vivência e olhar certeiro de quem foi colocado à margem, mas se recusa a ser ‘marginal’, e burilada com o dizê-la em voz alta e o ouvido aguçado, é mais do que necessária. É essencial.

Isso não impede que as flores de alvenaria de Vaz, flores belas lavradas por um pedreiro da linguagem, carreguem uma certa ingenuidade no dizer e uma busca incessante pelo amor e pela felicidade (afinal, ser felizes é o que queremos todos), mesmo que ele tenha que reconhecer: O final todos já sabem, foram infelizes para sempre.

Vale dizer que a poesia digna de nota passa sempre por algum tipo de ruptura, de violação. Pode ser contra a automatização da linguagem, ou a sua busca de aceitação e padronização nas normas e registros adequados.

Enquadro poético

Escrevo porque ouço vozes,
umas gritam de coragem, outras de medo,
e todas elas agitam em silêncio o meu coração.
Nada a ver com gramática,
estética, ética ou métrica,
escrevo porque em mim
a palavra é fio desencapado,
é elétrica.

A polícia acadêmica, quando enquadra,
não sabe ou esqueceu
que as ruas gritam livres
ainda que durma na calçada.

[...]

Poesia bebe fuma
não bebe não fuma
bate uma bola
joga sinuca
samba na laje
chora na chacina
e anda com o povo.

[...]

Vixe,
melhor ficar quieto
ouço sirenes…
Deve ser ozomi.

Ou apenas aquele tipo de violação que insiste em bradar altissonante numa região que, devido à violência, já foi considerada o Vietnã brasileiro: Agora que já deu tudo errado, tem tudo para dar certo.

Evoé!

 

 

Flores de alvenaria

Sérgio Vaz
Gobal Editora
177 págs.

 

 

 

 

.

Edson Cruz é escritor e editor do portal MUSA RARA (www.musarara.com.br). Graduado em Letras pela USP, publicou quatro livros de poesia, uma adaptação em prosa do clássico indiano Mahâbhârata e um livro de depoimentos sobre o que seria a Poesia. Seu livro  Ilhéu (Editora Patuá) foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Em 2016, lançou O canto verde das maritacas (poema, Editora Patuá). E-mail:sonartes@gmail.com




Comente o texto


*

Comente tambm via Facebook