A morte de Albert Camus


………….A RATIFICAÇÃO DO ABSURDO: A morte de Albert Camus

 

“Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”

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Há 50 anos, o absurdo que tanto ocupou o pensamento de Albert Camus se fez evidência inegável: o genial escritor franco-argelino (nascido em 1913) morreu, aos 46 anos, num acidente de carro. Para ele, existir essa era condição paradoxal: nada solicita ou justifica nossa presença no mundo, no entanto, como Sísifo em sua tarefa interminável, carregando sua mítica pedra, nós temos de esgotar o “campo do possível”, essa realidade contingente que é nosso único horizonte.

Essa visão camusiana das coisas e do humano dominou toda a minha adolescência. Atualmente, posso até ter idéias muito diferentes (a biologia prova que quem não muda, estaciona e morre), entretanto o que nunca mudou é a convicção de que ele foi um dos maiores escritores do século passado, com a sua linguagem precisa, lapidar, mais francesa do que a dos próprios franceses, na sua pureza clássica, que parece muito simples e fácil, muito solar, no entanto carrega consigo um lado oculto e permanentemente desafiador:

“Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.
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Na década de 30, quando começou a publicar, Camus misturava a forma do ensaio com pequenas e preciosas anedotas sobre o cotidiano e a paisagem argelinos, nos  belos textos que compõem O avesso e o direito e Núpcias.

Foi na França, durante a guerra e a ocupação alemã (contra a qual ele lutou como membro muito ativo da Resistência), no início dos anos 40, que vieram a lume seus dois livros paradigmáticos (após ele ter abandonado a escritura de A morte feliz, um romance fascinante publicado postumamente): O estrangeiro & O mito de Sísifo. O primeiro é um dos romances mais significativos da modernidade, descrevendo o que é a vida absurda. Para nós, que estamos vivendo dias infernalmente “ensolarados”, é fácil compreender por que o protagonista mata um árabe desconhecido: “por excesso de sol” na cabeça. No seu julgamento, ele é condenado não tanto pelo assassinato, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O segundo é o ensaio que justifica as idéias que movimentam o imaginário camusiano, escrito, aliás, num estilo magnífico e irretocável.

Tornando-se amigo de Sartre, Simone de Beauvoir, numa relação que ficará cada vez mais conturbada até um rompimento célebre (por conta da polarização política pós-guerra), Camus se dedicará ao teatro (deixando pelo menos uma peça clássica, Calígula, e notáveis adaptações de Dostoievski e Faulkner), publicará ainda dois romances inesquecíveis e impressionantes ,  A peste e A queda, os quais, infelizmente, se encontram um pouco eclipsados pela fama de O estrangeiro. Provando sua versatilidade, ainda exercitou várias técnicas no contos de O exílio e o reino (publicado no ano em que ganhou o Nobel, em 1957), voltou ao ensaio anedótico da juventude  no lindíssimo O verão, e sacudiu a intelectualidade francesa esquerdista com o corajoso, brilhante e irregular O homem revoltado, no qual o conceito de revolta (contraposto ao de revolução, no sentido marxista-leninista) veio complementar o de absurdo, que informava as suas primeiras obras.

Ao morrer, ele escrevia sua provável obra-prima suprema, O primeiro homem, publicada apenas em 1994, e que, ao narrar, de uma forma que só se pode caracterizar de mágica, suas origens familiares, mostra que o fatídico acidente de1960 foi absurdo até no sentido de nos privar de um autor no auge da sua forma.

 

 

[Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de fevereiro de 2010, em função do cinquentenário da morte de Camus]
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Alfredo Monte, 46 anos, é natural da Baixada Santista, corinthiano, doutor em teoria literária e literatura comparada, professor apaixonado pelo ensino fundamental e crítico literário do jornal A TRIBUNA de Santos há 19 anos. Mantém o blog literário Monte de Leituras há três anos. E-mail: armonte2001@yahoo.com.br




Comentários (2 comentários)

  1. Francisco Carlos Lopes, É verdade: A QUEDA foi eclipsado pela fama de O ESTRANGEIRO e é um livro muito superior a este. Superior a A PESTE, inclusive, onde o Dr. Rieux me parece muito afetado e discursivo. E os ensaios/crônicas isolados de NÚPCIAS, O VERÃO são magníficos. Afora O MITO DE SÍSIFO, essencial. Pena eu ainda não ter lido O PRIMEIRO HOMEM, de que você fala tão bem…
    4 fevereiro, 2013 as 14:01
  2. Jonas Nascimento, Concordo com sua opinião sobre o Primeiro Homem.A Queda também é excelente mas a obra de Camus infelizmente não é tratada como merece quando adolescente não o conhecer era uma lacuna hoje os mais jovens se envenenam com essas tais “sagas” puramente comerciais.
    9 fevereiro, 2013 as 17:50

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