A maldição da busca do coração da beleza


Jornalista alemão relata suas aventuras e desventuras à caça do mitológico João Gilberto.

João Gilberto completou 80 anos em 2011. Para celebrar a data chegou-se a anunciar uma turnê, com ingressos a preços exorbitantes. Não aconteceu. O cantor e violonista baiano adoeceu, uma gripe ou coisa que o valha impediu-o de realizá-la.

Pouco antes da quase-turnê, o jornalista alemão Marc Fischer empreendeu corajosa, obcecada, apaixonada e apaixonante viagem ao Brasil: queria encontrar João Gilberto e ouvi-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu centenário violão.

Ho-ba-la-lá, todos sabem, é título de uma das poucas músicas compostas por João Gilberto. Ele que pouco precisou fazê-lo, já que, espécie de Midas, transforma tudo o que toca em seu. Invariavelmente será de suas interpretações que lembraremos ao citarmos Chega de saudade e Garota de Ipanema, para ficarmos em apenas duas parcerias da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mesmo elas, sobretudo a segunda, tendo sido gravadas e regravadas milhares de vezes, around the world. O mito apropriou-se mesmo de canções de Cole Porter e Ernesto Lecuona.

Papa da Bossa Nova, João Gilberto é, direta ou indiretamente, responsável pela existência artística de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque e os Novos Baianos. Se os primeiros “tornaram-se” artistas após ouvir sua inconfundível batida, completamente nova e revolucionária, diferente de tudo o que se havia ouvido até então, os últimos abrasileiraram-se após terem ouvido Brasil Pandeiro, de Assis Valente – cuja gravação definitiva é deles –, que lhes foi apresentada por nosso personagem central.

É em busca de sua instigante e misteriosa figura que Marc Fischer passa alguns meses no Brasil, fazendo o que entrega o subtítulo de seu Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011, 183 p.]. Herdeiro do new journalism, detetive improvisado, a vida do jornalista alemão mudou completamente depois que ele ouviu, na casa de um amigo em Tóquio, ao LP Chega de saudade (1959), marco um da Bossa Nova – o zero é Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso, que no ano anterior reuniria pela primeira vez músicas de Tom Jobim, letras de Vinicius de Moraes e o violão de João Gilberto em duas faixas –, em especial a faixa que batizaria seu livro. Fischer foi contaminado por João Gilberto: “O vírus havia me contaminado” (p. 22).

Travestido de Sherlock Holmes – trata a assistente brasileira Rachel por Watson ao longo de sua narrativa – ele entrevista uma pá de nomes ligados ao mentor bossanovista: Garrincha, que durante anos lhe serviu o prato predileto, sempre pedido em telefonemas de, em média, 40 minutos (nunca se encontraram pessoalmente); Marcos Valle, autor de Samba de verão; João Donato, outro João, outro papa da música brasileira, com quem nosso protagonista meio que dividiu o início de carreira; Roberto Menescal, autor de diversos clássicos da Bossa Nova; Otávio Terceiro, espécie de faz-tudo joão-gilberteano; Cláudia Faissol, jornalista com quem João Gilberto tem uma filha e autora de um documentário – obviamente inédito – sobre ele; Anselmo, que canta e toca “exatamente” como João; Miúcha, ex-mulher, mãe de Bebel Gilberto…

Marc Fischer lê Ruy Castro – Chega de saudade, que ele considera a bíblia da Bossa Nova –, visita um Rio de Janeiro que já não tem o suposto charme da época do movimento musical – atualíssimo, ele estava aqui quando do lançamento de Tropa de Elite 2 –, tendo ido inclusive, saindo antes do fim, a uma festa para o elenco da saga teen Crepúsculo. Também viajou a Diamantina, no interior mineiro, para encontrar o banheiro em que João Gilberto havia encontrado sua batida diferente. “A Bossa Nova foi inventada na privada!” (p. 107), afirma em um capítulo.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinicius de Moraes), uma busca regada a álcool, cigarros, ideias – levadas a cabo ou abortadas –, planos, perseguições, telefonemas, internet – Marc Fischer tornou-se amigo de João Gilberto no Facebook, embora ninguém saiba até hoje se se trata ou não de um fake – e, antes de tudo, paixão. Tudo costurado em narrativa que, qual um bom disco – um disco de João? – nos desperta a vontade de apertar novamente o play, de devolver a agulha ao início: “melhor do que o silêncio só João” (Caetano Veloso). Contaminados pelo vírus de João Gilberto – ou de Marc Fischer (?) – quando nos vemos já estamos numa segunda leitura.

O alemão não queria uma entrevista, uma fotografia ao lado do ídolo, um autógrafo, nada disso. Queria apenas ouvi-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu violão. “Cada vez mais, avanço na direção do coração da Bossa Nova, que, para mim, é o coração da beleza. (…). O senhor toca sua obra-prima para mim, “Ho-ba-la-lá”, e eu desapareço em seguida. Não precisamos falar muito. Uma ideia maravilhosa, não é?” (p. 166), implora num bilhete. Acompanhá-lo em seu intento é mergulhar de cabeça numa trama com ar de romance policial: é ir ao encontro de quem não deseja ser encontrado.

O suicídio, capítulo curto de Ho-ba-la-lá, a princípio soa deslocado. Marc Fischer suicidou-se aos 40 anos, sem motivo aparente, “sem recado e sem bilhete” (Noel Rosa), sem ver o livro publicado. Roberto Menescal o havia advertido: “João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também. (…). De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre.” (p. 65).

Reler Marc Fischer, reouvir João Gilberto: bendita maldição!

 

 

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Zema Ribeiro escreve regularmente em seu blogue; texto publicado na edição de fevereiro de 2012 do jornal Vias de Fato, que chega às bancas e assinantes excepcionalmente hoje. E-mail: zemaribeiro@gmail.com




Comentários (3 comentários)

  1. jr balby, Grande Zema, bela estreia. Parabéns pelos fatos, o texto, como sempre, impecável.
    1 março, 2012 as 17:48
  2. zema ribeiro, hey, jr., obrigado pela boa sintonia, como diria ricarte. abração!
    1 março, 2012 as 20:16
  3. Rogério Tomaz Jr., Sinistramente insólito o fim do peixe…
    18 março, 2012 as 18:08

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