A lírica selvagem de Joyce Mansour



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O texto a seguir é meu prefácio de Gritos rasgos e rapinas: 23 poemas de Joyce Mansour, Lumme editor, 2011, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho. Relendo, achei que tinha interesse autônomo, por falar de surrealismo, do sagrado e profano, do arcaico e do novo; e informar sobre a poeta; por isso encaminhei para publicação. Mas leiam o livro – a poesia de Joyce Mansour, nessa primeira amostra brasileira, merece.

 

Esta coletânea marca a estreia em livro no Brasil – finalmente – de Joyce Mansour, poeta egípcia de língua francesa, nascida na Inglaterra em 1928, morta em Paris em 1986. Por sua obra extensa – 16 títulos de poesia e 5 de prosa – merece louvores a precisão com que Eclair Antonio de Almeida Filho selecionou os 23 poemas que a compõem, por ora deixando de lado seus monólogos extensos, na forma do poema dramático. Mas estão presentes o surrealismo intenso, visceral; o lirismo ambivalente, transformando cada poema em arena do confronto de Eros e Tanatos; a violência ao investir contra a moral, os bons costumes e as idéias recebidas; a religiosidade pagão e blasfematória; a equivalência verbal à nudez, à exposição total, pois, citando-a, “O amor não tem o que fazer do anonimato”; por isso, deve ser proclamado com ênfase.

Sua participação no surrealismo precisa ser destacada em face de um ambiente cultural que, alternadamente, intitula como “surrealista” tudo o que parecer estranho, obscuro, distante da norma, ou que oblitera esse vínculo quando seu reconhecimento contribuiria para situar o autor na devida perspectiva (quanto já se escreveu sobre Marcel Duchamp meramente vinculando-o ao movimento Dadá e abstraindo a presença e participação constante no surrealismo ao longo de toda a sua vida). Joyce Mansour foi a principal poeta ligada ao surrealismo francês, amiga próxima de André Breton, que se encantou com sua poesia desde a estréia com Cris em 1953, e presença constante em reuniões e atividades daquele movimento.  E, nesse contexto, foi uma espécie de oficiante da revitalização do surrealismo após a segunda guerra mundial, quando, dado como extinto ou decadente, esse movimento mostrou ser a alternativa aos pólos da guerra fria e a seus correlatos literários: o realismo socialista panfletário e o formalismo estéril e cerebral.

Como observa Alexandrian, outro surrealista, em História da literatura erótica – na qual Joyce Mansour encabeça o tópico intitulado “A revolta das mulheres surrealistas” , ela foi “a mais audaciosa”daquelas mulheres e daquelas surrealistas” pela “violência de suas confissões lésbicas” tanto quanto pela “crueza do desejo do homem”, além do “auto-erotismo” e do “sentimento das metamorfoses inquietantes”; e até mesmo por “espantosas sensações pré-natais”, acrescidas de sarcasmos; os componentes de uma “ferocidade jubilosa”.

Essas qualidades estão presentes em Gritos, rasgos e rapinas. Principalmente, as imagens poéticas, o “olho ofuscante de florações estranhas / O olho doente de imagens”, que vislumbra “Praias de silêncio flutuando como uma embriaguez”; nelas, “A maré sobre sob a lua cheia dos cegos” enquanto “nossos beijos morrem mais rápido que a noite”. São curtos-circuitos gerando clarões, para usar a metáfora de Breton nos Manifestos do Surrealismo.

São recorrentes as antinomias, paradoxos, oximoros – em uma evidente relação de continuidade com Baudelaire. Um exemplo, o “buraco [...] / De ébano e de marfim de sede e de sangue”. Outro, esta proclamação: “O primeiro poeta urinava seu amor”. E este confronto de paixão e destruição:
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Eu desfolhava o homem

O homem essa alcachofra envolta em óleo negro

Que eu lambo e apunhalo com minha língua bem polida

O homem que eu mato o homem que eu nego

Esse desconhecido que é meu irmão

E que me oferece a outra face.
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Os verso finais do trecho, com a menção à “outra face” e o “irmão”, permitem suspeitar que esse “homem” seja o Cristo, diante do qual a autora se põe na dupla posição da devota e do carrasco, lembrando O Heautontimoroumenos de Baudelaire: “Eu sou a faca e o talho atroz! / Eu sou o rosto e a bofetada! [...] / Eu sou a vítima e o algoz!”

Outros poemas expressam a mesma intensa religiosidade blasfematória. Apresenta-se como bruxa, oficiante de um culto sacrílego, ao oferecer sua versão da “main de gloire” dos grimórios (e do conto “A mão encantada” de Gérard de Nerval), a mão mágica que confere estranhos poderes a quem a produziu: “Plantei uma mão de criança” (e não de um condenado à morte, como na lenda tradicional) “em meu jardim de árvores floridas / Enterrei-a bem no solo fétido [...] / Sabendo que uma virgem brotará nesse lugar”.

A impressão de Joyce Mansour ser a oficiante de uma subversão religiosa, que “derruba o totem que titubeia / No medo tropical das igrejas”, é reforçada por aqueles recursos de retórica que dão qualidade litúrgica aos poemas, transformando-os em orações do avesso, como nesta apropriação do mote do Sermão da Montanha: “Bem aventurados os famélicos / [...] Bem aventurados aqueles a quem o ventre ordena / sacrifícios vis desesperos / [...] Bem aventurados os servidores do silêncio superior”.

Iconoclasta, investe contra as religiões institucionais e patriarcais por “Uma nova fé em lugares ancestrais”. Repare-se no contraste de nova e ancestrais: a negação do poder monoteísta permitirá o renascimento do paganismo, dos mitos e cultos arcaicos.

Estudiosos já escreveram sobre religiões matriarcais e telúricas, precedendo aquelas patriarcais. É a “deusa da montanha” de Alain Danièlou; ou a “Deusa Branca” de Robert Graves; mas a deusa invocada pela poeta, é negra, contrapondo-se à falsa claridade do iluminismo, pois “Cinza é a aurora / [...] cinza a razão”.

Não se deve atribuir ou imputar ao surrealismo, e a Joyce Mansour em particular, a restauração de doutrinas religiosas. Como já havia bem observado Jules Monnerot, em La poésie moderne et le sacré, essa pilhagem de símbolos corresponde a uma tentativa de ir além; de alcançar o impossível; de realizar plenamente a utopia. Ganha a poesia, vitalizada por essa transgressão radical.

 

 

 

 

 

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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Traduziu parcialmente Ginsberg e Artaud, e a obra completa de Lautréamont. Publicou também, entre outros,  ‘Geração Beat’, L&PM Pocket, 2009. É um dos editores da Agulha. E-mail: cjwiller@uol.com.br.

 




Comentários (2 comentários)

  1. NOVAS NA MUSA, [...] A lírica selvagem de Joyce Mansour [...]
    16 abril, 2012 as 16:10
  2. Alguns links interessantes « Claudio Willer, [...] Meu prefácio para esta recém-saída edição da poeta franco-egípcia surrealista Joyce Mansour, Gritos rasgos e rapinas, -pela editora Lumme, publicado em Musa rara de Edson Cruz: http://www.musarara.com.br/a-lirica-selvagem-de-joyce-mansour [...]
    18 abril, 2012 as 14:34

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