A imagem em Murilo Mendes


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Murilo Mendes é, sem dúvida nenhuma, um de nossos grandes poetas. Tão grande quanto um Drummond, um Bandeira, ou um João Cabral. A sua obra é por si só uma literatura inteira, com todos os seus meandros e revelações. O grande público a desconhece e é uma pena. Talvez, porque sua obra seja uma das mais difíceis e em sua abundância, um tanto irregular. Obra de caráter mais subversivo do que organizador.

Em sua concepção poética podemos distinguir, além de outros procedimentos tão importantes quanto, uma valorização da imagem que certamente advém do diálogo que sua poesia trava com outras artes, preferencialmente com as artes plásticas e dentro dela o movimento que lhe foi contemporâneo: o Surrealismo.

Antes de especificarmos o que foi o movimento denominado de Surrealismo e como a poesia de Murilo se relacionou com ele, devemos partir de uma compreensão mais geral do que seria a imagem poética.

Na poesia a estrutura sintática é apenas acessória, em estado de latência, sempre submetida a ordenações e desordenações rítmicas e métricas. As palavras despem-se, então, de sua logicidade e denotações revelando, ou melhor, sugerindo produtos imaginários que chamamos de imagem. Em outras palavras, a linguagem poética é em sua essência conotativa.

Cada poema, com suas imagens, contém inúmeros significados contrários ou díspares, aos quais engloba reconciliando-os sem suprimi-los. A imagem poética tem sentido em diversos níveis, criando a sua própria lógica e revelando uma verdade estética. A imagem poética não quer dizer algo, ela vai direto ao ponto. Ela diz.

O Surrealismo foi um movimento que podemos chamar de cultural, contaminando a literatura e a arte, que se caracterizou pelo desprezo das construções elaboradas logicamente e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional, do sonho, de estados alterados, sorvendo avidamente as descobertas da psicanálise.

Embora eu o chame de cultural, há críticos como José Guilherme Merquior, que consideram o projeto surreal, em sua substância, não estético, “mas sim de cunho, antes de tudo, existencial”.

A criação surrealista baseava-se na associação de idéias articulada à noção de arbitrariedade. No Manifesto Surrealista de 1924 essa perspectiva se explicitou:

É da aproximação, de alguma maneira fortuita, de dois termos que brota uma luz particular, luz da imagem, à qual nos mostramos infinitamente sensíveis. O valor da imagem depende da beleza da faísca obtida; ela é, conseqüentemente, função da diferença de potencial entre os dois condutores.

Este encontro ‘fortuito’ de duas realidades, inicialmente distantes, em um outro plano, leva a uma afinidade entre a busca da imagem poética e os procedimentos surrealistas utilizados na fotomontagem e na colagem.

A ordem inicial das coisas, nestes procedimentos, é destruída buscando-se um rearranjo que possibilite sentidos novos, ou antes, negligenciados.

Em seu texto Arquitetura da Memória, presente no livro de crítica literária O cacto e as ruínas (Duas Cidades, 2000), Davi Arrigucci Jr. pontua a questão da imagem no Surrealismo da seguinte forma:

A imagem se situa, portanto, no centro da visão surrealista. Funciona como a verdadeira fórmula do princípio de identidade, propiciando a fusão dos opostos que nela e por ela se transfiguram, ligando e transcendendo as pontas soltas do universo. Em cada imagem há como que uma aspiração totalizante, desejo alado daquele ponto surrealista, referido no segundo manifesto do movimento, de onde toda contradição deixaria de ser percebida enquanto tal.

Estes procedimentos influenciaram sobremaneira a busca poética de um poeta culto e cosmopolita como Murilo Mendes, que não só viveu bastante tempo na Europa, como também escreveu um livro em francês e outro em italiano. Sua poesia abrange as experiências de Rimbaud, Apollinaire e os, assim chamados, Surrealistas.

O próprio Murilo nos fala sobre sua elaboração imagética:

Certo da extraordinária riqueza da metáfora – que alguns querem até identificar com a própria linguagem – tratei de instalá-la no poema com toda a sua carga de força. Preocupei-me com a aproximação de elementos contrários, a aliança dos extremos, pelo que dispus muitas vezes o poema como um agente capaz de manifestar dialeticamente essa conciliação, produzindo choques pelo contato da idéia e do objeto díspares, do raro e do quotidiano etc.

Notamos assim em Murilo, uma escrita onírica marcadamente surrealista e uma contemplação do mundo ostensivamente plástica.

Se nos ativermos ao seu emblemático poema Janela do Caos que fecha seu livro de 1947, Poesia Liberdade, veremos que o mesmo foi composto em onze partes que num primeiro momento parecem uma caótica justaposição de fragmentos. Vale dizer para este poema o que diz Alfredo Bosi em relação à obra de Murilo Mendes: “o efeito estético só não é do puro caos porque o poeta recompõe os mil estilhaços de sua imaginação em um vitral desmesurado de crente surrealista”.

O próprio título do poema já denuncia o procedimento e o que iremos mirar: imagens descontínuas e justapostas num Egito de corredores aéreos. Um presente narrativo que se desloca abruptamente misturando as referências espaciais e temporais, e os planos da narração e da descrição.

Seu poema é a prática da ‘conciliação de contrários’, uma mistura livre do abstrato e do concreto, do real e do sonho: Ah! Quem telefonaria o consolo, /O puro orvalho /E a carruagem de cristal. …Enigma, inocência bárbara, /Pássaros galopando elementos.

Como muito bem observou Murilo Marcondes de Moura, em sua tese sobre a poesia de Murilo Mendes, “ao longo das onze partes do poema, divisão e unidade se pressupõem todo o tempo e é esse o seu conflito mais visível, por assim dizer, a espinha dorsal em torno da qual os diferentes significados se organizam”.

Já em seu primeiro livro de 1930, Poemas, nos deparamos com o seguinte poema de invenção claramente surrealista:

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abiu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

Podemos compará-lo com a versão prosaica do mesmo tema em seu livro de memórias A idade do serrote, de 1968:

Minha mãe, afeiçoada ao canto e ao piano,
morre de parto com vinte e oito anos.
Torna-se constelação…

Tirando a última frase, de feição mais poética, nota-se em contraste a força das imagens poéticas conseguidas no poema, que revelam, a meu ver, o cerne da poesia como uma arte criadora, cuja função essencial é a de possibilitar uma maior ampliação do campo da consciência.

De maneira geral, observamos nos poemas de Murilo Mendes, que ele soube, como ressalta Merquior, orientar ‘decisivamente a mescla estilística inerente à poética surreal – a tensão, no verso, entre a visão “problemática” da vida e as múltiplas referências ao reino do cotidiano e do vulgar – para uma ótica saturnal’.

De seu livro As Metamorfoses, que podemos considerar o que mais se aproxima de uma poética surrealista com todas as características acima levantadas por Merquior, até o poema Janela do Caos que fecha seu livro Poesia Liberdade, pode-se identificar esta orientação para uma ótica saturnal, após a qual sua obra aparenta ser outra. Embora neste poema fique bem característico um dos métodos principais de criação de Murilo, ou seja, as imagens – ou fragmentos – em combinatória revelando a descontinuidade e justaposição em técnica criativa.

A obra de Murilo explicitada neste poema revela-nos que a arte é talvez a forma mais adequada, e creio que mais eficaz, de transcender a manifestação caótica do mundo e da vida. Sua poesia urge ser conhecida e amada como uma das grandes produções da língua portuguesa.

 

JANELA DO CAOS

1

Tudo se passa

Em Egitos de corredores aéreos

Em galerias sem lâmpadas

À espera de que Alguém

Desfira o violoncelo

- Ou teu coração?

Azul de guerra.

 

2

 

Telefonam embrulhos,

Telefonam lamentos,

Inúteis encontros,

Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo.

O puro orvalho

E a carruagem de cristal.

 

3

 

Tu não carregaste pianos

Nem carregaste pedras.

Mas na tua alma subsiste

- Ninguém se recorda

E as praias antecedentes ouviram -

O canto dos carregadores de pianos,

O canto dos carregadores de pedras.

 

4

 

O céu cai das pombas.

Ecos de uma banda de música

Voam da casa dos expostos.

Não serás antepassado

Porque não tiveste filhos:

Sempre serás futuro para os poetas.

Ao longe o mar reduzido

Balindo inocente.

 

5

 

Harmonia do terror

Quando a alma destrói o perdão

E o ciclo das flores se fecha

No particular e no geral:

Nenhum som de flauta,

Nem mesmo um templo grego

Sobre colina azul

Decidiria o gesto recuperador.

Fome, litoral sem coros,

Duro parto da morte.

A terra abre-se em sangue,

Abandona o branco Abel

Oculto de Deus.

 

6

 

A infância vem da eternidade.

Depois só a morte magnífica

- Destruição da mordaça:

E talvez já a tivesse entrevisto

Quando brincavas com o pião

Ou quando desmontaste o besouro.

Entre duas eternidades

Balançam-se espantosas

Fome de amor e a música:

Rude doçura,

Última passagem livre.

Só vemos o céu pelo avesso.

 

7

 

Cai das sombras das pirâmides

Este desejo de obscuridade.

Enigma, inocência, bárbara,

Pássaros galopando elementos

Do fundo céu

Irrompem nuvens eqüestres.

Onde estão os braços comunicantes

E os pára-quedistas da justiça?

Vultos encouraçados presidem

À sabotagem das harpas.

 

8

 

Que esperam todos?

O vento dos crimes noturnos

Destrói augustas colheitas

Águas ásperas bravias

Fertilizam os cemitérios.

As mães despejam do ventre

Os fantasmas de outra guerra.

Nenhum sinal de aliança

Sobre a mesa aniquilada

Ondas de púrpura

Levantai-vos do homem

 

9

 

Penacho da alma,

Antiga tradição futura:

?Se a alma não tem penacho

Resiste ao Destruidor?

 

10

 

A velocidade se opõe

À nudez essencial.

Para merecer o rompimento dos selos

É preciso trabalhar a coroa de espinhos.

Senão te abandonam por aí,

Sozinho, com os cadáveres de teus livros.

 

11

 

Pêndulo que marcas o compasso

Do desengano e solidão,

Cede o lugar aos tubos do órgão soberano

Que ultrapassa o tempo:

Pulsação da humanidade

Que desde a origem até o fim

Procura entre tédios e lágrimas.

Pela carne miserável,

Entre colares de sangue,

Entre incertezas e abismos;

Entre fadiga e prazer.

A bem-aventurança.

Além dos mares, além dos ares,

Desde as origens até o fim,

Além das lutas, embaladores,

Coros serenos de vozes mistas,

De funda esperança e branca harmonia

Subindo vão.

 

 

[Murilo Mendes, Melhores Poemas, Global Editora, São Paulo, 1995]

 

 

 

 

 

 

 

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Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta, editor e revisor. Desgraduou-se em muitas coisas: Psicologia, Música e Letras. Foi fundador e editor do site de literatura Cronópios (até meados de 2009) e da revista literária Mnemozine. É professor no Curso de Criação Literária, da UnicSul/Terracota Editora, no módulo Poema. Lançou em 2007, Sortilégio (poesia), pelo selo Demônio Negro/Annablume e, como organizador, O que é poesia?, pela Confraria do Vento/Calibán. Lançou, também, uma adaptação do épico indiano, Mahâbhârata, pela Paulinas Editora. Em 2011, lançou Sambaqui, livro contemplado pela Bolsa de Criação da Petrobras Cultural. Em janeiro de 2012, colocou no ar seu novo projeto: o site MUSA RARA. Escreve com frequência no blog: http://sambaquis.blogspot.com E-mail: sonartes@gmail.com




Comentários (7 comentários)

  1. Chiu Yi Chih, Grande poeta Murilo Mendes, que merece ser evocado, lido e relido. Excelente ensaio, Edson Cruz!
    2 julho, 2012 as 22:53
  2. ronald augusto, beleza, edson. sempre é uma maravilha reler os murilogramas do mineiro transístor. abraço!
    4 julho, 2012 as 15:06
  3. Marcia Barbieri, Lúcido ensaio sobre o grande Murilo Mendes. Você tem toda razão, é um poeta que deveria ser mais enaltecido e reverenciado. Acredito que o poeta cumpre sua função quando consegue suprimir as palavras e continuar poeta, quando consegue nos proporcionar uma imagem, que surreal ou não, possa ser sentida, cheirada e tocada.
    5 julho, 2012 as 2:28
  4. Ricardo Primo Portugal, Caro Edson, Parabéns por um texto muito oportuno. Sempre é bom lembrar de Murilo Mendes, que também é um dos poetas que mais fizeram minha cabeça, desde sempre. Principalmente o seu livro Convergências, os grafitos, é um livro de cabeceira para mim, que recomendo vivamente. Um abraço.
    5 julho, 2012 as 3:58
  5. CHICO LOPES, Murilo sempre foi grande e ótimo você lembrá-lo aqui. A riqueza e a surpresa de suas imagens são de um eterno frescor. Parabéns pelo ensaio
    5 julho, 2012 as 11:16
  6. Daniel Lopes, Um ensaio minucioso, Edson, sobre um daqueles que, como vc mesmo disse no início do texto, podemos chamar de mestre. Da mesma estatura de Drummond, Cabral Bandeira. Parabéns
    5 julho, 2012 as 22:11
  7. neuza pinheiro, é sempre tão bom ler sobre Murilo Mendes. Belo ensaio, Edson.
    12 julho, 2012 as 19:37

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