A filha e a boa morte


Ofélia vai lá levar uma refeição por dia: vizinho ajudando vizinho, questão de solidariedade. Costuma receber o dinheiro da matéria-prima e dar o trabalho de graça — diz. O caldo de frango com macarrão estrelinha é para o doente; a berinjela recheada, para a filha dele. Todo dia faz uma quantidade que dê para almoço e jantar, de tal modo que este é reprise daquele, se bem que a filha à noite só tome lanche. Aos domingos, bife rolê no caldo de macarrão e maionese: para os dois. Deposita na pia as marmitas embrulhadas em pano de prato imaculado, com um nó em cima, e fica parada à espera da filha do doente, que lida lá no quarto. Tem liberdade para andar pela casa toda, mas não entra naquele quarto, pois não suporta o cheiro de mijo que há lá. Mão no queixo, sobrancelhas em acento circunflexo, expressão de caridade e compaixão: coitada dessa moça, tantos anos cuidando do pai que não morre, este armário branco bem que merecia uma limpeza por fora e por dentro, aquilo ali atrás da travessa parece cocô de rato, olhando melhor, não, não é, é um pouquinho de chá mate que caiu. Esta gaveta, olha só a sujeira, qualquer dia quem sabe venho aqui com mais tempo para dar uma faxina… os passos da moça no corredor, Ofélia fecha a porta do armário e empurra a gaveta.

– Bom, já vou indo, está tudo quentinho… O que você me deve é pouca coisa, o dinheiro deu quase certo este mês, se bem que tudo aumentou por causa da chuva demais, como choveu, gente, mas não se preocupe, amanhã você acerta. Como ele está? Melhorzinho hoje? A vida é assim, minha filha, reze, reze. Faça uma novena a Nossa Senhora da Boa Morte, como eu fiz para o meu marido, que graças a ela se foi logo e sem sofrimento… ah, ele está chamando, vai lá, vai lá, ele te ama muito, coitada, não pode sair do lado da cama, eu já vou indo, até amanhã.

No quarto, um pai e uma cama, o pai morrendo pingo a pingo, de um mal que tem um nome novo a cada médico, um mal e uma cama, por baixo da cama um penico que recebe os pingos da urina sanguinolenta despejados por uma cânula, urina com cheiro acre de papel celofane queimando, urina que ele já não retém, só retém a vida que nem caranguejo, que, quando todo o mundo acha que está morto ainda se mexe, ou que nem barata num canto da casa, de patas vibráteis para o alto dias e dias.

Quem morreu de boa morte foi o pai daquele pai — a filha sempre ouviu dizer —, pois morreu dormindo, ou melhor, quando acordou se percebeu morto na cama ao lado da cama do filho, que se fingia de morto dormindo; então se virou para o outro lado e continuou morrendo, morrendo, até de manhã ser encontrado frio e duro, com os joelhos dobrados e a mão debaixo do rosto, segurando o riso, como fazia sempre que tirava o sarro da cara de alguém, sabendo daquela vez o trabalho que ia dar para ser ajustado ao caixão. Mas aquele pai do pai era homem de sair rindo; este, de só ficar.

Dois homens, uma mesma cama, só esta igual a si mesma cinquenta anos a fio e seguidinhos.

A filha gira-gira a manivela para pôr a cama na posição de pai sentado e, sentada ela na cadeira em frente, começa o exercício infindo de levar a colher do prato à boca dele e da boca dele ao prato, no ritmo certo que faz a boca se abrir, já engolida a comida da colher anterior, toda vez que a nova colherada chegue perto, embora a colher nem mesmo toque a pele do queixo mal barbeado e embora os olhos dele estejam sempre fechados. E assim mesmo, de olhos fechados, ele vê tudo. Enquanto ele, mastigando, lhe deixa tempo, a filha olha o teto (pedaço tão duro de carne, será coxão-duro que Ofélia meteu nesta sopa? — e eu que paguei por coxão-mole…), e vai olhando, olhando, como distraída, porque o pai mastiga e mastiga, até que entre uma colher e outra acaba por olhar o que não queria pela porta aberta: a sempre-ali estátua de mulher nua, estátua de mais de século, dizia o pai, preta e lustrosa de ébano, arrematada em leilão pelo pai do pai, seios plenos e redondos, ancas largas, coxas juntas, o V do sexo bem recheadinho, que ela não pode ficar olhando muito tempo, porque os olhos fechados do pai devem estar fitando os olhos dela nas pregas das pernas da estátua preta, mesmo porque a boca dele já se abre outra vez, e a colher deve entrar.

Barulhos só os da rua. Dentro de casa, sempre silêncio agora, mas não antes, quando na hora do jantar, principalmente, o tilintar de talheres, o baticum de pratos, o vozerio eram do tamanho de trazer vizinhos ao muro. E nem tantas pessoas moravam naquela casa. Casa em travessa de um bairro que sempre teve nome, mas que para ela na infância e ainda hoje só tem apelido: vizinhança, sinônimo de interminável lambança de maledicências e afagos que de portão a portão viajam cosidos de boca em boca, como contas de um colar de vento, numa promiscuidade de gestos que embolam mães, filhos, tias e genros. Todos pertencem a um corpo que se move segundo princípios mal conhecidos, mas bem compreendidos por todas as células. Fugir daqueles destinos é morte social, e o corpo todo se movimenta segundo uma dança descompassada mas previamente acertada. Para eles, o ritmo do mundo. E quem entra nesse mundo pega o mesmo cheiro, o mesmo estado de espírito vilão-cristão-pagão, sempre cheio de certezas e gesticulações. O que ela aprendeu no mundo lá está e fica. Mundo com o qual ela só se roçou e nada mais, correndo ele a alguns centímetros de seus pés parados junto ao branco encardido do armário, ao fogão borrado de café, à louça escorrendo na pia, à torneira pingando, aos ladrilhos verde-brancos, ao tapete de linóleo do corredor, às camas, ao ato de aflorar as coisas, de pegar a comida, de comer, de se afastar lentamente, de se deitar e de ficar novamente imóvel, olhando a estátua negra, de descuidar o pai que já ressona, de recontar da cama ao lado os pingos no penico embaixo… pingos caindo da cânula um, dois, três, quatro, a porta aberta, a mulher negra vista de lá, a estátua podendo quem sabe sair do corredor e ir para o outro quarto vazio, junto aos pertences dos mortos da família, sendo talvez bom limpar os armários todos com sabão de coco, podendo Ofélia fazer isso depois de amanhã…

Alguém bate à porta, a filha se levanta, vai atender: Ofélia entra no quarto sem reclamar (pela primeira vez em tanto tempo, não sentindo talvez o cheiro do mijo, que no entanto continua lá), senta-se ao pé da cama, convida a filha a ficar onde estava, à vontade, e diz solene:

— Ele só vai morrer quando você deixar.

E entrega um papel: — Esta é a reza que você deve fazer a Nossa Senhora da Boa Morte, porque ninguém merece ficar desse jeito numa cama, e você também não merece ficar presa a esse homem que tanto desgosto lhe deu, sei muito bem das ofensas e do desprezo dele, daquela mania de botar mulher debaixo de cu de mosquito, você e sua mãe, de dizer que aquela estátua ali do corredor era muito mais bonita que as duas juntas… — Ofélia falando e a filha concordando — E lembra daquela vez que trouxe aqui um sujeito de cinquenta anos (e tinha cabimento?), a quem devia dinheiro, para te casar com ele, você com vinte anos (e só porque lhe devia dinheiro, uns quebrados), casamento que só não aconteceu porque o homem percebeu a tua má vontade (ainda bem que era um sujeito de bom coração) — Ofélia falando, falando —, e eu bem que percebi o jeito de cobiça que ele olhou para as tuas pernas (olhar de quem quer mas precisa dizer não), porque malfeita de corpo você nunca foi, e todo o mundo sabia daquele teu namorado (aquele, lembra?) — sim, ela lembrando e sentindo muita vontade de chorar e já chorando, e chorando se levantando — Ofélia também: Ele só há de morrer quando você deixar, deixar, deixar — Ofélia falando e indo para o corredor, ela indo também e tentando levantar a estátua, que não se mexe, pregada no chão em simbiose com a casa e Ofélia dizendo: — se esta estátua for levantada a casa desmorona —, Ofélia descendo os degraus e já fechando a porta sem fechar, a filha largando a estátua se metendo pelo vão da porta para sair também e já saindo, sentindo a brisa fresca da rua (deixar, deixar), Ofélia forçando a porta para fechar, ela forçando para abrir, a porta se abrindo, ela pisando na calçada (deixar, deixar), mas então o grito ecoando de dentro dela-da-casa:

— Sandra!

A filha abrindo os olhos: o penico transbordando.

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Ivone Benedetti nasceu em São Paulo. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. Ali também defendeu tese de doutorado em 2004, pelo Departamento de Letras Modernas, Francês: Charles d’Orléans, tradução de uma poética, em que fez um estudo da obra desse poeta medieval francês e da tradução de sua poesia. É tradutora e escritora. Trabalhou para várias grandes editoras brasileiras, entre as quais WMF Martins Fontes, L&PM, Objetiva, Paz e Terra, Estação Liberdade, além de vários institutos e fundações: OSESP, Tomie Ohtake, Bienal. Pela WMF Martins Fontes integrou a equipe de produção de vários dicionários, entre os quais o dicionário Martins Fontes de italiano-português. Em 2009 estreou como ficcionista, lançando o romance Immaculada, pela WMF Martins Fontes, que foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2010, categoria estreante. Em 2011 lançou o livro de contos Tenho um cavalo alfaraz, também pela WMF Martins Fontes. Tem contos publicados na revista Cult e no jornal Rascunho. Está em fase de finalização o seu segundo romance, ainda sem título definido. E-mail: ivonecbenedetti@gmail.com Site: http://www.ivonecbenedetti.com.br/




Comentários (6 comentários)

  1. Ana Maria T.N.Furtado, Gostei do texto.todo sinuoso,insinuado como o corpo e a alma da Sandra.Muito bom,Ivone.Muito bom.
    17 janeiro, 2012 as 0:19
  2. Ivone, Obrigada, Ana. Grande abraço.
    17 janeiro, 2012 as 11:01
  3. CHICO LOPES, Ivone: A agonia do pai. Esse homem que é de ficar, não de ir. A estátua que pode por tudo a desmoronar. A precisão do cheiro de mijo, da cânula com sangue. Tudo isso e mais traz um conto pra gente sentir e pensar, com esse misto de crueldade e compaixão que é bem teu. Parabéns. Fico esperando esse segundo romance, depois de ler o “Immaculada” e também os contos do “Alfaraz”…
    7 fevereiro, 2012 as 12:08
  4. Ivone, Obrigada, Chico. É uma honra receber um comentário de um excelente contista como você.
    7 fevereiro, 2012 as 12:17
  5. Ré – um conto da série Femina no Musa Rara « A Grenha, [...] é o segundo conto da série Femina, que está sendo publicada no site Musa Rara. O primeiro foi A filha e a boa morte. São mulheres. Aquelas que nos cercam, com suas dores imensas, que só em vidas [...]
    19 fevereiro, 2012 as 12:05
  6. Ana Dorsa, Gostei! É visual e literário.
    6 março, 2012 as 1:10

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