A ensaísta Lucila Nogueira


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Lucila Nogueira, famosa por sua poesia de cunho mitológico e performático, ainda não é devidamente conhecida como ensaísta. Na verdade, a autora, por ter sido professora da UFPE (faleceu em 2016), e mesmo antes,  também desenvolveu o viés crítico, sendo seus livros mais bem escritos, merecendo aqui destaque, a sua dissertação de mestrado transformada em livro e publicada em 2002, Ideologia e forma literária em Carlos Drummond de Andrade (2002), já na sua terceira edição. Além desses, A lenda de Fernando Pessoa (2003) e O Cordão Encarnado, uma leitura Severina, sua tese de doutorado, também pela UFPE, em 2010, objetos de nossa análise nessa comunicação.

Num acepção mais simples, ensaio é um texto literário breve, situado entre o poético e o didático, expondo ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas a respeito de certo tema. É menos formal e mais flexível que o tratado. Caracteriza-se por uma forma mais solta de tratar um teme e, no caso da literatura, geralmente versa sobre livros de poesia ou narrativa ou mesmo de crítica literária.

Entre textos publicados em jornais e revistas ao longo de sua carreira literária, que começou em 1979, destacam-se três livros de crítica literária. São ensaios literários, adaptados de estudos (sobre Fernando Pessoa) ou textos acadêmicos (dissertação de mestrado e tese de doutorado) que a autora transformou em livros de ensaios com linguagem mais acessível e menos conceitos teóricos desnecessários que tornam sua leitura cansativa.

Primeiramente, falemos sobre A lenda de Fernando Pessoa. Objeto já estudado por inúmeros críticos em língua portuguesa e em outros idiomas, como Inglês, a novidade desse estudo de Lucila é aprofundar o envolvimento do poeta português com temas ocultistas e esotéricos. Segundo o crítico José Rodrigues de Paiva, no prefácio do mesmo:

O ensaio A lenda de Fernando Pessoa foi escrito por LucA ensaila em 1985, ano do cinquentenário da morte do poeta dos heterônimos, para com ele participar do concurso literário instituído pelo Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, no âmbito das celebrações então realizadas. [...] O imenso acervo ensaístico, extraordinário e verdadeiramente oceânico manancial crítico que constitui a vastíssima fortuna bibliográfica acumulada em torno da análise e interpretação da obra de Pessoa, não inibiu a iniciativa de Lucila (NOGUEIRA, 2003, p. 10).

Dessa forma, falando sobre a natureza ocultista e mística dessa obra, em suas diferentes facetas,  José Rodrigues de Paiva (NOGUEIRA, 2003):

Na sintética economia do texto, que preserva as características originárias impostas pela destinação que esteve na origem de sua escrita, a autora aponta para as principais vias interpretativas da poética pessoana. Uma via de natureza mais “lendária” – talvez principal justificativa do título do ensaio – que relaciona Pessoa com os mistérios orientalistas, a sabedoria budista, a iniciação maçônica, a filosofia rosa-cruz, a cabala, a egiptologia, o esoterismo, a alquimia a astronomia, a mitologia celta, a mística judaico-cristã que vem desaguar em Antônio Vieira, no Quinto Império em alonga espera por Dom Sebastião (NOGUEIRA, 2003, P. 11).

Ou seja, o caráter mítico de Fernando Pessoa é desvelado pela poeta-ensaísta, tratando temas que recebem tabu pela academia por revelarem uma identidade religiosa pouco convencional no poeta modernista português. Nesse sentido, tais estudos corroboram a via de natureza psicanalista que pretende explicar cientificamente questões de histero-neurastenia e os fenômenos dos heterônimos em sua dimensão espiritualista, paranormal ou esotéricas:

Levando-se em conta que, no universo, nada está parado – tudo se move – é compreensível que toda manifestação do pensamento, emoção ou vontade seja acompanhada por vibrações em maior ou menor grau. Daí inclusive o fenômeno entre os seres vivos da telepatia, hipnotismo ou indução mental. As coisas vibram da ação para reação, do nascimento para a morte, as nações se elevam e caem, o homem se deprime, com a “expiração e inspiração de Brahma”; seu ritmo é a compensação, e o eu é a matriz mental capaz de criar a geração mental: a mente dupla tem o princípio masculino da vontade que exala energia vibratória para o princípio feminino da criação” (Idem, P. 32)

Segundo Lucila, “a energia infinita e eterna da qual todas as coisas procedem, as vibrações da mente, a ilusão da morte, nenhum desses princípios lhe foi desconhecido. Até mesmo na fixidez dos heterônimos claramente divisamos a associação da lei do paradoxo ao princípio da correspondência: Alberto Caeiro são imagens mentais de Fernando Pessoa, mas este é iminente a todos eles, que representam o espírito do seu criador e, simultaneamente, constituem uma realidade em si mesma. Pois uma das metas do desenvolvimento espiritual é que o homem reconheça, realize e manifeste o espírito que está presente no seu ser” (NOGUEIRA, 2003, p. 31). É essa sagacidade, esse espírito crítico intrépido, que fala de coisas não convencionais na literatura, uma das características da ensaística de Lucila Nogueira.

O outro livro por nós escolhido para essa prelação, O cordel encarnado (2010), é uma análise da obra de João Cabral pelo viés da Literatura e sociedade, linha que, por sua vez, advém da Sociocrítica. Pulando maiores divagações sobre o conceito e partimos de Taine, Madame de Ständel para o mais moderno de seus estudiosos, George Lukacs, que trabalhou o romance pelo viés sociológico.  Desse modo, A teoria do romance , de Georg Lukács, foi publicada pela primeira vez em livro em 1920, embora tenha aparecido antes na Zeitschrift für Ästhetik und allgemeine Kunstwissenschaft [Revista de estética e de ciência geral da arte] e tenha sido redigida entre 1914 e 1915. A  motivação para sua escrita, segundo o prefácio à edição de 1962, teria sido a eclosão da primeira guerra mundial em 1914. Trata-se, portanto, de um impulso intelectual que aparentemente ainda está distante da extração marxista pela qual o autor orientou-se posteriormente. Mesmo assim, o próprio Lukács, no mesmo prefácio, assume que as preocupações de matriz marxista já estavam ali presentes de forma embrionária, pois, como o subtítulo da obra deixa entrever, a tônica dada é a histórico-filosófica.

Teoria e crítica se mesclam nesta obra cuja divisão oferece duas perspectivas: uma teórica com intenções filosóficas (“As formas da grande épica em sua relação com o caráter fechado ou problemático da cultura como um todo”) e uma classificatória (“Ensaio de uma tipologia da forma romanesca”), tomando por base algumas obras. Ao estudar o modo como um gênero literário (seu aparecimento, enfraquecimento ou transformação) está sujeito a injunções culturais e históricas e ao esboçar uma tipologia do gênero com base em pressupostos filosóficos que elegem o indivíduo e seu entorno como motivo, Lukács estaria lançando as bases teóricas do que se configuraria nas diferentes orientações da sociologia da literatura ao longo do século XX, chegando a ser considerado por Lucien Goldmann como o verdadeiro iniciador da sociologia da literatura.

É importante ressaltar que o campo metodológico da sociologia da literatura se ampliou a partir da contribuição de diversos pensadores, tais como Walter Benjamin, Theodor Adorno, Arnold Hauser, Jean-Paul Sartre, entre outros. Se, por um lado, estas contribuições geraram divergências metodológicas, por outro se demonstrou a possibilidade de investigar as relações entre literatura e sociedade delimitando campos específicos de pesquisa (algumas vezes em diálogo com outros campos), dando à sociologia da literatura uma amplidão de perspectivas investigativas tão diversificadas quanto as da sociologia (ARAÚJO NETO, 2007).

Assim, com a publicação do livro O cordel encarnado (2010), partindo desses conceitos, podemos perceber Lucila como uma intelectual crítica que inova com uma nova visão da poesia cabralina: o viés sócio-literario. A ensaísta promova uma análise de Morte e Vida Severina e O Cão sem Plumas, dois famosos poemas de Cabral, como meios de compreender a mitologia do Nordeste além da imagem tradicionalmente associada á interpretaçoes deles, como o homem retirante e da cidade grande, Recife.

Desse modo, O Cão sem Plumas é a metáfora do Capibaribe (NOGUEIRA, 2010, p. 12). Numa belíssima e lúcida leitura de imagens simbólicas do Rio e do Recife (Idem, p.15-16), Lucila cita autores coo Mircea Eliade, Pierre Brunuel, chegando a conclusão de que esse poema de Cabral não faz parte do surrealismo, embora muitos ainda o enxerguem dessa forma (Idem, p. 26).assim a autora promove á p. 36 do referido ensaio, uma análise que liga vida à obra de Cabral, num leitura crítica profissional e incontestável.

Voltando ao poema Morte e Vida Severina, percebemos ainda que o põem se traduz num auto de natal, numa epifania da mensagem salvífica cristã através da reencarnação poética do presépio de natal (Idem, p. 277):

Do ponto de vista da literatura brasileira, deve ser resgatada a importância de Morte e Vida Severina, inserida num contexto libertário de nossa produção intelectual dos anos cinquenta/sessenta; que se compreenda em João Cabral de Melo Neto o duro ofício de sofrer calado, cercado de artifícios indissociáveis da profissão  de diplomata, cautelas e subterfúgios garantidores de uma imunidade de perseguições em que ficasse ameaçada a sobrevivência do poeta como a de seus familiares. É estranho que não se faça alusão à difícil relação do poeta com essa obra a atuar como uma in vino veritas, a lhe permitir escapar de uma linha cerebralista para emocionado cantar, a plenos pulmões como Maiakovski, aquela voz lírica que tanto dizia combater, em sua buscada objetividade realista. Sim, completamente lírica a fala de Severino no teatro cabralino: daí talvez também o motivo de seu público distanciamento desse auto que lhe deu consagração (NOGUEIRA, 2010, p. 335).

Com isso, Lucila faz a ligação definitiva de Cabral com o folclore e a cultura popular do Nordeste, numa paráfrase ao pastoril do Nordeste, representado pelos cordões encarnado e azul e a Diana, figura híbrida de ambos os cordões. Pois, segundo depoimento do próprio  João Cabral, admitindo a identidade nordestina de suas obras:

Eu nunca tive vergonha de dizer que sou nordestino. E também nunca tive vergonha de dizer que minha literatura é nordestina, regional. Afinal, todos os meu temas, os temas tratados na minha poesia, são nordestinos, motivos tirados de lá (NOGUEIRA, 2010, epitáfio).

Com extrema originalidade e poder de síntese, trazendo à tona aspectos interessantes e diferentes dos mais variados escritores, Lucila Nogueira retoma, em sua obra ensaística, a seriedade e versatilidade com que se consolidou sua obra poética. Enraizada no Brasil, mas de antenas voltadas ao mundo, Lucila não teme trabalhar os mais diversos temas em seus ensaios, interagindo, como a Diana do pastoril pernambucano, os cordões azuis e encarnados (tradicionais e modernos) da nossa literatura.

 

 

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REFERÊNCIAS

ARAÚJO NETO, Miguel Leocádio. A sociologia da literatura: origens e questionamentos. Artigo. Disponível em: http://www.entrelaces.ufc.br/miguel.pdf. Acesso em 14 de maio de 2017.

ENSAIO. Wikipedia. https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=conceito+de+ensaio. Acesso em 14 d emaio de 2017.

NOGUEIRA, Lucila. A lenda de Fernando Pessoa. Recife: Bagaço, 2003.

_____. Ideologia e forma literária em Carlos Drummond de Andrade. Recife: Bagaço, 2002.

____. O Cordão Encarnado. Vol. II, Recife: Bagaço, 2010.

 




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