A cegueira como maldição


………………….A NEGAÇÃO DO NEGRO (BORGES E EU)

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[1] Em 1955 Borges assumia a direcção da Bibliotheca Nacional Argentina. Estava quasi cego, mas ja era catalogado como escriptor e classificado na pratteleira de cyma. Vinte annos depois, eu me mudava de São Paulo para o Rio a fim de assumir o cargo de bibliothecario. Não na Bibliotheca Nacional, mas perto dalli, na outra poncta da avenida Rio Branco. Ainda não estava cego, mas ja era portador de glaucoma e era funccionario do Banco do Brasil, em cuja bibliotheca exerci por poucos annos a funcção para a qual me bacharelara. Poeta estreante, tinha em commum com Borges o mesmo que com Homero, Milton ou Joyce: a remota affinidade com auctores e titulos consagrados, compulsados e consultados. Mal sabia eu que teria outra coisa em commum com elles: a cegueira. Mais vinte annos, e assumi a realidade em que hoje vivo: o que era “quasi” se tornou definitivo.

[2] Até então distante de Borges, como de outros poetas maiores, fui me approximando da sua biographia, de coincidencia em coincidencia. Alem de bibliothecario, poeta, cego, bruxo e apaixonado pelo typo nipponico, o Alem me armou uma cadeia de successos decorrentes. Ja desilludido da vida litteraria e da propria vida, em 1997 sou convidado pelo professor Jorge Schwartz a integrar o corpo de traductores da obra completa do genio argentino, publicada pela Globo a partir de 1998. Em parceria com Jorge traduzi justamente o livro de estréa, FERVOR DE BUENOS AIRES. A publicação valeu aos traductores o premio Jabuty de 1999, e com minha parte no dinheiro do premio comprei um computador adaptado para cegos. Graças a essa machina fallante readquiri o habito de escrever e o gosto pela poesia. Ao mesmo tempo, a insomnia e os pesadelos diuturnos provocados pelo trauma da cegueira me levaram a compor febrilmente, memorizando tudo à maneira de Borges. Um furor lyrico, onirico,
onanistico e mnemonico que resultou numa tetralogia de sonetos, parcialmente musicados e gravados em CD por diversos interpretes.

[3] Retornei do ostracismo ao convivio dos litteratos, reappareci na midia e até montei uma pagina virtual. Tudo desencadeado pela cegueira e pela necessidade de desabafar minha revolta contra essa desgraça. E tudo devido à opportunidade de traduzir Borges, como si este houvesse atravessado meu caminho. Não bastasse tanta coisa, o endereço na rede e o correio electronico propiciaram novos encontros e reencontros. Entre os novos, encontrei meu actual companheiro Akira; entre os contatos retomados, um leitor que me envia o ensaio de Borges abaixo transcripto.

[4] Tracta-se dum texto condensado pelo READER’S DIGEST, em cuja edição brasileira, SELECÇÕES, appareceu em março de 1985. Originalmente foi discurso proferido no theatro Colyseo de Buenos Aires. O copyright do artigo é de 1980 (do mexicano Fondo de Cultura Económica), e consta ter sido publicado na França (numero de maio de 1983 de LE DÉBAT), mas o livro a que Borges allude no texto, EL ELOGIO DE LA SOMBRA, é bem anterior: 1969. O ensaio está incluido nas obras completas reunidas pela Globo: consultei Jorge Schwartz, que me certificou ser o texto correspondente àquelle intitulado “A Cegueira”, integrando o livro SEPTE NOITES. Neste depoimento Borges recupera sua perda da visão e dá sua visão da cegueira, enaltecendo-lhe o lado positivo e attribuindo-lhe o vigor creativo de sua phase mais madura.

[5] Porem Borges não falla apenas de si e por si, mas refere-se aos cegos de maneira generica e categorica, pisando, portanto, em meu callo, e não me calo ante aquillo de que discordo. Borges sustenta que a cegueira não é uma desgraça. Eu entendo que a cegueira não é uma desgraça: é uma calamidade, uma catastrophe. Elle diz que é uma bençam; eu digo que é uma maldicção. Em ambos os casos, comtudo, ha sempre a coincidencia que nos approxima: a compulsão de poetar, para protestar ou para pretextar. Seja como for, vale considerar os argumentos de Borges que me proponho a refutar. Primeiro transcrevo seu discurso; em seguida paraphraseio seu raciocinio, illustrando o texto com alguns sonetos pertinentes, ou impertinentes, ja que nasceram da inquietude.

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O ELOGIO DA ESCURIDÃO

{Um celebre escriptor argentino nos falla das benesses preciosas trazidas a elle pelas sombras de sua cegueira.}

{Em 1955, tive a honra de ser nomeado director da Bibliotheca Nacional Argentina. Sempre imaginei o paraiso como uma bibliotheca. (Outros pensam nelle como um jardim ou, talvez, um palacio.) La estava eu, no meio de 900.000 livros em varios idiomas. No entanto, quasi não conseguia ler-lhes os titulos, as lombadas. Poder-se-ia dizer que, practicamente, para meus olhos cegos, aquelles livros estavam em branco, vazios.

Continuo cego de um olho, mas tenho visão parcial no outro, e consigo distinguir algumas cores. As pessoas pensam que os cegos vivem em total escuridão, mas o seu mundo não é a noite que as pessoas imaginam. Vivemos num ambiente impreciso, no qual poucas cores apparecem. O branco desappareceu ou se transformou em cinzento. No meu caso, ainda existem o amarello, o azul e o verde. Eu, que tinha o habito de dormir em completa escuridão, fiquei durante longo tempo perturbado por ter de fazel-o neste mundo tenebroso, esverdeado ou azulado, o vagamente luminoso nevoeiro no qual os cegos vivem mergulhados.

Assim, uma das cores que os cegos lamentam ja não poderem ver é o negro; o mesmo acontece com o vermelho. Tenho a esperança de que um dia, com os tractamentos, eu possa enxergal-o. Essa magnifica cor brilha na poesia e tem nomes lindos em tantos idiomas: SCHARLACH em allemão, SCARLET em inglez, ESCARLATA em hespanhol, ÉCARLATE em francez.

Como havia perdido o amado mundo das apparencias, resolvi inventar outra coisa; eu crearia o futuro, aquelle que vem depois do mundo visivel que desapparecera para mim. Era professor de litteratura ingleza na Universidade Argentina. Que poderia fazer para ensinar essa disciplina, que ultrapassa os limites da vida do homem e das gerações?

“Tive uma idéa”, disse então a uns alumnos que haviam acabado de se bacharelar. “Agora que vocês estão formados, não seria interessante estudar a lingua e a litteratura inglezas livres da frivolidade dos exames? Vamos começar pelo principio.”

Numa manhan de sabbado, reunimo-nos no meu escriptorio e começamos a ler THE ANGLO-SAXON READER e THE ANGLO-SAXON CHRONICLE. Cada palavra se destaccava como si estivesse gravada, como si fosse um talisman. É devido a isso que os versos em lingua extrangeira nos parecem em relevo, de um modo que não acontece na propria lingua, pois então ouvimos e extranheza.

Quasi nos embriagamos com o som de duas palavras: o nome de Londres, LUNDENBURH, LONDRESBURGO, e o de Roma, ROMEBURH, ROMABURGO. Essa sensação ainda se tornou mais intensa quando nos demos conta de que a luz de Roma havia attingido aquellas ilhas boreaes perdidas. Penso que fomos para a rua gritando LUNDENBURH, ROMEBURH.

Eu havia substituido o mundo visivel pelo audivel da linguagem anglosaxonica. Dahi passei para outro ainda, mais rico e mais antigo, o da litteratura escandinava; passei para as EDDAS e as sagas. Mais tarde escrevi um ENSAIO SOBRE A ANTIGA LITTERATURA GERMANICA. Creei muitos poemas baseados nos themas dessa litteratura, mas sobretudo o que me encantava era ella propria.

Não permitti que a cegueira me derrotasse. Alem disso, meu editor me trouxe excellentes noticias: si eu lhe entregasse 30 poemas por anno, elle os publicaria em forma de livro. Trinta poemas. Para isso era preciso disciplina, especialmente quando é necessario dictar cada linha. Ao mesmo tempo, porem, eu tinha sufficiente liberdade, porque num anno surgem 30 opportunidades para escrever um poema. A cegueira não foi para mim uma desgraça total. Deveria ser considerada como um modo de viver, nem por isso completamente infeliz; um estylo de vida como qualquer outro.

Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dadivas às sombras: o anglosaxão e os rudimentos do islandez. Existe tambem a alegria de muitos poemas, alem de ter escripto livros, inclusive um chamado, não sem alguma duplicidade, como si de um desafio se tractasse, O ELOGIO DA ESCURIDÃO. Os cegos tambem se sentem cercados de carinho. Todo mundo tem affecto pelos cegos.

O poeta hespanhol frei Luis de León escreveu:

Quero viver commigo,
Gozar o bem que devo aos céus,
Sozinho, sem testemunhas,
Livre do amor, do ciume,
Do odio, da esperança, dos cuidados.

Si concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor comsigo proprio, quem será capaz de se conhecer melhor, como disse Socrates, do que um cego?

Gostaria de evocar aqui outros casos illustres. Não sabemos si Homero existiu mesmo; talvez não houvesse um só Homero mas muitos gregos escondidos sob esse nome. Elles, porem, gostavam de imaginar que o poeta era cego, para realçar o facto de que a poesia é antes de tudo musica, e a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta.

A cegueira de John Milton foi proposital. Elle estragou sua visão escrevendo pamphletos em defesa da execução do rei pelo parlamento. Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Elle fallava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha
versos e sua memoria melhorou. Apoz cegar, Milton passava muito tempo sozinho. Escreveu um longo poema, PARAISO PERDIDO, sobre o thema de Adão, pae de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça 40 ou 50 hendecasyllabos, que depois dictava às pessoas que vinham visital-o. Foi assim que escreveu PARAISO PERDIDO.

Vamos lembrar outro exemplo, o de James Joyce. A quasi infinita língua ingleza, que tantas possibilidades offerece ao escriptor, não lhe era sufficiente. O irlandez Joyce lembrou-se de que Dublin havia sido fundada por vikings dinamarquezes. Assimilou o norueguez, depois estudou grego e latim. Apprendeu muitos idiomas, e acabou escrevendo num idioma que elle proprio inventou, difficil de entender, mas que possue uma extranha musicalidade. E declarou corajosamente: “De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira.” Parte da vasta obra que deixou foi escripta na escuridão, trabalhando as phrases de memoria, às vezes passando um dia inteiro preoccupado com uma unica phrase.

Um escriptor, um artista ou qualquer pessoa deveria ver nas coisas que lhe succedem uma ferramenta, deveria pensar que tudo lhe é dado com alguma finalidade. O que lhe acontece, inclusive as humilhações, fracassos, desgraças, é-lhe dado como uma argilla, como materia para sua arte. É preciso tentar beneficiar-se disso. Taes coisas nos foram destinadas para as transformarmos, a fim de que, a partir das circumstancias dolorosas de nossas vidas, possamos fazer algo de eterno ou que aspire a sel-o. Si um cego pensar dessa maneira, estará salvo. A cegueira é uma dadiva.

Pense no crepusculo. Ao cahir da noite, as coisas mais próximas desapparecem, exactamente como o mundo visivel se afastou de mim, talvez para sempre. A cegueira não é uma desgraça total. É mais um instrumento que o destino ou a sorte collocou em nosso caminho.}

JORGE LUIS BORGES

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Minha replica ao Mestre é a seguinte:

A NEGAÇÃO DO NEGRO

[6] Em 1972 bacharelei-me em bibliotheconomia pela Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo. Não compareci à collação de grau, menos porque o paranympho fosse o então governador Laudo Natel, titere do regime militar, que pela farsa da ceremonia onde se entregava um canudo vazio, ja que o diploma pendia de registro em Brasilia. Não obstante, fui o primeiro da turma e me orgulhava da profissão escolhida. Tive a honra de estagiar na Bibliotheca Municipal Mario de Andrade, cujo patrono inaugurou a moderna poesia brasileira com um livro intitulado PAULICÉA DESVAIRADA. Cantava Mario sua cidade com o mesmo fervor de Borges.

[7] Sempre imaginei uma bibliotheca como um inferno, termo que no jargão technico designa o deposito das obras prohibidas à consulta do publico, somente accessivel aos censores e aos bibliothecarios. Durante períodos dictatoriaes o acervo dos “infernos” chega a ser maior que o da secção de emprestimos ao leitor. Eu, que ja era leitor de Sade, aproveitei para conhecer, alem da obra completa do Divino Marquez, a obra incompleta do Profano Marx. Alludi ao deslumbramento do apprendiz de bibliophilo em dois sonetos, ao mesmo tempo em que evocava minha iniciação heterossexual comparando a origem nipponica da namorada à de Maria Kodama, companheira de Borges:

SONETO 358 COINCIDENTE

De bibliothecario foi o grau
primeiro que collei, e uma collega
nisei foi a primeira que se entrega
a mim. Não titubeio, e creio: Crau!

Não fui, porem, apenas lobo mau,
nem ella brincou só de pega-pega.
A gente cria laços e se apega
ao outro, quando está na mesma nau.

Tambem ella soffrera hostilidade
dos paes, mais japonezes que os do Imperio,
e tinha em mim alguma affinidade.

Nós eramos à parte, um caso serio.
Kodama foi do Borges, mas quem ha de
ser minha, quando cego? Que mysterio!

SONETO 359 REINCIDENTE

Nos livros respirei litteratura.
De bibliothecario para auctor
a differença é pouca: está na cor
da cappa ou na lombada da brochura.

Mas nunca encontra aquillo que procura
quem sonha em ser do Borges seguidor:
Terá seu labyrintho aonde for,
e a cada dia a noite é mais escura.

Meus livros e os de Borges, mesma estante…
Será? Que paulistano desvario!
Serei Bocage ou Sade? Homero ou Dante?

Meu olho ja estaria por um fio.
Planejo um suicidio, mas distante,
e parto de São Paulo, rumo ao Rio.

[8] Em 1973, quando ingressei no curso de lettras vernaculas da USP, já estava cego do olho direito, que não resistira à cirurgia feita no anno anterior para tentar deter o avanço do glaucoma. Ainda enxergava do esquerdo, porem à custa duns oculos fundo-de-garrafa que me corrigiam a crescente myopia. Do olho perdido a lembrança mais nitida era a bola de luz em que se transformava um simples poncto luminoso, desfocado pelo effeito myope. Quando a luz era vermelha, a cor desmaiara progressivamente até converter-se em branco. Quando o vermelho coloria um objecto opaco, sem brilho, era percebido como um cinza escuro. O vermelho e o verde foram as primeiras cores desapparecidas, mas o verde, tambem desbotado para o cinzento, não me causava tanta sensação de ausencia quanto a falta do vermelho. Duas decadas depois, a mesma descoloração se repetiria na retina do olho esquerdo, prefigurando a cegueira imminente. Ironicamente, emquanto eu perdia o vermelho de vista, a vista ganhava um tom avermelhado em seu aspecto exterior, devido à hemorrhagia interna. Não por acaso dei às tonalidades rubras a mesma emphase com que Borges decantava o escarlate:

SONETO 332 CHROMATOLOGICO

O branco é sommatoria; o preto, ausencia.
O verde é o tom de azul com amarello.
O cinza é um preto e branco menos bello.
Violeta é um desafio p’ra sciencia.

Marron e creme é mera consequencia.
Abobora e laranja não pincello.
Magenta e seppia existem só no prelo.
Vermelho é communista ou emergencia.

Mania do pintor, como do vate,
as cores são constantes citações:
carmim, rosado, purpura, escarlate.

Nuances, sangue em manchas e borrões
fizeram do meu olho este tomate,
e só guardei da cor recordações.

[9] Borges decidiu reinventar o futuro. Parecia ver o mundo com óculos cor-de-rosa. Tinha confiança nos medicos e tinha a confiança dos editores. Ja era famoso quando cegou, e a cegueira só faria aumentar seu prestigio. Tinha motivos para não se lamentar. Commigo dava-se o inverso. Quanto mais cego, mais me apegava ao passado, às reminiscências da memoria visual. Fiz dos traumas de infancia (como os abusos sexuais de que fui victima à mercê da molecada suburbana) a materia-prima de minha poetica sadomasochista e escatologica. Desengannado pelos medicos, engannado pelos editores, perdi as esperanças de conviver pacificamente com a deficiencia physica e a indifferença alheia. Mas limitei-me a resumir no detalhe fetichista minhas divergencias com Borges, que affinal apenas realçavam os denominadores communs:

SONETO 53 BORGEANO

“Fervor de Buenos Aires” foi a estréa.
Seguiu-se à sagração da sua cidade
a Universal da Infamia, a Eternidade,
e a Historia alcança as raias da Epopéa.

Estive na portenha urbe européa;
Tambem perdi a visão na meia edade;
Coincidencia ou não, tambem fui Sade,
um bruxo logo abaixo de Medéa.

Talvez eu tenha achado no Argentino
um tom de tango astral na escura zona
e o dom da decadencia do Destino.

Mas falta algo, que Borges não menciona…
Algum logar no kosmo que imagino…
Alguem lambendo o pé do Maradona!

[10] Borges não se dava por vencido pela cegueira. Sentia-se motivado a continuar produzindo, até porque seu editor lhe encommendava trinta poemas por anno. Em mim a cegueira tinha o peso da derrota, mas, talvez porque nenhum editor me garantisse publicação, produzi, não trinta, mas trezentos poemas num anno, sem outro estimulo a não ser desabafar meu inconformismo. No fundo, amparo ou desamparo teem como panno de fundo o mesmo infortunio, deante do qual cada um de nós reage de maneira diversa, porem tendente ao mesmo resultado: capitalizar a tragédia pessoal e multiplicar-lhe os dividendos.

[11] Borges invoca litteratos illustres para lastrear sua apologia da cegueira emquanto “argilla” e “ferramenta”, materia-prima a ser moldada pelo cego à sua feição. Neste poncto fiz coro com seu motte e glosei-o num soneto convenientemente grandiloquente. Por fallar em glosas e mottes, não ommitti um dos cegos mais celebres da poesia popular, Cego Aderaldo, considerado o ultimo dos grandes cantadores nordestinos:

SONETO 244 PRODIGIOSO

Quem sabe o maior merito de Homero
foi ter feito o que fez sem ter visão.
Si Borges, Aderaldo ou Lampeão
fizeram, vou fazer tambem, espero.

Zarolho ou cego, não quero ser mero
passivo espectador da occasião.
Verei o que videntes não verão;
Si sabios não souberam, eu supero.

Beethoven era surdo, e foi maior.
O grande esculptor nosso era sem mãos.
Perder não é dos males o menor.

Abaixo estou de todos meus irmãos.
Que o mais peccaminoso sou peor.
Meu trunfo é só não ter dois olhos sãos.

[12] Talvez o poncto em que mais discordo de Borges esteja no carinho que elle affirma ser por todos dedicado aos cegos. Comprehende-se que o Mestre tenha sido, elle proprio, objecto de maiores attenções e cuidados, estimado como era. Mas dahi a dizer que todos os cegos são bem tractados vae abyssal distancia. No meu caso, accentuou-se o sentimento de rejeição, corroborado por explicitas demonstrações de desprezo e escarneo por parte de conhecidos e extranhos, vizinhos e transeuntes, o que alimentou ainda mais o masochismo extravasado em meus sonetos. Dois dos mais impiedosos (ou paradoxalmente autocompassivos) são estes:

SONETO 66 CIRCENSE

Pimenta no dos outros é refresco.
É facil achar graça em mal alheio,
e nada mais propicio pro recreio
que a dor do cego em seu negror dantesco.

Meu caso é certamente mais grottesco,
pois presto-me ao vexame sem receio:
Humilho-me lambendo até pé feio,
fedido, sujo, torto ou simiesco.

Ridicularizar-me vem a ser
a grande diversão de quem me vê,
emquanto eu, que não vejo, dou prazer.

Um typo gozador como você
vae rir si seu sapato eu for lamber,
tal como ri do verso que ora lê.

SONETO 78 SIMULADO

Poeta é fingidor, disse Pessoa,
simula mesmo a dor que está sentindo.
Desconfiemos, pois, do que é provindo
dum cego, si é insensato o que apregoa.

Por mais que elle exaggere a dor que doa,
reajam com desdem e leiam rindo;
Por mais que o purgatorio seja infindo,
respondam que seu caso é coisa à toa.

É assim que um cego deve ser tractado:
sem credibilidade, sem piedade.
Extendam-no no piso, manietado!

Obriguem-no ao rastejo, sejam Sade!
Si a diversão não for de inteiro agrado,
vae ver que não é cego de verdade…

[13] Como para confirmar a regra, acabei por encontrar no dedicado Akira uma excepção à hostilidade geral. A este retribui dedicando um dos ultimos sonetos, em que recapitulo o parallelismo com Borges:

SONETO 435 SORTILEGIO

Chegando ao meio seculo de vida,
me achava, feio e cego, na desdicta.
Aguardo, em vão: não veiu mais visita.
Parece o apartamento muda ermida.

Com Borges tanta coisa é parecida!
Fui bibliothecario; deixo escripta
a saga inacabada. Agora dicta
quem antes annotava, e a consolida.

Que tudo coincide, quem diria?
Si alguem for meu biographo, confira:
cegueira, poesia, bruxaria…

Effeito que o feitiço não surtira,
emfim surtiu: ja tenho companhia…
Em vez duma Kodama, meu Akira!

[14] Talvez o poncto em que mais concordo com Borges seja a constatação de que a cor preta é, ironicamente, aquella cuja perda os cegos mais lamentam. De facto, o mais tenebroso dos pesadelos é ficar privado da escuridão na hora de dormir. Ja que não percebe cores, o cego não sente a differença entre o claro e o escuro, e tudo lhe parece, todo o tempo, envolto em opaca nevoa, ora amarellada, ora acinzentada, ora esverdeada (como se affigurava a Borges), mas nunca totalmente escura a poncto de repousar a visão e attrahir o somno. Dahi, porventura, uma das causas da chronica insomnia que me atormenta e instiga a poetar. Acyma de qualquer cor, é justamente do preto que o cego sente falta nas horas mais negras e desesperadas. Precisamente a cor que todos suppõem ser a única perceptivel a quem não reconhece a luz. Eis aqui o grande paradoxo da cegueira: contrariar o senso commum, negar o obvio. Nesse sentido, justifica-se que Borges renda tributo à escuridão, equiparando-a a uma bemaventurança. Faz egualmente sentido que eu a repudie como à peor das infelicidades. Ambas as posturas são coherentes. A Borges, a escuridão reaffirmou; a mim, renegou. Elle se realizou como o poeta que cegou; eu me realizo como o cego que poetou. Cada poeta tem a cegueira que merece, e cada cego tem a poesia que merece. O importante é que Borges me
ajudou, desde logo, a comprehender a dimensão da poesia. As cores teem fronteira, seja no espaço physico, seja no tempo cyclico. O negro, assim como a respectiva ausencia, é illimitado, infinito e permanente, tal como a poesia em que repousa e de que se alimenta. Não ha visão, nem somno, capaz de compensar a ausencia da poesia. Não ha poesia capaz de recompensar a cegueira. E não ha ninguem, excepto os cegos, capaz de comprehender o relativismo desta verdade, como, de resto, de todas as verdades.

/// [reorthographado em dezembro/2011]

 

 

 

 

 

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Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias “VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS” e “POESIA DIGESTA: 1974-2004″, além dos romances “MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS” e “A PLANTA DA DONZELA”. E-mail: mattosog@gmail.com




Comentários (2 comentários)

  1. Maria Lindgren, Nem sei o que dizer por escrito ao Glauco Mattoso que tanto admiro. Preferia falar, dizer-lhe de viva voz que seu texto me arrepia porque belo e desesperado, com justíssima razão. Tenho horro à escuridão, amo o sol e admiro que você, poeta e prosador maravilhoso,como Borges, escreva tão bem. Parabéns entusiamados e um abraço bem grande. Maria Lindgren
    25 abril, 2013 as 2:07
  2. joão antonio, Glauco Que texto-depoimento fabuloso. Meus parabéns. Nós que admiramos de longa data ficamos felizes de ver que continuas atuante e vivo, mesmo com este impedimento visual. Continue meu caro nos encantando com sua prosa e poesia, que é sem dúvida biscoito fino. E o Musa está de parabéns por publicar este grande escritor. abracadabraço
    5 junho, 2013 as 3:59

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