A Casa das Máquinas


 

O poeta Alexandre Guarnieri declara que levou 15 anos no seu poema. Tempo bem gasto, grande livro.  Esmagador até, nestes dias de tanta leveza. Não vou perder-me no repetir mal o bem dito, por ele próprio, em entrevista concedida a Adriano Lobão Aragão, e pela excelente resenha de Elvira Vigna, que eu não conhecia.

Uma, das tantas qualidades, é a organização, já examinada por outrem. E esta agora: a garra rítmica do poeta, óbvia desde a primeira página. Nem é caso dar exemplos. O poeta é longo, mas hígido. E usa de aliterações e de assonâncias, mas fá-lo modernamente, no rouage da sua enorme fábrica.

Mas o que é, enfim, a Casa das Máquinas?

Para mim, novíssima Arte Poética. E o juízo demanda o exame do discurso poético.  Salto, por já tão bem revistos, epígrafes e titulações autorias.  Sistemáticas e pertinentes, aliás. E parto para o casus.

Desde o início, a mecânica do autor é vitalista. E particularmente genital nestes começos: “há pinos limpos sob a carnadura de úteros eletrônicos, em suas trompas, duas válvulas ovulam em sincronia, pois que uma só, avulsa, é inofensiva” (pág. 21). Aqui, já o postulado da sincronia, pois a válvula avulsa não tem sentido.  Isso, em harmonia com o que se transcrevera de João Cabral, à página 16.  Vale para a Sintaxe, quanto vale para a Poética. A modernidade de Guarnieri lembra, nas referências mecânicas, a de Marinetti e dos pintores italianos dos novecentos e poucos; é nova atualização em avanço à eletrônica.

E “três engrenagens se desgastam no trabalho de engatarem suas áreas:” (pág. 25), ou “se desgastam do contrato entre seus encaixes: se desencontram” (pág. 27). Pois tudo, que já foi bom em algum tempo, está sujeito à universal usura; a engrenagem gasta, e gastam as formas poéticas. Persiste a álea, “a falha inexplicável” (pág. 33) da humana obra. A funcionalidade dos meios, explicitada: “…motores são apenas os escravos, meios para um fim nas mãos do proprietário” (pág. 35).

A página 30 enfileira os riscos – água, óleo, um visgo, o cloro, qualquer produto químico – que podem, inchando-os, danar os delicados cilindros (todos os 6 versos da pág. 39).  Ou inflados os cilindros com gás tóxico (pág. 41).  O moderno alegorismo de Guarnieri lembra-me, guardadas as diferenças do tempo e do objeto, o alegorismo do Roman de la Rose, em que a virtuosa castelã, fechada no seu jardim, não se furtava a percalços. A alegoria religiosa da Idade Média é cheia de tais alarmas; o mundo do amor e o mundo de Deus são biunívocos, senão mesmo antitéticos. E não só na literatura, mas também na música e na arquitetura, em que Deus, com seus anjos, e o diabo, com as gárgulas e monstros, dividem o espaço ornamental dos pórticos e dos tímpanos. Tudo, ou quase tudo isso, chega em vária forma e diverso objeto à contemporaneidade.

O vitalismo erótico reentra na sextina interna, de pés muito curtos, à página 43: “tubos lúbricos”. Mas os cilindros rombudos são incríveis pela sua capacidade de resistência (págs. 45-47). E que cascas serão essas? (pág. 45). Confrontação à idéia do palimpsesto de Gérard Genette? Porquanto as “cascas” dos cilindros de Alexandre Guarnieri resistem à raspagem; e almejam à fortitude!

E os rebites “quase parafuso(s), sem rosca, sem fenda”, entrando à pancada (pág. 49). Duplicação, ainda aqui, do princípio ativo da força e da rudeza – o que entra é à pancada. Mas se não há as raspagens do palimpsesto, há a fusão, que aceita o molde (pág. 51). E o rebite, como tudo o mais, entra ereto e encrava; caso contrário não serve…

A formatação da coisa é à mão, ou pela força calibrada de outra arma (pág. 61), então o homem completa a mecânica, e esta aquele. Mas a força é calibrada ou medida. E a relação é explícita entre o rebite e o poema! (pag. 67).  Novamente, estatui-se que tudo é medido e pensado (pág. 69).

Temendo alongar-me, ou ser tedioso, paro aqui. A outrem a Máquina Datilográfica (pág. 71), com a bela imagem do leque das letras, pois lembro, nas antigas máquinas, o leque verticalizado do alfabeto a ferir a fita bobinada contra o papel tão alvo.

Estou persuadido de que a CASA DAS MÁQUINAS, poema longamente amadurado, veio para ficar.

Milton Torres

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[Outras resenhas de Casa das Máquinas]
http://aguarras.com.br/2012/03/02/casa-das-maquinas-de-alexandre-guarnieri/

http://contramundumcritica.blogspot.com.br/2012/03/alexandre-guarnieri-casa-das-maquinas.html

http://arseniomota.blogspot.com.br/2012/03/estreia-de-um-poeta.html
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[Entrevista com Alexandre Guarnieri]

 

 

 

 

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Alexandre Guarnieri nasceu no Rio de Janeiro (em 1974), é Arte-educador habilitado em História da Arte pelo Instituto de Artes da UERJ, e Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Integrou, a partir de 1993, o movimento carioca da poesia falada. Fez parte da primeira formação do grupo performático “V de Verso”, coordenado pelo poeta Chacal. Junto com o poeta Flávio Corrêa de Mello, coordenou o NCP (Núcleo de Criação Poética) do Sobrado Cultural, na zona norte do Rio, onde mantinham o recital mensal “Poesia no Sobrado”. Publicou poemas em revistas e jornais, dentre eles o Panorama da Palavra (do qual foi colaborador), a Revista Urbana, as Revistas Eutomia e O Carioca, La Isle.com, o Suplemento Literário de Minas Gerais. “Casa das Máquinas” (Editora da Palavra, RJ, 2011) é seu livro de estréia; email: alex.guarni@gmail.com; Casa das Máquinas no Facebook: http://pt-br.facebook.com/pages/Casa-das-M%C3%A1quinas-de-Alexandre-Guarnieri/231913000176394

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Milton Torres foi cônsul-geral do Brasil em Houston, Texas. Reside atualmente no Rio de Janeiro. Como poeta, publicou “No Fim das Terras” (2005) e “Andaimes” (2007), ambos pelo Ateliê Editorial (SP). E-mail: mtorressilva@gmail.com




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