A balada de Reynaldo Bessa


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Uma balada triste: assim o narrador-personagem define a história que nos contou. Como aquelas canções de Woody Guthrie, que deram a pista para Bob Dylan achar o seu estilo, uma história longa, triste e sofrida. O sofrimento sem função edificante. Não ensina coisa alguma. Não é rito de passagem. É uma condição de vida. Da vida de uma família pobre, aparentemente sem saída, vista pelos olhos sensíveis e solidários de um menino parceiro de seu pai.

A música, afinal o autor desse livro também é músico, está presente como contraponto em várias passagens. E a poesia, Bessa é poeta, também está. Há constantemente comparações, metáforas, imagens.

Assim, entre a música e a poesia, aflora o talento narrativo do autor. Constrói um universo denso, com os personagens dessa família. A cada um, uma tragédia particular. O próprio título, Na última lona, já dá uma pista. O destino surge como um boxeador que derruba round a round, capítulo a capítulo, os personagens e as nossas esperanças como leitor de que algo possa melhorar na vida dessa gente.

É um livro duro como os da geração do Romance brasileiro de 30, como o cinema de Héctor Babenco em Pixote, como a falta de compaixão de Dostoiévski. Vai ler? Depois não diga que eu não avisei.

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Ricardo Silvestrin

 

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Cuidado, vazios na estrada

 

Sob a lona, o invisível se debate. O velho caixeiro-viajante, o velho caminhão e a mala rota sumiram na estrada; levam uma carga desconhecida, e um sonho velho conhecido, leve de tão gasto. A família ficou pra trás; com um tempo sem voz, que não avisa nada, e a sopa tem que durar, durar, durar… Até endurecer os meninos e meninas sem nome, os filhos do caixeiro. Suas diferenças, caladas, o crescimento silenciado. A porta abre um dia. O caixeiro sempre, sempre volta, com a promessa que pode ser grande; ou pode ser apenas a promessa da próxima lona. Uma vez, chegou com cítaras. Segundo o homem da feira, qualquer um consegue tocá-las. As cítaras acabaram no armário, escondidas até sumirem.

Sobre a toalha da mesa, não se debate o invisível. E você, já passou fome? O filho do caixeiro engole em seco. Parece que é dos estômagos cheios e quentes que sai o sinal neural rumo aos olhos, estáticos de [des]interesse. Os convidados estão aguardando; querem uma resposta que seja estratégica ao jogo social do jantar. Não desejam uma história genuína. É a iguaria invisível em forma de palavras que eles esperam apreciar. Tão gourmet.

Na Última Lona, obra forte, melancólica e provocante de Reynaldo Bessa, não é o cumprimento de um pedido, a resposta subordinada a uma pergunta, vinda de fora, de longe. Aqui, Bessa reside em dimensões psicológicas profundas e expõe uma compleição social embutida na ideia de um macro-Brasil plural, padecente e invisível. Há um respeito literário (e social, e humano) ímpar pelo ensimesmamento da figura sofredora, trata-se a degeneração com cuidado, mas sem eufemismos. A última lona não é um quebra-paradigmas, mas àqueles que se sentem cegos, é um convite a se sentar na janela do trem e avistar algumas vicissitudes da cidade.

Acompanhar o filho do caixeiro em suas reminiscências tão pessoais, sendo doloridas, sendo nostálgicas, sendo críticas em simultâneo, é o trajeto por um manancial e por um sumidouro. Lembranças ínfimas às vezes permanecem, mas coisas também somem. “Somem como some uma mancha na pele”. Da juventude conturbada, apoiando o pai nos ombros, vendo o irmão adoecer e as mulheres suportarem ferimentos revisitados, ele cresce e se torna o homem inteligente descrito por Dostoiévski, que se volta à tagarelice da narrativa retrospectiva, “uma intencional transferência do oco para o vazio”. Da lona para a mesa, do invisível para o invisível. Nem por isso, menos real.

 

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João Lemos França tem trabalhos prestados como parecerista à Editora Penalux. Tem uma larga e intensa experiência em leituras, tanto literárias quanto ensaísticas. Atualmente estuda Psicologia na USP.

 

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Trecho de  Na última lona

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[...] Então, olhei todos à mesa e só disse que sim, como se com esse monossílabo quisesse apenas afirmar de forma delicada e ao mesmo tempo categórica, que não passasse daí, ou que falar sobre aquilo era perigoso. Mas, como não deve ter percebido os inúmeros clamores silenciosos viajando na palavrinha fugidia e cheia de tatibitate, que procurava de um jeito ou de outro, desde já, encerrar aquela história trôpega, logo em seguida, emendou um: “E como é?”. Aí eu paro um pouco como se não tivesse ainda digerido a pergunta ou como se precisasse de um tempo para me ajeitar na cadeira, e nisso já remexendo meus pensamentos na intenção de rememorar um tempo distante, assim como alguém passando a língua pelos dentes para tentar lembrar-se do que comeu ontem, e por fim, soltei: “Como é?”. Enquanto devolvia a pergunta, eu só conseguia me lembrar de uma insaciável vontade de comer associada a uma descabida necessidade de dormir. Um universo turvo onde os objetos pareciam assumir dimensões diferentes: ora maiores, ora menores. Eles cresciam ou diminuíam em minhas mãos feito punhados de incertezas. Um turbilhão de sensações, palavras trincadas, cheiros, barulhos, esperas, confusões. Era como olhar a chuva pelo olho mágico embaçado e ter de dizer a alguém o que se passava lá fora. E o que importa todo o universo quando uma parte dele, mínima que seja, está quebrada? O mundo, às vezes, parecia flutuar e ao caminhar, sentia-me como se pisasse o dorso de um animal adormecido que vez em quando se remexia como a reclamar descanso. E quando choviam trovões, como se anjos travessos jogassem imensas pedras no avesso do céu, o barulho era como o ronco do estômago de Deus destilando medos. E numa cesta vazia, onde uma tímida réstia de sol lambia migalhas de esperas bolorentas, a angústia crescia que nem hera no muro das nossas retinas e numa umidade involuntária, do parapeito dos nossos olhos, gotas feito pássaros transparentes buscavam seus últimos voos. O mar entre os cílios, idílios ramos. Ah, e todos os olhares, quando cruzados, espatifavam-se ao chão pelo receio do dedo em riste do Não. O dançar sem dança, o cantar sem música. A cara sisuda do impossível. E no estalar da língua, só a língua e no degustar do gosto, nem um pouco. Era… Era… Era como tentar colar os pedacinhos da vida com saliva sem tempero. O amanhã nos parecia uma promessa desonesta feito uma moeda grudada no asfalto, ou um grande e suculento sanduiche entre os trinta e dois dentes branquíssimos da mulher feliz estampada no outdoor. As emoções e suas falácias, as sensações e suas máscaras. E juntar tudo isso era como tentar montar uma única imagem de quebra-cabeças diferentes: caos. Lembrança e esquecimento brincando sob a chuva… Enquanto ainda tentava elucubrar algo que pudesse dar alguma luz do que foi tudo aquilo, eu também conseguia lembrar-me de uma frase que havia lido em algum lugar e que durante muito tempo, feito uma oração, ficou martelando em minha cabeça: “Esqueça o que não se pode suportar”. E sempre que essa sentença dispara, em algum momento, clara e decidida; pronta e direta; uma voz interna, um sussurro que nunca parece vir de mim mesmo, retruca: “é, mas como?”. [...]

 

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……………………………………Evento no facebook: aqui.

 




Comentários (1 comentário)

  1. lena brasil, Parabéns!Excelente livro. Acompanhar as suas reminiscências, tão difíceis para uma criança, que se tornou um adolescente maduro e um adulto forte, inteligente, grande escritor e músico. Um grande abraço.
    30 agosto, 2015 as 17:01

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