A atração dos Txucarramães


O botocudo Raoni exibe um de seus amigos da floresta

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Nossa marcha para o Oeste, marcha a procura de nós mesmos, começou cedo e ainda não terminou. Foi precedida por figuras, hoje quase mitológicas, cujos nomes ressoam, dão nomes a estados e carregam locais do bem em seu sobrenome. Os Rondons e os Villas Bôas.

O relato-epopéia escrito pelos irmãos Orlando e Claudio Villas Bôas, de suas expedições pelo Roncador-Xingu, é de uma grandiosidade humana só comparável aos mitos de fundação de um grande povo. O estabelecimento do Parque Indígena do Xingu foi um grande feito, e se não nos redime de nosso passado (e, infelizmente, ainda presente) de extermínio, pelo menos nos conforta e nos dá esperança.

Em seu livro A Marcha para o Oeste, os Villas Bôas colocam o dedo na ferida: “É um erro pensar que o índio guerreia movido simplesmente por um costume inato. Em princípio sua índole é boa, melhor ainda era no começo, quando aqui chegaram os primeiros navegadores europeus. O primeiro encontro foi pleno de paz e compreensão. Mas essa harmonia não teve longa duração. O interesse pelos bens da terra nova atiçou a ambição do conquistador. Um verdadeiro estado de guerra foi criado pelos métodos de exploração e, principalmente, pela tentativa de escravização do índio.”

 

Gente guerreira é o que não falta neste Brasil afora. Um povo que carrega em seu sangue muitos povos e que faz de sua força, e têmpera única, a convivência e assimilação de tais diversidades. Convivência nem sempre pacífica, é necessário ressaltar, mas enormemente frutífera.

Um projeto vultoso, fruto da dedicação, empenho e recursos de vários povos e pessoas é o que nos chega às mãos em forma de livro, vídeo e CD duplo: CAIAPÓ METUTIRE.

O projeto tem a direção geral e fotografia de Vito D‘Alessio, sendo acompanhado pelos textos elucidativos do indianista Paulo Pinagé. Tudo supervisionado pela artista plástica japonesa Kenko Minami, presidente da Amazon Rainforest Foudation Japan.
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Como diz Paulo Pinagé em seu texto, o povo Caiapó sofreu vários deslocamentos e transformações culturais ao longo do tempo, e o projeto surgiu da ‘necessidade de se mostrar um pouco do que insiste em resistir desse povo Mebengocrê`.

O resultado é um trabalho amoroso e dedicado de pessoas que resgatando a cultura primitiva brasileira, resgatam a todos nós da apatia e do esquecimento de nossas raízes mais belas e profundas.

Esse povo de vários nomes é ricamente apreendido em textos, imagens inesquecíveis, sonoridades gravadas e aquelas que servem de mote para criações com resultados inovadores.

Antes, em texto reproduzido no livro, os Villas Bôas nos esclarecem: “(…) Caiapó é uma designação cabocla, dada principalmente pelos seringueiros, aos índios que usam botoque de madeira no lábio inferior. São os jê-botocudos. Os jurunas, vizinhos mais próximos dos botocudos do Xingu, chamam-nos de txucarramães.”.

Txucarramães, nome dado pelos ex-inimigos Jurunas, significa os homens sem arco. Curiosamente foram os Jurunas que facilitaram o primeiro contato dos homens brancos, Villas Bôas, com esta tribo guerreira, temida e respeitada por todos.

O relato-epopéia dos Villas Bôas continua:

“(…) Depois que fizemos a atração dos jurunas, os inimigos mais próximos dos txucarramães, foi que tivemos as melhores informações. São traiçoeiros, diziam, atacam com a borduna, com grande alarido e violência…”
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Megaron Txucarramãe

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“(…) Constantemente encontrávamos trilhas, sinais de fogo de pernoite e demais vestígios dos ‘homens sem arco‘. Nesses lugares sempre deixávamos alguma coisa, como que atestando a nossa boa intenção. Pacífica, pelo menos.”

“(…) por volta de 1953, quando passávamos num local de antiga aldeia juruna denominado Piá, que sentimos a presença dos índios…”

“(…) Depois de muito chamar obtivemos respostas vindas de diversas direções. Afastamos a embarcação da margem e continuamos a chamar. Momentos depois surgia na barranca do rio, como primeiro grupo de vanguarda, um bom número de índios enegrecidos de jenipapo. Mostravam-se muito agitados, confusos, fazendo gestos largos e falando sem parar. Logo em seguida novos grupos foram surgindo. Lá estavam mais de cinqüenta, a maioria homens moços. Aglomerados na barranca, inquietos, nervosos, alguns bastante assustados, se ocultavam rápido na mata mal apanhavam os presentes que havíamos deixado. Não havia mulher nem crianças. Sem dúvida devia ser um grupo de caça.”
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Último encontro entre Raoni e Orlando Villas Bôas

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Como dissemos anteriormente, Caiapó era um nome genérico dado pelos seringueiros. Caia (macaco) e pó (semelhante). Mas eles se autodenominam de Mebengocrê, o povo do buraco d‘água.

O indianista Paulo Pinagé vai atrás das origens em seu texto.

“Mebengocrê, o povo do buraco d`água, é a maneira como esses índios se autodenominam e cuja decomposição é: me-: gente, categoria; -be: indica estado, ser; -ngô: água; -cre: buraco. Esse povo que traz no nome sua cultura, demarcando seu território, passou por diversas separações que são explicadas, por exemplo, através do mito do milho, oralmente transmitido:
Um dia, uma velha foi ao rio com seu neto para banhar-se e não percebeu que uma arara havia deixado no chão, próximo a ela, várias sementes de milho. Um ratinho, vendo aquilo, subiu em seu ombro e a velha com um gesto brusco o afastou, mas o ratinho insistiu dizendo:

- Olha vovó, ali tem comida boa!
- Onde? Retrucou curiosa a velhinha.
- Aqui! Arara jogou semente boa.
A velha colheu as sementes desconhecidas, guardou numa cuia e levou para aldeia. Lá pilou o milho e preparou beiju. À tarde, mandou os meninos levarem o prato para a casa dos homens. Eles provaram e gostaram muito.
- É doce! É doce! De que é feito?
A velha foi chamada à casa dos homens para falar de onde viera aquela comida boa.
Assim os homens foram até a beira do rio com o machado de pedra, cortaram o grande pé de milho e cada um pegou uma espiga e partiu para o mato. Diz a lenda que naquele momento todos passaram a falar línguas diferentes.

(Relato de velhos caiapós)”
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A educação pelos mais velhos e o respeito pelas mulheres mais velhas

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É um povo orgulhoso de si e que respeita a sabedoria dos mais velhos, principalmente das mulheres. Orlando Villas Bôas conta que em seus primeiros contatos com os Mebengocrê, praticamente foi salvo num momento de tensão por duas mulheres velhas, que emudeceram os mais exaltados e os conduziram pelo braço até o local onde haviam deixado os barcos.
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A pintura corporal é uma marca pessoal de cada indivíduo, além de ser um ritual afetivo que envolve e aproxima toda a comunidade. Os ornamentos, como fica claro no livro, atuam como vestimentas.
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Pequena entrevista com Paulo Pinagé:

Comecei um diálogo com o indianista Paulo Pinagé, que espero se tornará muito frutífero. O conheci no lançamento do livro, e percebi o quanto ele estava incomodado vestido naquele terno e dando atenção para tantos convidados e patrocinadores.

Mandei algumas questões por email, e ele bicho do mato que parece ser, se enrolou um pouco para enviar as respostas. Enfim chegaram, sintéticas e diretas.

Paulo Pinagé com Raoní

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EC- Quais são os critérios, para se definir uma cultura como sendo “primitiva”?

PP- O que é ser primitivo? os Caiapós tem um grande conhecimento e interferem no meio ambiente sem causar desequilíbrio, além do conhecimento fitotérapico que não revelam, enquanto as leis de direitos e patentes do país não assegurarem os direitos de uso destes conhecimentos.

EC- Penso q uma cultura só existe a partir de uma língua determinada.
Isto é válido, qdo se considera culturas `primitivas`? Se for, o Brasil então possue quais culturas?

PP- Dentro da cultura Caiapó a pintura corporal é uma forma de linguagem, determina posições sociais, resguardos diversos além dos padrões estéticos. furar a orelha e os lábios para o uso de dilatadores e posteriormente brincos e o botoque que é usado atualmente só pelos velhos é também uma linguagem. o direito de uso de determinados instrumentos, máscaras e o uso de determinadas cores de penas nos cocares comunica a quem pertence por direito sendo respeitado por todos. os cantos, danças e os discursos dos chefes dirigidos a comunidade ou pelo chefe do cerimonial são formas de linguagens.

EC- A poesia e a ficção brasileira, a meu ver, são deficitárias da maravilhosa tradição oral e mística da cultura indígena brasileira. Como resolver esta questão? Por onde começar? O que a literatura teria de ganho?

PP- Acho que se mergulharmos um pouco mais em nossas raízes, as lendas e mitos podem nos inspirar muito neste sentido.

EC- O poeta americano Jerome Rothenberg é um dos expoentes da chamada “etnopoesia”. Apesar de não gostar muito do rótulo, considero seu trabalho muito importante como tentativa de `reconfigurar o passado poético do pontode vista do presente`. Já seria possível realizar uma antologia de poesias tradicionais dos índios brasileiros?

PP- O que vc quer dizer como uma antologia de poesias tradicionais dos índios brasileiros?

EC- O q quis dizer sobre a antologia é o seguinte: O trabalho do Rothenberg, q citei, me parece encarar a riqueza cultural e lingüística dos povos `primitivos` – no caso das antologias, mais o lingüístico – como algo complexo q devemos dialogar e incorporar em nossa tradição cultural. Por exemplo, em suas antologias das poesias tradicionais dos índios norte-americanos ele tenta transcriá-las para o inglês mantendo todas as implicações semânticas, sonoras, rítmicas, encantatórias, ritualísticas, etc. Além das notas e comentários q elucidam o pano de fundo de cada canto, há a tentativa de recriá-lo em outra língua. Não sei se me fiz entender. Mas, vejo um respeito e uma assimilação da tradição nativa. Ela interfere depois no próprio ato criativo do escritor, q incorpora em sua linguagem tudo o q bebeu na linguagem nativa ‘primitiva‘. O q vejo por aqui, são poucas compilações, de cunho mais antropológicos, e muitas vezes com um olhar distanciado de quem analisa algo q definitivamente não é seu. Deu pra entender ou compliquei mais?

PP- É o que vc falou no final. São poucas compilações de cunho mais antropológico e sempre com um olhar técnico e distanciado.

EC- Uma frase ficou em minha memória poética. Talvez seja do Luis Turiba: “Ou a gente se Raoni, ou a gente se Sting”. Apesar do trocadilho ela carrega uma centelha de verdade. Como vc vê esta questão?

PP- O trabalho do Sting foi muito prejudicado pela imprensa brasileira que afirmou todo o tempo que ele estava se aproveitando do Raoni para se promover e enriquecer. O cara já era rico e reconhecido como mega star, e a maior demarcação feita em área indígena brasileira foi a dos Caiapós do Pará conforme ele se comprometeu. Talvez o Turiba nos alertava, e a imprensa brasileira, da luta do chefe Raoni para demarcar as terras de seu povo no Pará e outras depois que ganhou prestígio internacional, tendo conseguido o apoio do cantor inglês para tal realização, e não percebemos!

EC- Se vc se motivar, mando mais, ok? Um gde abraço e parabéns pelo projeto concretizado.

PP- Sobre Sting e Raoni posso te contar toda história pessoalmente.

 

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CD Duplo (Em duas versões, étnico, documentando cantos e sons que interpretam o mundo existencial dos caiapós e versão fusion, apresentando uma seleção com interferência de grandes músicos e cantores nacionais.)

Marku Ribas e Gilberto Gil

Egberto Gismonti e Badi Assad

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Todos sabemos que em todas as culturas e povos se produz música, manifestação que nos acompanha desde o passado primevo. A música é uma necessidade essencial, sejamos “civilizados” ou não. O que usufruímos nestes cds são a música em ‘estado puro‘. Mesmo quando retrabalhada em estúdio de freqüências raras a resultante é delicada e consegue como um belo vestido enriquecer e iluminar uma mulher que já era linda.

E cá entre nós, o Marku Ribas arrasa.

MUSICA 1 – PAI E MÃE
MUSICA 2 – IO PARANÁ – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE GILBERTO GIL
MUSICA 3 – CANTO DAS MULHERES
MUSICA 4 – FEMININO – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE BADI ASSAD
MUSICA 5 – ZOMBARIA – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE EGBERTO GISMONTI
MUSICA 6 – AINU CAIAPÓS
MUSICA 7 – PESCAIAPÓS – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE AIRTO MOREIRA

A direção musical é do Maestro Sá Brito.

Vídeo Documental (DVD, cor, 0:28 min., NTSC) dirigido por Renato Dutra e Flávio Baroni.

Livro Bilíngüe ( com tiragem de 3.000 exemplares) escrito pelo indigenista Paulo Pinagé com fotografias de Vito D´Aléssio e texto de introdução extraído do livro “A Marcha Para O Oeste” de Orlando e Cláudio Villas Bôas




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