70 Poemas


Sobre 70 poemas e uma fronteira que não existe

Talvez não exista mesmo uma separação, uma dicotomia entre a vida e a arte, entre a poesia e a existência cotidiana, vida é vida e arte é arte dirão os mais puristas ou pretensamente pragmáticos, neste 70 poemas as dicotomias entre uma coisa e outra caem por terra, os poemas deste livro se alimentam de uma certa perplexidade-espanto diante dos fatos do mundo, mas projetam na evocação destes fatos uma luz que torna visível o vazio de mudanças necessárias que operam cada vez mais no campo do insolúvel, não estamos no território de um Drummond ou de um Neruda, não se trata da perplexidade que nasce de um eu trincado pela energia dos fatos, de um eu digamos como o que narra sutilmente o ensaio de Camus, O mito de Sísifo. Em 70 poemas comparece a irradiação de um pensamento que tenta comunicar com sucesso a impossibilidade de apreender o significado do mundo dos entes humanos no fim desse atalho para lugar nenhum que a humanidade tomou e que nesse começo de século se torna cada vez mais visível. Como uma espécie de R.A.P. minimalista , um tipo de narrativa vocal que se apresenta como uma crônica social do nosso tempo cujas siglas indicam as palavras Ritmo e Poesia como vetores, assim se apresentam alguns dos textos deste livro de Ana Peluso que como os rappers se utiliza do ritmo do pensamento analítico em uma chave de perplexidade ou de inquietude calma casada com um furor abstrato quase imantado pela revolta e pela energia da recusa. O termo Poesia nos dias que podemos insuficientemente chamar de atuais é muito mais a força de uma musicalidade interna que projetamos no mundo e que o mundo ecoa em algumas palavras deslocadas de seu contexto original em arranjos capazes de criar novas estruturas de conhecimento da vida, os poemas deste livro cumprem bem este propósito. Obviamente o lirismo está aqui e ali, Ana pertence a esta família dos líricos por vocação e não líricos como um projeto estilístico, ela jamais diria de si mesmo, sou poeta, os líricos por vocação não se obrigam o uso de qualquer tipo de capa nominativa que os separe da vida por ser vivida ou que separe esta vida do acontecer humano como uma enorme comunidade de singularidades chamada aqui na falta de uma palavra melhor de ‘leitores’.

Marcelo Ariel

 

 

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ALGUNS POEMAS DO LIVRO

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Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças

em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento

homens como novelos
de uma lã tão tosca

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Desconfio
de quem diz conhecer só o céu
até os pássaros pousam

,
***

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Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber

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***

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Não fiz as unhas esta semana

gastei-as

percorrendo teclas eternas

formulando perguntas

serrei-as

clicando em cores

formatando

a métrica

da ideia

da busca

de soluções

 

montei estruturas sem luxo

anéis de saturno

circulares

paralelos

em eterno movimento

olhei-as buscando a palavra

o sentido exato

risquei a pele

na ânsia por respostas

 

 

apoiei-as na língua

entre os dentes

e meu olhar se congelou num ponto

o limite

 

indignada, cortei uma delas

com uma mordida

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***

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Pedra

em auto-mar

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É incompleto
como qualquer lado das rochas
quando o outro lado da mesa
testemunha no grande espelho
a ausência de uma foto
e também de um porta-retratos

quando um ponto de fuga dispara
distante da orla
e nem uma água reflete uma pedra

é incompleto
quando furtada a sua imagem
se ergue desatento dos detalhes das pequenas coisas
que são ainda menores
se incompletas

é incompleto
olvida incompletos entremeios
a hora exata dos sortilégios
seus resultados
e lucidez

e em frente ao espelho feito de hora vaga
desaparece na nuvem que lhe encobrira
o ar
aquele suspiro completo
tão infundado
quanto quente

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***

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Os olhos dele
os olhos dele pareciam dois gritos
os olhos dele pareciam dois gritos na noite
os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia

e ela, sereia no dia da santa
matreira de olho na santa
cabreira sem o aval da santa
ignora

 

 

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70 DESASSOSSEGOS

 

Se me fosse permitido propor uma tipologia, temática e formal, de 70 Poemas (Ed. Patuá, 2014), de Ana Peluso, eu diria que o livro da poeta paulistana se constitui de:

1) poemas de mal-estar, de desassossego, de desilusão com o mundo contemporâneo;

2) poemas-pílulas, de grande força sintética (alguns autênticos hai-cais);

3) poemas narrativos (verdadeiros minicontos expostos em versos);

4) poemas metalinguísticos.

O que une as quatro vertentes é o tom, entre irônico e sentimental. Porém, não se trata de uma poesia de sentimentalismos – mas de emoções que despontam, emergem, ao serem captadas certas situações do cotidiano.

Nos poemas de mal-estar, chega a ser configurada, mesmo, uma visão apocalíptica, acentuada por imagens que indicam um mundo em disputas, um mundo-jogo, um “WAR gigante”. Um mundo cujos cacos só poderão ser emendados “se os pássaros aprende[rem] a fugir” ou, quem poderá garantir?, “se a ciência/ chega[r] a tempo”. Um mundo explosivo, de violências profusas, quantificáveis, em que assusta um “homem-bomba ao sul de Tel Aviv/ explodindo sessenta/ matando dezesseis”. Para a poeta, “opaco” é o mundo – e também o coração. O mundo é “peso” nos ombros.

Os poemas-pílulas são instantâneos de grande força, como se a poeta esperasse o momento para o bote certeiro, e tudo como se ocupando um segundo mesmo da criação: “Na contramão/ escapa um sorriso/ olhos nos olhos/ [durou um segundo]”.

Nos poemas narrativos, de forte efeito poético, configuram-se por vezes personagens ou mesmo situações bizarras. Este exemplo não deixa de ser brilhante: “Era a gastura em sua pança estorcida/ nunca negou sua fome incontrolável/ como quando viu os cabelos dela/ e voltou para casa ruminando se ela não tinha cabelos demais// e se os comesse?// os comeu// após cortá-los pelo rabo na aula de biologia// a professora branca soltando o giz aos poucos/ a classe boquiaberta voltando-se para ele/ a tentativa rápida de deglutir o maço de mechas enfiado na boca// o laço de fita desfeito ainda boiava nos ares/ quando ele conseguiu”.

Por fim, nos poemas metalinguísticos (tópico ainda muito presente em poetas contemporâneos), a poeta se sente “refém do primeiro verso” e quer crer na poesia como uma espécie de idioma. O ato de escrever é imperioso, pois a poesia palpita e o poeta, por um lado, para compor com a beleza, “torce pela chuva que não cai”, e, por outro, para expressar verdades do mundo, guarda em sua manga “a relíquia dos dias”.

Segura, versátil, sempre consistente no seu fazer poético, mais uma vez Ana Peluso atesta a sua força, inserindo-se como uma das mais significativas vozes da poesia brasileira do século 21.
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Rinaldo de Fernandes

 

 

 

Para adquirir 70 poemas: http://70poemas.tumblr.com

 

 

 

 

 

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Ana Peluso, 1966, escritora, poeta, web designer, lançou recentemente o livro 70 Poemas, que  integra a Coleção Patuscada da Editora Patuá, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.  Participou também da antologia deZamores pela Editora Escrituras, em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan. Também participou de diversas antologias do grupo Anjos de Prata, Poetrix, e, recentemente do TOC140. Em 2007 participou da antologia de minicontos MOSCAS, em homenagem ao escritor guatemalteco Augusto Monterroso, com publicação da Edições Dulcinéia Catadora, resultado da oficina literária do escritor Marcelino Freire no centro cultural b_arco. Também participa da antologia É que os Hussardos chegam hoje também pela Editora Patuá, 2014, e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014. Possui publicações nas revistas Coyote e Ciência e Cultura (UNICAMP), e no extinto jornal O Pasquim. Também possui publicações em revistas eletrônicas,  tais como Germina Literatura, Releituras, Cronópios, Musa Rara, Lazanha, Diversos Afins, Fora de Mim etc. Blogue:  http://anapeluso.tumblr.com

 

 




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