1984 no topo da lista dos mais vendidos


 

Num ensaio de 1961, aproximadamente duas décadas depois da primeira publicação de 1984 (1949), de George Orwell, Erich Fromm afirmou a sua atualidade e importância, “precisamente porque exprimiu o novo sentimento de desesperança que impregna nossa era antes que este se manifestasse e dominasse a consciência das pessoas”.

Na década de 1960, a guerra fria, os regimes autoritários, as nações divididas, o apartheid, a memória recente da Segunda Grande Guerra, entre outros fatos, traduziam a “desesperança”, expressa no livro de Orwell; duas décadas depois, contudo, a confiança no futuro renascia com o início da abertura dos países da cortina de ferro, o “fim” da segregação racial na África do Sul, etc.; era como se estivéssemos caminhando para um mundo finalmente democrático e livre. Assim, em 1989, Ben Pimlott concluiu que “Não apenas a suposta advertência contida no livro [1984] estava completamente equivocada no seu intervalo de tempo (não houve, até aqui, uma terceira guerra mundial ou uma revolução ocidental e os sistemas totalitaristas são hoje menos, e não mais, comuns do que quarenta anos atrás), mas as fraquezas literárias do romance podem ser vistas com mais clareza agora”. A propósito da fraqueza literária mencionada por Pimlott, ela diz respeito às personagens, que, segundo ele, são “bidimensionais”. Mas como poderiam ser diferentes vivendo num regime absolutista?

O mundo de 1984 é de medo e ódio, de cidadãos sem individualidade e sem liberdade de expressão: “Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós”, era o que se ansiava.

Passadas mais algumas décadas, diria que a afirmação de Pimlott a respeito de 1984 está equivocada; ele talvez tenha esquecido que a história é cíclica e, hoje, parece que voltamos a viver numa época de autoritarismos como a descrita por Orwell.

O fato é que 1984 voltou a ganhar destaque com a ascensão cada vez maior de líderes autoritários ao redor do mundo, sejam eles de direita ou de esquerda. Nos Estados Unidos, depois do fenômeno Donald Trump e, principalmente, depois de ele acusar a imprensa de divulgar notícias “falsas”, afirmando que há fatos alternativos a elas, o livro chegou no topo da lista de mais vendidos. Talvez Trump seja a favor de que “[...] se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os registros contassem a mesma história –, a mentira tornava-se verdade e virava verdade”, como s lê em 1984.

No Brasil também se fala da imprensa e de suas notícias falsas, sejam elas para defender uma suposta “esquerda” ou a “direita”; ocorre que, enquanto sobra um pouco de democracia, a imprensa traz notícias para todos os gostos.

Embora alguns enxerguem 1984 como um ataque ao stalinismo ou um elogio ao capitalismo, o próprio Orwell declarava que “cada linha de trabalho sério que redigi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, tal como o conheço”. Na edição de 1984, da Cia. das Letras, os dois ensaios citados podem ser lidos na íntegra.

 

 

 

 

 

 

 

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Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC, autora, entre outros, de James Joyce e seus tradutores (Iluminuras, 2015). E-mail: dwa@matrix.com.br




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