1917-2017: O século sem fim


 

Os jogadores

Ademir Demarchi – Aurora Bernardini – Carlos Felipe Moisés – Carlos Pessoa Rosa

Fátima Brito – Flávia Helena – Henriette Effenberger – Joaquim Maria Botelho

José Antonio Martino – Luiz Bras – Manoel Herzog – Marco Aqueiva – Micheliny Verunschk – Nathan Sousa – Nilza Amaral – Paulo César de Carvalho – Reynaldo  Damazio – Silvana Guimarães – Simone Adami – Tarso de Melo – Vivian de Moraes

 

Um jogo coletivo para rever algumas efemérides que em 2017 comemoram o centenário. Esse jogo de rever o passado histórico pela Literatura quando jogado, por um grupo de 21 escritores, como o fizemos, parece demonstrar que a História não está disposta em prateleiras como um produto pronto e acabado. A História é especialmente descoberta e, também, invenção a que se chega pela Literatura com sensibilidade e intuição. O homem pode aceitar ou não a visão histórica dada sobre os acontecimentos. Narrar como libertar-se daquilo que deve ter acontecido contrapondo-se ao era uma vez e foi assim. Esse é o poder da Literatura.

Porque se compreende hoje que a História é, sob quais­quer aspectos, uma interpretação, um acontecimento histó­rico é sempre uma ficção cada vez que é narrado novamente.

Sabemos que as periodizações, quase sempre, dizem respeito a questões de conveniência histórica, didática ou jor­nalística. Passam ao largo de muita coisa e, talvez, do essen­cial. Para os historiadores já não há mais dúvida de que a escolha de um período a ser estudado ou comentado é pura abstração, uma convenção. Há tantas possibilidades de abor­dagem e variáveis, do micro ou macro olhar, do cotidiano aos movimentos sociais mais amplos, que ao final das contas sen­timos a areia da verdade escorrer entre nossos dedos.

O que nos reservou ou ainda nos reserva este século sem fim? Já estamos mesmo no século 21, apesar de todos os avan­ços tecnológicos e a ascensão e rápida derrocada da globaliza­ção? Ou o século 20 ainda se esparrama em nosso imaginário? Quem poderia sintetizar, intuir e até mapear o espírito do século passado que ainda não terminou?

Esta coletânea de vinte contos é uma tentativa de dar voz àqueles que lidam com a palavra e ao mesmo tempo saber como os escritores apreendem o estado de coisas deste recorte histórico.

O aqui e agora em que estamos imersos exige resistência em vários níveis. Resistência é a palavra essencial de nosso zeitgeist, pelo menos para os que estão um pouco mais despertos. E a literatura é, ou pelo menos deveria ser, uma forma sofisticada de resistência. Resistência à perda da memória, à banalização da linguagem, à desconsideração pela dignidade da vida, à problematização do outro (o inferno são sempre os outros; o demônio, as diferenças), à falsificação e dissimula­ção dos fatos.

O que este livro multifacetado pretendeu fazer é misturar ainda mais o caldo e oferecer pequenos lampejos, algumas epifanias, re­denções possíveis, líricas, diáfanas. Visões que resistem ao olhar cristalizado e padronizado perante o assombro da existência humana.

 

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Convidamos, agora, você, leitor do Musa Rara, a participar da continuação desse jogo. Para isso, comece por dar uma boa espiada em algumas poucas cenas e fragmentos. Veja e venha. Abra a porta devagar. Não, não, antes, espere. Primeiramente aguce seu olhar pelo olho mágico e deslize pela página.

 

I

Lá estava aquela mulher de aloirado discreto, ensolarada em seus traços teutos com as costas a um palmo dos meus olhos, as efélides em sua pele, toda uma constelação me cegando, me aproximei pegando com cuidado o zíper nas pon­tas dos dedos, aspirando lenta e sutilmente o perfume que vi­nha do seu pescoço e cabelos, e o deslizei um pouco mais para baixo para desenroscá-lo e então o subi lentamente… Pronto! Ela se voltou e então me perguntou quanto eu pagaria pela taça… Cinco mil euros, eu disse, sem pensar! Talvez, com o zíper, tivesse caído em mais uma de suas armadilhas… Não me importava, o dinheiro nunca me importou, mas sim o ne­gócio e seu jogo, ali em alta banca… Ótimo!, disse ela, fecha­do! Vamos brindar! Então fui buscar a bebida e retornei com a Viúva que gelava: vamos pegar as taças! Não, disse ela, primei­ro brindemos nesta taça! Estremeci… Brindar naquela taça… Abri então La Cliquot, comme il faut, e servi na taça que ela segurava com expectativa… Ela a elevou à nossa frente, fez um brinde, deu o primeiro gole e me entregou. Levei-a ao alto lentamente, como ela fizera, enquanto passavam por minha

mente os aviões ingleses, franceses, canadenses voando em meio a tiroteios, o avião vermelho alemão, o Barão, explosões, fumaça, nós ali, então sorvi um gole e La Veuve me fez sentir a maciez das nuvens em que estava… Depois busquei o di­nheiro, ceamos, tomamos todo o champagne alcançando um ponto nas nuvens em que não se ouvia mais explosão alguma e se sentia um alto grau de intimidade que nos transformava em aviõezinhos fazendo volutas de desejos… Olhando-nos com expectativa um ao outro ela disse: preciso que me desen­rosque o zíper… Ah, sim, claro!


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II

Mais adaptadas, as pupilas apresentaram-me uma idosa nua, saía provavelmente do banho, tinha o corpo molhado e os cabelos brancos escorridos sobre os ombros. No lado opos­to, uma jovem ajeitava o travesseiro com as mãos tentando dar-lhe alguma forma. Não era uma visita aguardada, não esboçaram qualquer reação pela minha presença. Foi o forte ruído provocado pela porta ao fechar-se pelo peso de meu corpo que levou a idosa a proteger-se com uma toalha felpuda e interrompeu o movimento das mãos da moça.

Recomposta, a mais velha expôs a nudez deixando a toalha sobre uma cadeira no centro do quarto. Ignorado e an­gustiado, tinha uma certeza: não abriria a porta atrás de mim. Aquelas bandeiras vermelhas e pretas instigaram um déjà vu sombrio. Sobre a cômoda, um calendário indica outubro do ano de 2017. O que eu fazia em tal época? O que conver­savam as duas mulheres? Estranhamente aquilo que eu ouvia poderia ser qualquer idioma, falado a qualquer tempo ou es­paço, como um ritornelo.


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III

Linha vermelha, sentido Corinthians-Itaquera, entro no vagão lotado, me encosto perto da porta, meus olhos ainda grudados aos pés das pessoas. Estação Marechal Deodoro, as portas se abrem e levanto os olhos por um momento, mas não conseguirei mais abaixá-los, porque ele entra. O homem é alto, e o paletó escuro o alonga, os cabelos penteados para trás brilhantes de gel ou de alguma pomada, os sapatos reluzentes, os óculos de aros grossos. Uma pessoa cede o lugar e ele senta, de frente para mim. É velho, deve estar na faixa dos setenta anos. Fico aguardando que ele abra a boca nem que seja para bocejar. Quando ele entreabre os lábios carnudos, a visão me estarrece. É dentuço!

 

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IV

Doía-lhe a cabeça. Estranhava a solidão, o silên­cio. Estava acostumado ao barulho de gente na casa. Barulho de gente pequena que o incomodava com os seus berros, batia nele. Às vezes ficava com muita raiva!… Com a fúria vinha a insuportável dor de cabeça, perdia conhecimento das coisas, esquecia-se de tudo. Lembrava, as­sim mais ou menos, de umas pessoas que lhe davam panca­da, jogavam-lhe água. Aí a vista ficava toldada. Era gente se agarrando, correria, os pequenos fugindo e gritando pela casa. Nunca sabia direito o que acontecia naqueles intervalos em que ficava esquecido das coisas. O certo é que os miúdos desapareciam. Depois surgiam lá longe, atrás da porteira do curral ou atrás dos tijolos do poço, com carinhas esquisi­tas de medo e raiva. Quando recobrava a vista, parecia estar acordando de um sonho esquisito. Sentia o corpo lhe doer, mas ninguém tinha pena dele, e ainda gritavam. Não enten­dia. Melhor era ficar quieto num canto, esperando passar a dor de cabeça e fugindo daquela gente que só fazia gritar, incomodar, aperrear.


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V

Os meus olhos tentam espalhar-se, mas confrontam-se com um espaço sem cor e com o cheiro exalado pelas páginas dos tantos livros com quem divido minha vida. Estamos em decomposição. Gestei alguns poucos dos que estão na estante. Eles levam minha assinatura. E fui gestada, página a página, por centenas de outros. Lidos e relidos.

Claustrofóbica, me esforço por escapar das paredes e volto-me para o outro lado, o da janela. Lá debaixo, vem o cheiro de gasolina e de outras drogas. Olho pela vidraça em­poeirada e alcanço o Viaduto do Chá. Mas não é ele que vejo.

Talvez os olhos de Rosa se esforçassem para encontrar a imagem do companheiro baleado por paramilitares e obriga­do a caminhar sobre a ponte até um posto policial, onde seria entregue morto como indigente. Talvez buscassem recuperar a imagem da garotinha que se afastara dos pais naquela sala de espetáculo tomada pela energia da música e principal­mente da dança. Eletrizo-me só de mentalmente recompor a atmosfera que emoldurou aquele encontro jamais registrado por qualquer historiador.


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Quem é o autor de cada um dos fragmentos?
Considerando que são cinco fragmentos e cada um deles de um autor diferente, associe cada trecho a seu autor, indique seu palpite no comentário da postagem a ser no publicada no Facebook, no  dia 10, e concorra ao sorteio de dois exemplares de 1917-2017: O século sem fim.

PARTICIPE ! Não é necessário acertar para concorrer ao sorteio.

 




Comentários (3 comentários)

  1. Marco Aqueiva, Queridas(os) leitores do Musa Rara: Todo o processo que envolveu a produção do livro 1917-2017:O SÉCULO SEM FIM foi marcado pelo signo da aventura. Do jogo. Que tal você também participar? Saiba como, fazendo a leitura do texto, certo?
    7 agosto, 2017 as 14:22
  2. Nilza Amaral, Não vou estragar a surpresa antes do lançamento
    8 agosto, 2017 as 18:28
  3. Marco Aqueiva, SORTEIO da coletânea 1917-2017: O SÉCULO SEM FIM. Registre um comentário no post publicado no facebook, hoje (10), respondendo: Por que você quer ganhar o livro?
    10 agosto, 2017 as 13:14

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