“Amor é tudo”


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Narrativa de André Sant’Anna aciona um moto-perpétuo verbal

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Se tudo o que há no mundo existe para acabar num livro, “Amor”, de André Sant’Anna, ambiciona encapsular o espetáculo do mundo (ou da mídia) entre duas capas. Publicado originalmente em 1998, pela editora Dubolso, esta obra de estreia revelou ao público um satirista tropical com um humor ácido. Em 2014, a editora carioca 8 e Meio relançou este extenso discurso enumerativo/reiterativo sobre o estado do mundo ou desta  civilização movida a combustível fóssil.

A partir da epígrafe de abertura, que descreve a Terra como “imensa tulha de fertilizante”, encharcada pelo sangue de todas as criaturas que já existiram, a cornucópia verbal de Sant’Anna jorra imagens sem trégua, compondo um catálogo universal de símbolos e signos da cultura: o Cristo na cruz, criancinhas esguichando sangue ou morrendo de fome na África, Marilyn Monroe e Grace Kelly, Freud e Pelé, Batman e Robin, Paul McCartney e George Harrison, Jimi Hendrix e Roberto Carlos, e um espectral “piloto em chamas” (que poderia ser Niki Lauda, talvez). No mais, o cenário é povoado por “humanos pensando em bocetas e paus”, todos embalados pelo mantra incessante daquelas “palavras todas, tudo o tempo todo”, com esses caras na televisão descrevendo ininterruptamente ”essas coisas acontecendo o tempo todo”.

O panorama cinético, frenético, definitivamente pop, enfoca e engloba especificidades da realidade brasileira, com renitentes menções a “todas as músicas do Roberto Carlos”, e à onipresença do povo — sempre suando, fedendo, e gritando “Brasil, Brasil”.

 

“Tudo o tempo todo”
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Para além do efeito cômico, a repetição obsedante desse temário — repetição que é a ferramenta básica dos meios de comunicação —, demonstra o quanto o grande público é permanentemente seduzido, persuadido, manipulado, infantilizado. Esse solilóquio autista engolfa e arrebata o leitor para um pesadelo multiforme de Hieronymus Bosch, ilustrado (na edição original) por cartuns do próprio André Sant’Anna, com um traço cômico e naif.

A obsessão universal por sexo é recorrente nessa trama circular, com crueza hilariante ou revestida pelos clichês romanticóides da “música barata”, como dizia Brecht. Vale proporcionar uma degustação:

“…e todos aqueles poetas românticos fazendo serenatas para todas aquelas bocetas e falando do coração que batia feliz quando os poetas viam aquelas mulheres e as mulheres fugindo [....] deixando todos aqueles poetas enlouquecendo e suicidando e a mulher nos braços do outro e todos aqueles outros, com nervos de aço, possuindo as bocetas de todas aquelas mulheres sem coração”;

E tome overdose de “toda essa angústia das palavras do Roberto Carlos, palavras do Paul McCartney, palavras de amor por todas aquelas mulheres”, e de todos esses homens que “vão se esforçar para conquistar aquelas bocetas, farão ginástica, ganharão dinheiro, comporão canções de amor. Mas aquelas bocetas não são fáceis”.

Por conta dessa dicção calculadamente desabrida, o escritor Bernardo Carvalho saudaria o livro seguinte de Sant’Anna, “Sexo” (Ficções), como “a melhor coisa que poderia ter acontecido à literatura brasileiro nos últimos anos”, distinguindo seu autor com o rótulo de “transgressor”, para maior comodidade dos cadernos de variedades.

Artista multifacetado, músico e performer, André Sant’Anna também costuma levar ao palco a série de shows “Sons e Fúrias”, em parceria com a cantora e compositora Vanessa Bumagny, e uma banda muito afiada.

Nesse espetáculo, o autor testa e comprova a pegada cômico-corrosiva de seus textos, apresentando trechos deste seu “Amor” e de outros livros.

Quem abrir este livro no ônibus, ou no metrô, corre o risco de rir alto, e causar estranheza aos passageiros entretidos com seus celulares, smartphones e tablets. Como já disse alguém, “Amor é tudo”.

Ou “Liebe ist alles”, já que o livro  acaba de ser lançado em Berlim,. neste outubro de 2015, pela Edition Tempo, com tradução de Michael Kegler.

 

 

 

 

 

 

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Luiz Roberto Guedes é poeta e escritor. Publicou, entre outros, O mamaluco voador (2006), e Alguém para amar no fim de semana (2010). E-mail: lrguedes@hotmail.com

 

 




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